398º Aniversário de Benguela retrato histórico

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Este ano Benguela comemora mais um aniversário: 398 anos, menos dois para o quarto centenário, sem que grande parte dos participantes das festividades não tenha consciência da razão da comemoração, pelo que, a título de subsídio, trazemos ao público o presente artigo começando por estabelecer a diferença entre Benguela topónimo e região geográfica de Angola, por haver uma longa distância, cujo percurso não cabe neste trecho. Percebidos, ambos apareceram quase ao mesmo tempo mas não compreenderam o mesmo alcance da dimensão histórica, quer do ponto de vista político-administrativo (Milheiro, M., 1972), quer em termos económicos e socioculturais (Delgado, R., 1944), mesmo sendo uma consequência de outra.


398º Aniversário de Benguela retrato histórico
Barco da Companhia Colonial de Navegação

Quanto à extensão, Benguela nasceu de uma das propostas do “relatório de Domingos de Abreu de Brito lembrando à coroa a conquista e o alargamento do domínio de Angola à contracosta, datado de 1592” (Delgado, R., 1944) à coroa por necessidade da “ fundação do reino de Benguela” (cfr. op. cit.) havendo já os “reinos” do Khongo e de Angola, dando soluções concretas à exploração de minas ora fracassada em Luanda e a localização de uma passagem mais curta para o Índico. Aprovada em provisão de 14 de Fevereiro de 1615 (Felner, A. A., 1953), a região ao sul do Kwanza separou-se do “reino” de Angola, por conquista militar de 17 de Maio de 1617. Foi assim criado um “reino” através de um entreposto de degredados, com a nomeação de um Governador-conquistador escolhido entre as autoridades da colónia de Angola, cuja extensão territorial que se previa atingir , mediante as razões administrativas, variou no decorrer das épocas, entre os rios Kwanza, Kunene e Zambeze.
Do étimo mbenga, Benguela é corruptela do verbo “okuvenga” da língua umbundu; okuvengela (sujar) / okumbengela ovava (sujar-me a água), relativamente às águas estagnadas e em língua portuguesa é entendido como turvar, turvar-se, perturbar, alterar, transtornar, escurecer, embaciar, nublar, enuvear (Alves, A., 1951). Evoluído de “mbengela”, a toponímia passou a significar perda de transparência, de limpidez, de clareza, perturbação, fazer perder a razão, cobrir o céu de nuvens, situação confusa, indefinição (cfr. op. cit.). Apesar de fazer parte da onomástica planáltica, à semelhança de Katombela, Kaymbambu, Mbaka, etc., a tradição admite que o topónimo tenha resultado da distorção linguística no decurso dos primeiros contactos entre os portugueses e ambwi. Em vez do nome da região que se pretendia saber, os intrusos receberam a justificação da turvês das águas lacustres e fluviais abundantes ao sul da foz do Kwanza.
Antes da penetração da cultura ocidental, da direita do rio Katombela à esquerda do rio Longa abundaram populações de tradição kulembe (Miller, J. C., 1995) dentre falantes da língua umbundu contemporâneo, no caso dos Vasele e Vambwi (Redinha, J. 1970). Até 1617 a faixa entre o sul do rio Katombela ao rio Kunene, então capitalizada por instituições de chefaturas errantes Helelo, segundo o autor ora citado, representados por comunidades pastoris (Santos, A. S., 1965) nomeadamente Vandombe, Vakuvale, Vahimba, Vangendelengo, Vacyavikwa , Vandimba, Vakwanyoka, Vakahona, (Carvalho, R. D., 1997) compreendia, entre outras, as localidades de Lwongo da Catumbela actual, Cingongo e Mbimba, lugar onde se encontra o município de Benguela actual, Kangengo, junto da lagoa Civangulula do Dombe-Grande, pelo que os pastores espalhavam-se por toda a orla montanhosa entre o deserto do Namibe e a bacia hidrográfica do vale do Kupololo. Devido a localização geográfica intermédia ao norte do rio Cubal, os Vasele e Vambwi tornaram-se agricultores enquanto os Vahanya (Redinha, J. 1970) ficaram criadores semi-sedentários distribuídos entre os actuais municípios do Cubal, de Caimbambo, do Chongoroi e os centro-planálticos do corredor Bocoio-Ganda ao resto do interior, cujo conjunto também se conhece por Vanganda (Malumbu, M., 2005), compreendidos entre Vaciyaka , Vangalangi e Vacisanji (Childs, G. M., 1949) enriqueceram a cultura agro-pastora característica da região até então.

