A Dinâmica Social de Angola em 1943

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3. A guerra mundial nas proximidades

A Dinâmica Social de Angola em 1943
Monumento histórico do Kinaxixi Fotografia: Arquivo

O Congo belga (hoje RD Congo) representa a mais extensa fronteira angolana, do norte ao leste e, desde 1940 a Bélgica está ocupada pelos alemães. Apesar disso, o Governador-Geral colocou a colónia no campo aliado, ou seja , apoiou o governo belga exilado em Londres, a quem o Congo forneceu o essencial dos meios de atuação graças às suas riquezas mineiras. Um importante exército congolês com enquadramento de oficiais belgas foi formado e participou em várias campanhas nos teatros africanos, da Etiópia à África Ocidental.
Vários desembarques de homens e material processaram-se pelo porto de Matadi, no trecho marítimo do rio Congo, a escassos metros do pequeno porto angolano de Noqui. As autoridades das duas colónias tinham motivos para se vigiarem mutuamente. Em 1940, a neutralidade portuguesa era vista com suspeita pelos Aliados, devido à notória admiração de Salazar por Mussolini mas, em 1943, com o novo curso da guerra, a situação no trecho marítimo do Congo – entre a foz e a zona Matadi-Noqui – é calma, tanto mais que o governo belga baseado em Londres devia ter informações sobre o desenrolar da negociação entre Salazar e Churchill relativas ao uso de bases no arquipélago dos Açores pela RAF.
A norte, na fronteira do então distrito de Cabinda, está o Congo francês, onde se situava a capital da AEF, Brazzaville, sob controle da França Livre também desde 1940, com uma particularidade importante: o Governador– Geral é Feliz Eboué, mestiço da Guiana, nomeado governador do território do Tchad (integrado na AEF) pela esquerda francesa e depois promovido a Governador-Geral de todo o conjunto pelo general de Gaulle, baseado em Londres. Mestiço e com nomeação inicial pela esquerda, era mau exemplo para os ultras do sistema colonial, entre os quais se situava o regime ditatorial português.
Mesmo assim, Angola mantinha a sua única ligação aérea internacional com Ponta Negra, no litoral deste Congo, até que por erros de comunicação um dos voos foi alvejado pela DCA local.
Não houve vítimas a lamentar mas a linha foi encerrada em agosto de 1943. Este incidente traduzia também o nervosismo reinante no Atlântico Sul, onde, sobretudo até ao ano anterior, submarinos alemães atacavam a navegação mercante britânica a fim de cortarem as ligações com a África do Sul, parte do campo aliado com forças numerosas no norte do continente e fornecedor de bens alimentares e industriais ao Reino Unido. Por vezes navios mercantes portugueses também foram torpedeados, por desconfiança alemã de transportarem carga para os ingleses.
Sócrates Dáskalos viajou para Portugal em 1941 e conta o caso do navio “Ganda” pouco antes alvo duma dessas ações na rota para Lisboa. (Dáskalos: op.cit).
Na fronteira sul de Angola em 1943 estava o Sudoeste Africano (hoje Namíbia), teoricamente território sob mandato internacional confiado à União Sul-Africana, mas que esta governava como prolongamento do seu próprio território. A bandeira do posto fronteiriço em face de Santa Clara era sul-africana.
A leste estava a colónia britânica da Rodésia do Norte (atual Zâmbia) que, como o Congo de administração belga, tinha importantes jazidas minerais, ambas exportadas pelo porto angolano do Lobito, colocando este porto na mira alemã. Em 1942 e 1943, a venda de milho angolano á Rodésia do Norte levantou protestos em Portugal, onde meios próximos do governo classificaram-na de ter sido realizada em detrimento da cota do produto destinada à metrópole e pediram explicações ao Governador Morna.
Este assunto será abordado no capítulo de economia deste artigo.
Do outro lado do Atlântico, o Brasil estava na guerra, elemento de repercussão para toda a bacia sul deste oceano. Aliás, no Atlântico Norte, as força navais alemãs estavam em recuo, fator de redução drástica de sua mobilidade para sul.
A imprensa de Angola dava grande destaque ao conflito e sublinhava operações em solo africano. Como amostragem escolhemos dois jornais do dia 12 de março de 1943, um de Luanda e outro de Benguela. A opção por este dia corresponde aos mencionados motivos pessoais, sem perda de valor demonstrativo.
Na verdade qualquer dia do ano em questão daria o panorama e o tom dos jornais publicados em Angola sobre a guerra.
O “Diário de Luanda” era um jornal ligado à União Nacional, o partido salazarista, único legal em todo o império português. O ”Jornal de Benguela” também era dirigido por portugueses mas tinha bastantes conexões ( e colaborações) locais, com orientação mais liberal. Ambos sujeitos à censura, menção que o “Jornal de Benguela” nunca esquecia de estampar.
