Vulgarização ou transfiguração do semba

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Sendo o Semba de longe um dos estilos musicais angolanos mais populares, penso ser normal que os artistas mais populares e populistas do nosso cenário invistam neste estilo.

No entanto, noto que nem sempre esta "investida" no Semba tem sido bem-sucedida. Isto resulta no que eu chamo da vulgarização do Semba. Esta vulgarização do ritmo que Paulo Flores e Carlos Burity cantam como sendo o da" nossa bandeira" vem da bandeira que tem sido dada não apenas pelos intérpretes e produtores destes pseudo-Sembas como também de certos fazedores de opinião.

Mesmo não sendo um entendido em teoria musical e do Semba, discordo com o que na prática tem sido executado e rotulado como Semba. Estou plenamente de acordo que o Semba da Geração que tem produzido desde finais da primeira década deste milénio seja diferente da geração daquele que foi executado entre finais da década de sessenta e princípios dos anos oitenta do milénio passado.

Esta diferença é notória com os novos recursos de gravação, a introdução de novos instrumentos e, claro, a influência e incorporação de outros géneros musicais. É de todo útil frisar que a Música Urbana Angolana sempre esteve aberta a outras sonoridades. Jomo Fortunato justifica este ponto de vista, afirmando ser o "Semba resultado de um processo complexo de fusão e transposição, sobretudo da guitarra, de segmentos rítmicos diversos assentes fundamentalmente na percussão, o elemento base das culturas africanas".

Reconhecendo a minha ignorância quanto à publicação de material que teorizasse sobre o Semba questionei pessoas ligadas ao nosso cenário cultural e musical. A Dra. Agnela Barros, que foi diretora da Escola Nacional de Artes, a firmou que Mário Rui Silva é um dos poucos que se tem pautado por alguns dos clássicos angolanos, sendo este material usado como material de apoio aos estudantes de música.

Ras Tucah técnico médio de música caracterizou o Semba com o compasso de quatro por quatro e que entra em contratempo. O mesmo reconheceu que existe pouquíssimo material teórico sobre o Semba. Um outro homem ligado a música, Tokesse, que tem vários portais de música angolana na internet diz ter uma métrica aparentemente ternária e com pulsação dupla.

Gostaria de chamar os entendidos para um esclarecimento público sobre o Semba. O que iria ajudar a identificar muitos dos temas que são/estão rotulados como Semba.

Esta febre do Semba tem os seus antecedentes tais como:
 • Muita gente pensa que toda a música urbana angolana é Semba,
• Os intérpretes pensam que basta cantar num português mal falado, usando palavras como uaué, maié ou misturando algumas expressões em Kimbundu e já está.
• Os produtores aceleram o kizomba e colocam uma percussão muitas vezes programada. Um amigo chama o resultado desta fusão Ki-zemba
• Nem todos as versões de Sembas dos 60 -70 resultam deste estilo musical e nem toda a música desta época é Semba.

Apesar deste vazio, é de louvar que já temos alguns trabalhos feitos no sentido da história. Tais como os escritos regulares de Jomo Fortunato no Jornal de Angola sobre conjuntos, intérpretes e instrumentistas, José Weza com o seu livro 'O Percurso da Música Urbana Angolana', Sebastião Coelho que nos brindou no seu livro `Angola: Estória e Histórias da Informação de Angola. Também louvo programas radiofónicos como o `Poeira no Quintal' da RNA em que Sebastião Lino tem figuras como Chabanu, Dikambu que têm muito a dizer sobre a nossa música urbana.

Reconheço o esforço de muitos anónimos nesta empreitada. Mas penso que deve haver uma maior interação entre os que detêm a informação e todos aqueles sedentos de obtê-la e desta forma escreveríamos melhor a história da nossa música.

Não quero levantar polémica, mas sim fazer um convite para que possamos fazer abordagens coerentes sobre a nossa música, neste caso o Semba. Penso ser necessário este exercício democrático e também académico e desta forma não confundirmos ,alhos com bugalhos. Doutro modo será um autêntico eu sembo aqui e tu sambas lá.

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