Complexo de tradições
Não obstante a rede lacustre e as fozes de importantes rios impostos sobre as potencialidades litorâneas, a exploração do mar é uma actividade de âmbito colonial e os povos Helelo mantêm a pressão psicológica contra as comunidades Vakwambundya, aos que cognominaram de Vakwisi, por serem consumidores de peixe. Esta depreciação é originária da língua olukuvale, falada pelos Vakuvale, tida por adopção Helelo e singular kwisi, corruptela de mbisi, designa peixe. Passou a vakwambisi, vakwisi, os do peixe, como etnónimo infeliz de grupos minoritários do Dombe-Grande, em desprezo aos consumidores de pesca. Por seu turno, os Vakwambundya foram classificados por J. Redinha (cfr. op. cit.) como sendo o grupo Vatwa repartido entre os Kwepe e os Kwandu, que no seu conjunto também se conhecem Kwisi singular de Vakwisi. Foi assim que da miscigenação cultural triangulada entre os Ovimbundu, Vangangela, Vandombe e os interesses mercantis do ocidente a sociocultura de Benguela tornou-se num complexo de tradições comerciais e agro-pecuárias em forma de bolça no espaço antes conhecido por Cingongo .
Do étimo ngongo, há 398 anos Cingongo foi objecto de ocupação forçada, com a participação de “trezentos e cincoenta (sic) homens, pouco mais ou menos, dos quais eram a maior parte delles chatins, çapateiros e alfayates” (sic) segundo escritos do licenciado D. A. Brito citado por N. Gonzaga (cfr. op. cit.) e R. Delgado (cfr. op. cit.), cujo remate final aconteceu aos 17 de Maio de 1617 (Milheiro, M., 1972), data comemorada pelo colonialismo português em victória dos degredados europeus vindos de Luanda e por angolanos naquela altura derrotados, 40 anos depois da independência. A conquista em si foi um acontecimento casual (Almeida, P. R., 1979) motivado por subjectividades
“por não achar em toda esta costa até à altura dita melhor porto, terra de mais salutíferos (sic) ares, fértil e abundante do mantimento da terra, como abundância de muito e diverso peixe que há nesta baía, estando vizinhos de rios [Katombela (Catumbela), Hanja (Cavaco), Kulinge (Curinge) e Kupololo (Cuporolo)] que correm de excelente água (N. Gonzaga, s/d) ”.
No entanto, enfatizou R. Delgado (cf. op. cit.) que “encantado com a largueza da enseada da Torre ou baía de Santo António”, o nomeado Governador-conquistador, dado por Cerveira Pereira que comandou a batalha de 17 de Maio de 1617, “fundeou nela, no porto principal de Quingongo (sic), escolhendo-o para a capital do reino de Benguela (Gonzaga, N., s/d) por aguada e abundância em mantimentos.
Cingongo dos Vandombe, então caracterizado por transacções comerciais, enquanto presidiário ocidental, passou a chamar-se “São Filipe” (Milheiro, M., 1972) em homenagem ao rei de Portugal e tomou corpo ao longo do “século XVII quando o comércio euro-africano se estabeleceu no interior de Angola (Birmighan, D., s/d), que do resto “era alimentado pelos armadores negreiros que tinham como intermediários os sertanejos e pombeiros brancos, negros e mestiços (Yambo, F, X., 1997) justificando a estrutura arquitectónica inicial da localidade caracterizada por quintalões privados designados em língua umbundu por “ovimbaka” ou “imbaka”, plural de “ombaka” do qual emergiu o topónimo “Mbaka” (Coelho, S., 1999). Antes Cingongo, depois «São Filipe», passivamente Benguela, passou a chamar-se Mbaka, isto é, terra dos quintalões comerciais o que traduz um conjunto de tradições que definem o status da personalidade etno-histórica e psico-intercultural do actual município de Benguela.
Enquanto presídio comercial (Cavazzi, J. A., 1965) interligava-se com o resto do sertão através de duas rotas distintas nomeadamente a de Katombela, ao centro político-administrativo Mbalundu, até Ekovongo (Birmighan, D., S/d) e a de ngangela através de Mbimba, interligando as localidades de Kakonda, Ciyaka, Cipeyo, Wambu e Sambu (Yambo, F, X., 1997) até Ekovongo, o centro político-administrativo do Viye, intermediário da difusão mercantil do planalto ao resto do continente (Birmighan, D., s/d), cujas caravanas de facturadores dispunham das mais variáveis mercadorias (Yambo, F, X., 1997), desde fazendas que compreendiam os lotes de tecidos de algodão denominados zuartes em cinco qualidades conhecidas pelas origens nomeadamente: primeira e segunda sortes benguelense; primeira e segunda sortes inglesas; primeira sorte lisboeta; fazenda de lei, um tecido de algodão de fraca qualidade; chitas, tecidos de algodão estampado colorido, o mesmo que pintados; baetas, um tecido caro próprio para ofertas, riscados; lenços; algodão cru; cobertores; aguardente de péssima qualidade; contas, o mesmo missangas (olomota); surtidas; campainhas; lazarinas (kanyangulu); pólvora e armas de fogo, etc., que davam aos sertanejos em troca de escravos, marfim, cera, borracha, etc.

