Será a Grécia o berço da Filosofia?

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Começamos a nossa dissertação com uma pergunta: será a Filosofia oriunda da Grécia? Na verdade, trata-se de uma pergunta que parte dum conhecimento geral (a Filoso ia teve origem na Grécia), e pretendemos aqui a abordar sistematicamente a questão com propósito de exercício filosófico.

Será a Grécia o berço da Filosofia?

Fundamentos

A palavra filosofia é de origem grega. Será motivo suficiente para que a própria "ciência" venha da Grécia? Essa probabilidade parte de pressuposto de que quem dá o nome exerce certa autoridade sobre o "nomeado".

Nessa senda, a resposta seria afirmativa. Contudo, não resolve uma série de sub-perguntas colaterais, mas vamos manter três fundamentais: (i) será que outras populações do mundo não refletiam? (ii) se o povo grego é oriundo de várias outros cantos (Índia), será que a Filosofia se construi no local de origem (onde deriva, aliás a palavra), ou será que os gregos o fizeram já na atual Grécia? (iii) serão os problemas filosofados na Grécia endógenos ou exógenos, para explicar a origem da filosofia?

Possíveis respostas

Em relação a primeira pergunta, é claro que todas as populações do mundo refletiam a sua maneira. Agora, a pergunta seria: será uma mera reflexão fator da existência de uma Filosofia? Ou, para se falar dela (Filosofia), serão precisos outras condicionantes? E a ser assim, quais seriam? Etimologicamente: filo [Philo]: eu amo/amor; Sofia [sophia]: conhecimento.

Para construir o conhecimento é preciso prévios suportes e instituições preliminares. Estamos aqui a falar de "Escola", "Centro de saber", "Circuitos de debate", "Círculos", "Ateliês", etc.

É o caso da Grécia antiga; mas também o caso de várias outras sociedades. Os Ambundu por exemplo, não só têm todos essas condicionantes (à sua maneira), mas e sobretudo, o seu vocabulário espanta pela existência dos termos transponíveis para a estrutura filosófica (Coelho, 2010).

Aliás, Cheikh Anta Diop mostrou isso muito bem no caso de wolof (Diop, 2005). T. Obenga publicou Les Bantu (1985) onde expõe as estruturas cognoscitivas compatíveis com aquilo que o Ocidente criou.

Com aquilo que precede compreende-se, porém, que a História da Filoso ia, na perspetiva eurocêntrica, apresenta a Grécia como o berço da Filosofia e de toda a ciência (Mondin, Curso de Filoso ia, Paulus, 16ª edição, vol. I, p.16).

Os filósofo da Luz confirmaram que de facto "devemos tudo à Grécia", tal como Nietzsche dirá. Visto que a colonização europeia espalhou a sua civilização em todo planeta, a ponto de os povos colonizados adotarem culturas europeias como seus modelos, pois o mundo inteiro hoje consome a civilização capitalista europeia como "válida", pode se dizer ­ com uma verdade muito limitada ­ que a filoso ia vem da Grécia.

Porque sublinhamos verdade muito limitada? O vocabulário grego no qual as palavras são oriundas da Índia e China seria maioritariamente egípcio (Cheikh Anta Diop). Alias, a própria palavra filosofia tem raiz egípcia: (i) deusa do amor chama-se Ísis/Lisa; (ii) deus do conhecimento e chamado Toth (leia ßof) ou ainda Sobek (deus de astúcia). Na Grécia, (i) deus do amor era "Eros" ilho de Vénus (deusa da terra/amor) e (ii) deus do conhecimento era Zeus ou ainda, especificamente, Atena.

Ora, entre os termos possíveis progenitores da palavra filoso ia, as egípcias são as mais prováveis (Batsikama, manuscrito, p.138). No seu manuscrito P. Batsikama, baseando nas escritas de Cheikh Anta Diop, concluiu que, partindo da constituição populacional da Grécia antiga, "a palavra filoso ia buscou a sua origem na teosofia/civilização egípcia, não só por causa da elevada civilização egípcia, mas ­ talvez ­ porque os próprios pré-socráticos teriam sido oriundos do Egipto" (p.138).

Hegel apresentava a sua ideia sobre a inexistência de um passado histórico ­ de progresso, de desenvolvimento ­ dos povos africanos, cuja História, para ele, estava "envolvida na escuridão negra da noite" (Boubakar, 2009: 16). Se ele vivesse no nosso tempo onde a tecnologia prova que as pirâmides são obra duma perfeita astrologia intimamente ligada à geometria/matemática, e que os primeiros grandes matemáticos gregos foram estudantes (mal) sucedidos no Egipto antigo... talvez teria ele o tempo de rever as suas teses (hoje tidas como racistas, desusadas e caducas).

O que se pode dizer dos temas abordados por Sócrates, Platão, Aristóteles e outros? Dos quarenta e cinco temas abordados por Platão, cerca de dezassete são presentes na civilização egípcia (Batsikama, ms:141).

O facto de Sócrates não fugir da prisão faz parte das virtudes egípcias, ao contrário do covarde Páris (Guerra de Tróia). A dialética era uma arte dos sacerdotes egípcios, que na Grécia, Zenão de Eleia (490-430 aC.) será o fundador. Aliás, Eleia era a atual Itália e os "ventos de Lybis", onde se refugiaram os sapientes egípcios depois da decadência do século V antes de Cristo.

Os tragediógrafos, os tragicómicos e os dramaturgos gregos na antiguidade abordam temas relacionados com a sua "nova" sociedade grega, mas com a dialética herdada dos sapientes egípcios: "Ptolomeu acorrentado" é uma história popular egípcia dos séculos X antes do Cristo; "Rei Édipo" ilustra o sacrifício pelo sangue real e a sua preservação (o que era próprio dos faraós).

O género "comédia" parece-nos sátira inicialmente na posição teosófica do faraó, e Aristófanes apresentou obras-primas que ilustram a Grécia como um "rotunda" onde se cruzaram todas as culturas antigas.

Conclusão

Visto que os povos do mundo tiveram as suas formas de refletir em determinadas questões; dado que os Gregos são oriundos de diferentes polos juntos das suas culturas originais; e, tendo em conta que os temas filosofados são exógenos e endógenos, podemos concluir que a Filoso ia não terá nascido apenas na Grécia: o próprio termo tem filiações no Egipto antigo, e a colonização do mundo parte da Europa, ora a Europa foi "colonizada" pela Grécia. Daí que se diga que a Filosofia nasceu na Grécia: uma leitura eurocêntrica por rever. Aqui expressamos as nossas considerações.

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