A mais antiga escultura em madeira de Àfrica Bantu encontrada em Angola

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Escultura mais antiga da África em Angola

A mais antiga escultura em madeira de Àfrica  Bantu encontrada em Angola
Escultura mais antiga da África em Angola Fotografia: Jornal Cultura

Foi Marie-Louise Bastin, pesquisadora especializada em arte tradicional angolana, de quem fui aluno na Université Libre de Bruxelles (ULB), que
me mostrou aquela que, até agora, é conhecida como a mais antiga escultura em madeira da África banta. Exposta no Musée Royal de l’Afrique Centrale  (MRAC), em Tervuren, onde tive a oportunidade dever várias vezes essa obraextraordinária,de que pouca gente conhece a origem eque pertence à colecção da Secção de Pré-História e de Arquelogia do citado Museu.
Em 1972, F. Van Noten, investigador do Musée Royal de l’Afrique Centrale, publicou um artigo, na revista Africa-Tervuren, no qual analiza pela
primeira vez a escultura em questão, que M.C. Turlot encontrou em Angola e levou para a Bélgica, doando-a ao Museu em 1929.Baseando-me no citado artigo, passo a indicar, em resumo, o que F. Van Noten e outros investigadores descobriram sobre essapeça, a sua descrição e as conclusões a que chegaram.
Quando a escultura foi encontrada, o engenheirobelga M. C. Turlot trabalhava na companhia Diamang. Durante as suas prospecções no Centro de
Angola, na região do rio Liavela,afluente da margem direita do Alto Kwanza, viu-se diante de um fragmento em madeira trabalhado por mão humana, que tinha sido apanhadoem cima de cascalho, sob uma camada de terra de cerca de 3,5 metros de espessura. O poço da sondagem
de prospecçao mineira,muito profundo,de onde a peça foi retirada, distava alguns metros do Liavelae era evidente que o cascalho sobre o qual
ela repousava fazia parte doantigo leito do rio. O leito dos rios muda muitas vezes de sentido perto da nascente.
Segundo a datação obtida por M.W.G. Mook, pelo método do radiocarbono, no laboratório de Física de Groningen, a peça deve ter sido esculpida
entre os anos 750 e 850, ou seja entre os séculos VIII eIX da nossa era. Foitalhada num só bloco de madeira, que tinha sido retirado do
tronco de uma árvore. Pesa 910 gramas, tem um comprimento máximo de 50,5 centímetros e 17,4 centímetros de altura na parte mais alta. O tipo
de madeira utilizada, indica que se trata do Pterocarpus angolensis DC., árvore que, no Oeste do continente africano, só se encontra em Angola,
nas províncias do Kuanza Norte e do Moxico, entre outras. A escultura representa um animal, do qual se destingue a cabeça, o corpo, e, de forma esquematizada, as quatro patas e a cauda. Há quem pense que se trata duma zebra ou de um outro equídeo, mas também poderá ser, por exemplo,um jacaré ou um hipopótamo. Na cabeça e no dorso do animal há estrias, bastante apagadas, que convergem para uma linha mediana, talvez a coluna vertebral, que fazem pensar nas riscas da pele das zebras. A cabeça é muitoalongada. O nariz e a boca, bemdesenhados, são as partes mais evidentes e melhor esculpidas. Os pequenos olhos são esboçados perto da implantação da orelhas. A abertura dos ouvidos parece ter sido feita com um ferro em brasa. As orelhas são espessas e curtas, mas talvez tenham sido mais compridas na origem. No dorso, perto da cabeça e na base da cauda vêem-se dois buracos profundos, também perfurados com um ferro em brasa,que teriam provavelmente servido para fixar plumas ou outros ornamentos. Aliás, o objecto é côncavo e pode ter sido feito para encimar uma máscara,assentando sobre a cabeça, de modo a evidenciar-se por cima da testa do mascarado.
Existiam máscaras do mesmo généro na região. Segundo F. Van Noten, no livro “Lunda” (Berlim, 1935) do antropólogo alemão H. Baumann,
vê-se uma prancha com uma máscara semelhante, de origem Tchokwe, representando uma cabeça de porco.
No catálogo da Exposição Escultura Angolana, Memorial de Culturas (Lisboa, 1994), onde a peça foi exposta, Marie-Louise Bastin afirma que “a feitura e ornamentação deste objecto zoomorfo, cuidadosamente executadas, é já um presságio da qualidade das obras descobertas em Angola Central depois daquela época longínqua.” E, a mesma autora, interrogase: “E qual a sua função ? Que povo terá sido o seu autor ? Actualmente, perto das nascentes do Kwanza, vivem os Ovimbundo, Lwimbi, Ngangela, Tchokwe.Mas há mil anos?”
O Musée Royale de l’Afrique Centrale está actualmente encerrado para importantesobras de renovação e modernização que se vão prolongar até 2017. Este Museu possui um acervo de milhares de objectos, esculturas e obras-primas oriundas do continente africano, das quais só uma parte era exposta em várias salas, antes do seu encerramento em 2013. No Museu encontram-se também bibliotecas, vastos arquivos e diversos laboratórios de investigação científica nas áreas da Biologia, da Botânica, daAntropologia, etc.Quando for reaberto, é de esperar que atão antiga peça aqui apresentada, seja exposta em evidência, junto de outras belas obras provenientes de Angola, de escultores  Tchokwe e Ovimbundu, que o Museu possui nas suas reservas.

Artur da Costa S. Silva*

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