O "reino" de Benguela
No momento em que o “reino” de Benguela foi criado em 1615 com a nomeação de um “Governador-conquistador” (Milheiro, M., 1972), a actual configuração de Angola era um espaço compreendido entre dezena de Estados soberanos emergidos das distintas realidades socioculturais de raiz «(mu)ntu» no caso do Khongo, então feudatário de Portugal que convencionou chamar de “reino”, e o “reino” de Angola referindo-se à sociocultura mbundu da fala kimbundu, fundado por eles ao longo do corredor do médio Kwanza, 40 anos antes de Benguela, ora de administração autónoma sob ordens de um governador com a função de Capitão-tenente (Almeida, P.R., 1979). Justificava-se a criação do “reino” de Benguela pela coroa nomeando um “Governador-conquistador”. Esta aventura foi exclusiva para a conquista de uma Benguela que se imaginava estendida a todo o território que não pertencia aos “reinos” antecedentes acima ditos. Oito anos depois da conquista, de 1625 a meados do séc. XIX, o território angolano foi conhecido por divisões administrativas características de presídios e distritos governados por militares nomeadamente Capitães-mores e regentes, substituídos posteriormente por comandantes militares com funções administrativas e jurídicas o que elevou Benguela à categoria de Capitania.
O reordenamento administrativo, regido por Decº. de seis de Dezembro de 1869 e reforçado com o de três de Março de 1870, reduziu os “reinos” fundados a uma Angola restringida ao litoral entre os distritos de Luanda, Benguela, Namibe e com a Portaria de um de Agosto de 1911 aprovou-se o regimento de circunscrições civis. Além do litoral acima aludido passaram a vigorar os distritos do Khongo, da Lunda e Huíla (Milheiro, M., 1972). Nos últimos anos da implementação política constitucionalista colonial, Benguela compreendia três presídios: a) S. Filipe de Benguela, b) Kakonda (Caconda) e c) Novo Redondo [Sumbe] com 8 distritos abrangendo o Dombe-Grande, Bailundo, Huambo, Ngalangi, Sambo, Cilenge , Huíla e Bié. Sob Decº. n.º 238484, de 16 de Junho de 1914, o topónimo de Angola evoluiu distribuindo-se em cinco províncias: Luanda, Malanje, Benguela, Bié, Huíla. Neste contexto, Benguela passou a contar com os distritos de Benguela, a actual sede, Kwanza-sul e o Huambo. Com as alterações administrativas de 1955 segundo a Portaria n.º 8904, de 19 de Fevereiro, Benguela continuou como tal na longa lista de 13 distritos. As últimas alterações aconteceram em 1971, quando Benguela passou a distrito sob Decº. 50/71 de 23 de Fevereiro publicado no Bol. Ofª. nº 57. De lá para cá não se conheceram mudanças significativas de foro administrativo.
Fruto da independência de Angola proclamada aos 11 de Novembro de 1975 e reconhecida segundo o Protocolo de Bicesse de 31 Maio de 1991, algumas comissões executivas dos comités provinciais do MPLA de 1976 a 1980, com base no senso comum, sem critérios uniformizados e geralmente em plenos comícios comemorativos, assumiram algumas alterações administrativas em diferentes escalões. Os distritos coloniais tornaram-se províncias, os concelhos daquela época passaram a municípios, os postos administrativos a comunas e alguns topónimos de bairros, praças, avenidas e ruas também se alteraram.
Neste contexto, Benguela de hoje é o topónimo do município sede distribuído por zonas administrativas, de origem Cingongo, tratando-se de uma localidade da faixa litorânea do Atlântico caracterizada por uma mancha semidesértica do Namibe, antecâmara do deserto de Kalahari, estepes, pântanos, fozes de importantes rios entre alguns intermitentes e vales que deram sustento à cultura pastoril de chefaturas itinerante ndombe cujas potencialidades económicas foram muito cedo descritas por A. Battel (apud. Delgado, R., 1944). Tornou-se S. Filipe porque a condição pastoril das chefaturas ora ditas não se compadeceu com a cultura de violência ocidental pelo que irresistentes deixaram o espaço aos degredados para se confinarem ao sul entre o Kangengo e Ndombe onde permanecem asfixiados pela sociocultura umbundu. Como província de dez municípios (Milheiro, M., 1972), com bom clima, precipitações abundantes e tradição agro-pecuária, Benguela impôs uma economia de índole sedentária (Nascimento, J. P. 1910) facilitando a estruturação e a consolidação de influentes centros político-administrativos consuetudinários no caso dos Akokoto de Maka Mombolo, Ebanga e Cikuma nos municípios de Balombo e Ganda, respectivamente.
Dinâmicas do mercado

