Ter 12 anos

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Lembranças do Maculusso

Não os 12 anos de hoje, os dos utilizadores experientes de ipads, ipods, iphones, tablets e frequentadores diários de redes sociais, conversadores entusiastas em chats, comentadores regulares de outros comentários, vulgo posts, cujos teclados se revelam como um prolongamento dos próprios dedos; com auriculares quase permanentemente ancorados nos ouvidos, escrevem sms e enviam mms de olhos fechados naquela linguagem indecifrável para a maioria dos adultos, quase sem vogais, preposições, pontuação (tidos como um estorvo!) e cuja sobrevivência dir-se-ia depender das novas tecnologias como as galinhas da ração.

Os meus 12 anos, há tão pouco tempo, afinal, confinados à cidade de Luanda na década de 70, conheceram outras experiencias e aventuras, nem melhores, nem piores, apenas diferentes e por isso dignas de registo. Algumas delas não serão familiares para alguns dos que lerão este relato: as campanhas de trabalho voluntário são disso um claro exemplo.

Carregar sacos de cimento no porto de Luanda, cortar cana-de-açúcar, varrer as ruas da nossa cidade, participar em campanhas de vacinação contra a poliomielite, tudo isso parece abstrato visto com distanciamento, mas a verdade é que eu e muitos companheiros passámos por essas experiências insubstituíveis ainda em pleno crescimento, quando o matabicho de pão com manteiga já era um luxo e tomávamos banho com um púcaro de água.

Porém, éramos os reis do mundo: o saco de cimento pesava tanto como nós próprios e era carregado por dois meninos ou meninas, para que tal missão fosse humanamente possível; o corte de cana-de-açúcar permitia que pela primeira vez empunhássemos uma catana e sentíssemos o poder dessa responsabilidade; mas o mais estimulante de todos esses desafios, foi provavelmente a campanha de vacinação anti poliomielite, através de um simples rebuçado, de acordo com o que na altura eram as recomendações da O.M.S. a esse respeito.

A nossa capacidade de organização era tremenda, enquadrados por adultos e jovens mais velhos, e a nossa disponibilidade era total. Estávamos a edificar um país, cheio de dúvidas e contradições, mas também de esperança e de certezas.

Éramos basicamente felizes, as nossas acções tinham um propósito real e partilhávamos causas com todo um povo; sabíamos que estávamos a crescer com o país que ajudámos a nascer.

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