Na edição de 12 de março de 1943, o “Diário de Luanda” destaca na primeira página, sobre a guerra, a eventualidade levantada pela propaganda alemã, de bombardeiros germânicos poderem atingir a costa leste norte-americana e regressar sem necessidade de escalas. No cento da página publica foto de tropas aliadas embarcando num planador na Tunísia e, na coluna da direita, reproduz despacho da agência francesa de informação sobre combates na mesma Tunísia, nos quais tropas alemãs, sob comando de Rommel, foram repelidas a norte e a sul. O jornalista encarregado da tradução e confecção da noticia, mantêm a frase “perto de Ksar Rhilane, von Anim tentou também ontem um ataque ás nossas forças”, referindo-se às unidades militares francesas. O mesmo vai ocorrer na segunda pagina com a versão italiana, onde aparecem expressões tipo “nossa artilharia” e “os nossos caças”, usadas para as forças italianas.
Mas ainda na primeira pagina, aparece a condenação á morte, em Joanesburgo, do sabotador sul-africano progermânico Sidney Robert Leibrant e
uma breve informação de sucesso dos guerrilheiros na Polónia. Metade da segunda página desta edição do DL é dedicada à guerra com despachos sobre a frente russa, norte-africana e bombardeamentos sobre cidades alemãs e inglesas, dando as versões britânica e alemã.
O “Jornal de Benguela” dá menos cobertura á guerra na primeira pagina, mas mais no conjunto da edição. A frente norte-africana tem destaque na
primeira pagina, com previsão de captura de Gfasa na Tunísia pelas forças aliadas, comandadas pelo general Montgomery. É, portanto, grande o interesse da mídia publicada em Angola na época pelas batalhas do deserto e pelo duelo Montgomery-Rommel. Esta noticia tem grande desenvolvimento na pagina 3, com dados de fonte aliada muito mais extensos que a versão italiana.
Não há menção de fonte alemã.
A pagina 2 tem ao alto, na coluna da direita, uma foto de soldados ingleses fazendo prisioneiros alemães e na pagina 3, referencia à situação interna
francesa com o título “Em Paris houve uma grande tensão contra o invasor” e desenvolvimento do texto favorável à resistência. Na mesma pagina sublinha-se em título o uso pela aviação britânica de bombas de 8.000 libras, aparecendo o texto no seu conjunto abertamente simpático ao avanço tecnológico das forças aéreas aliadas. A pagina 6 do JB desse dia coloca manchete a toda a largura relativa às contra-ofensivas alemãs na Rússia e ataques russos, também com inclinação de simpatia para estes, incluindo referências ao jornal “Estrela Vermelha”.
Embora a censura evite cortar noticias e versões para não quebrar o perfil de neutralidade da política oficial portuguesa, a referência direta a orgãos comunistas não era bem vista.
Na ultima pagina, o JB volta à frente russa dizendo que “os russos sustaram a ofensiva alemã no Donetz e obtêm vantagens noutros sectores”. Um atentado na Alemanha dá lugar a uma breve; referencia é feita ao discurso do vice-presidente norte-americano sobre os riscos de nova guerra mundial se “os russos se propusessem continuar o ideal da revolução mundial” e uma batalha naval na costa holandesa ocupa o centro desta ultima pagina.
A comparação mostra o “Diário de Luanda” mais preocupado em manter a neutralidade do noticiário, (sem duvida devido a suas maiores ligações ao governo) e mais inclinação para os Aliados no “Jornal de Benguela”.
Este jogo de equilíbrio é menos acentuado que um ano antes e muito menos que em 1940, quando a correlação mundial de forças suscitava admiração oficial pelo nazi-fascismo, a ponto de Salazar ter a foto do ditador italiano na sua mesa de trabalho. Mas em 12 de maio de 1943 o Afrika Korps alemão rende-se e os aliados assumem todo o norte africano, afastando a ameaça sobre o Egito e ficando todo o Mediterrâneo ao seu alcance. Dois meses depois Mussolini foi derrubado e em outubro tornaram publico o acordo luso-britânico (concluído em agosto precedente) concedendo a Londres facilidades em bases do arquipélago dos Açores – no qual rapidamente entraria os Estados Unidos. Um contexto que dava outro perfil ao neutralismo português (mais tarde batizado de “neutralidade activa”) e incitava ao fim das “inibições” na mídia de Angola que penderia toda para o campo aliado.
A atualidade militar mundial só é disputa nestes jornais pela atualidade económica local e a centralidade das estradas, cujo perfil é de quase ausência de asfalto ou mesmo de terra batida com manutenção aceitável.

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