Como se pode perceber a evolução histórica de Benguela é implícita ao país inteiro reflectindo toda a sua trajectória em obediência às distintas dinâmicas em diferentes estádios do mercado internacional negreiro (do tráfico de escravos à escravatura) e desta ao contratado. Depois das comunidades pré-coloniais, com a difusão etnolinguística Bantu, criaram-se premissas institucionais que permitiram o êxodo de contingentes europeus, africanos judeus, árabes em cerca de 360 anos, de 1617 a 1975. A industrialização regional, iniciada no final do séc. XIX com o CFB – Caminho de Ferro de Benguela (1903), o Porto do Lobito (1928) e a CAA - Companhia do Assúcar (sic) de Angola sedeada em Luanda (1920) com escritórios em Benguela e Lisboa, atraíram uma mão-de-obra variada de muitos países.
Quanto ao processo do repovoamento da região com contratados, esta última destacou-se por ter sido proprietária de Fazendas «Tentativa», no Caxito; «S. Francisco», no Dombe Grande; «Marco de Canavezes», no Cubal, assim como a «Sociedade de Recovagens», no Lobito. Pela mesma razão, depois da II Guerra Mundial, colónias alemãs, cabo-verdianas, são-tomenses, etc., afluíram à região em grande escala. Com as três guerras de resistência ao sistema administrativo colonial de 1961 a 1974 e civis de 1975 a 1991 e 1992-2002, o espaço tornou-se receptivo aos desterrados políticos e refugiados do interior. Entretanto, a partir de 2002, Benguela assiste a novas rotas migracionais no litoral ao interior e de estrangeiros africanos, europeus, asiáticos, latino-americanos, alterando consideravelmente o mosaico sociocultural.
Enquanto província, com a capital mantida com o mesmo topónimo, predominantemente umbundu havendo minorias etnolinguísticas ao longo do vale do Cuporolo, Benguela é parte do centro-oeste de Angola, abrangendo uma área de 39,826.83 km2, coisa igual a 3,19 % do total do território, cuja localidade, tal como os quintalões privados (ovimbanka, mbaka) o caracteriza, continua servindo de forja de novas dinâmicas socioculturais contribuintes a uma personalidade específica “o benguelense” diferente do lobitanga, huilano, luandense, huambuense, etc., mas é sulano, portanto, angolano.
A interpretação desta personalidade dificulta a delimitação das fronteiras entre as tradições endógenas e exógenas, isto é, o benguelense sendo hospitaleiro e simpático é também fechado e frio. A estrutura arquitectónica da urbanização antiga revela isto; a função dos quintalões privados consistia na manutenção das relações públicas. Enquanto privado era público dificultando a delimitação das duas coisas. Esta característica explica-se por se tratar de um município emergido do comércio, sob efectivo controlo do “poder-sombra” da maçonaria, o movimento “kuribeka” de Benguela florescido nas primeiras décadas séc. XX, altura que Norton de Matos, então governador e alto comissário de Angola, foi o seu grão-mestre. Tratando-se de uma das sociedades secretas de grande influência social, assim designou-se, “os kuribekas”, pelo porte de becas pretas em cerimónias oficiais. Interpretação similar relaciona-se com o uso prático do topónimo porquanto, apesar de ter sido oficial e herdado do sistema colonial, mesmo sendo corruptela de “Mbengela”, em umbundu continua impraticável por ser de pronúncia difícil comparando com “Mbaka” sobre o qual recai a opção das comunidades falantes desta língua. “Mbaka” traduz a psicointerculturalidade dos cerca de quatrocentos anos da existência da cidade.

Armindo Jaime Gomes "Arjago"

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