"A Mão Sul-Africana" de Miguel Júnior

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A INTERPRETAÇÃO DA OBRA

“A Mão Sul-Africana” é o título de edição portuguesa (Editora Tribuna da História, 2014) de um estudo publicado originalmente em Luanda (Editora Mayamba, 2013).

Miguel Júnior, à esquerda

Como seria de esperar, a obra começa por um enquadramento histórico e conceptual do tema tratado. O capítulo I é dedicado nomeadamente a um acompanhamento do conceito de guerra insurreccional e da paralela contra-insurreição. É um capítulo muito necessário, pois muitas vezes vemos misturados conceitos que, embora ligados, são distintos, como seja o de guerra irregular, guerra insurreccional e guerra de guerrilhas.
A guerra irregular é a feita por unidades irregulares, ou seja, unidades que não pertencem ao núcleo regular das Forças Armadas de um Estado. Podem efectivamente ser unidades de guerrilha, mas podem igualmente ser de outro tipo, como as milícias, que no período das guerras de 1961-1975 se formaram com o objectivo oficial de auto-defesa das populações. Não eram unidades de guerrilha, mas eram unidades irregulares, componentes da concepção de uma manobra ampla, inserida no conceito português da contrainsurreição.
A guerrilha em si é sobretudo uma táctica, um método de acção armada praticado desde há milénios, principalmente por unidades irregulares de guerrilheiros, mas que vamos encontrar nas mais diversas circunstâncias. Por vezes a guerrilha é a única componente da manobra, como acontece numa certa fase da maior parte das guerras insurreccionais modernas; mas, noutras circunstâncias, a guerrilha pode ser meramente um componente de uma manobra mais geral, que actua em associação com unidades regulares com tácticas convencionais. Na chamada “Grande Guerra Patriótica”, por exemplo, a manobra pensada pela URSS para se defender da invasão alemã passava principalmente pela acção convencional do seu exército regular na frente de combate, mas, na retaguarda alemã, actuavam muitas centenas de pequenos grupos de guerrilheiros, coordenados sempre que possível pelo comando militar central. Estes grupos eram apoiados sobretudo pelo ar e tinham como alvo prioritário as linhas de comunicação do inimigo. Eram forças irregulares de composição muito diversa, desde militares que tinham ficado para trás, separados das suas unidades em retirada, até civis, que integravam as guerrilhas para resistir ao invasor. Vamos encontrar uma situação muito semelhante em Portugal, no período das invasões francesas (1807-1812). Também nessa altura a vitoriosa manobra Aliada passou pela acção conjunta das forças regulares de primeira linha, com os grupos de guerrilheiros que actuavam na retaguarda do inimigo e eram mesmo mais numerosos que o exército regular. Foi a conjugação dos dois tipos muito diferentes de tácticas, que fez a vida impossível para os invasores franceses e levou à sua derrota.
A guerrilha é muito antiga, confundindo-se com as origens da guerra. Na Antiguidade Clássica, por exemplo, podemos mencionar as famosas guerras dos Lusitanos contra o invasor romano na Península, que eram já fundamentalmente guerras de guerrilha. No entanto, a guerrilha moderna, com as suas tácticas características vai-se desenvolver muito associada às guerras de resistência à ocupação colonial do século XIX. Um marco importante neste percurso é a guerra anglo-boer de começos do século XX. Nela encontramos muitos dos componentes típicos de uma guerra de guerrilhas: o rápido crescimento das forças regulares que se opõem à guerrilha, a incapacidade de resolver a guerra com uma solução militar, o recurso aos aldeamentos em larga escala, a crescente impopularidade da acção da anti-guerrilha na sua própria opinião pública. No final encontramos uma situação típica de desenlace de uma guerra de guerrilhas bem conduzida: a Inglaterra impõe-se militarmente, mas os boers acabam por conseguir uma solução política que lhes é muito favorável e lhes permite dominarem o aparelho político na África do Sul nas décadas subsequentes. A guerra de guerrilhas no século XX é aprofundada e desenvolvida por experiências como a insurreição árabe na Grande Guerra, ou a acção alemã em Moçambique no mesmo período (conduzida pelo notável general alemão Letow-Voerbeck).
Depois da 1ª Guerra Mundial a guerrilha é amplamente utilizada associada às chamadas “guerras populares”, como acontece na guerra civil na Rússia (1918-1923) ou na longa guerra civil na China, que termina em 1949 com a conquista das principais cidades. É nesta altura que, principalmente a partir de Mao-Tse Tung, se desenvolve a teoria da “guerra popular”, como o autor menciona. Nela, a guerrilha seria a táctica que orientava a acção militar das primeiras fases, exercida fundamente nas zonas rurais; na última fase da guerra, porém, as unidades de guerrilha deviam formar unidades regulares, associadas a um novo governo, e o conflito terminariam com tácticas convencionais usadas para conquistas as grandes cidades, o último reduto do regime derrubado. As teorias da “guerra popular”, nas suas versões russa, chinesa ou vietnamita (todas diferentes) seriam amplamente utilizadas nas guerras anti-coloniais a partir de 1945. O autor acompanha o desenvolvimento desta teoria moderna da guerrilha, associando-a a um fenómeno particular: o das guerras insurreccionais.
As guerras insurreccionais são um tipo particular de guerras irregulares (pelo menos, no período inicial), que surgem quando um determinado grupo, animado normalmente por um ideário político e por um sistema de valores, se lança numa tentativa de conquistar o poder, derrubando o regime existente. Nos últimos cem anos vamos encontrar guerras insurreccionais em contextos muito diferentes. Um dos mais normais são as “guerras de libertação”, conduzidas contra um invasor ou contra um regime colonial – é o caso, por exemplo, da guerra da Indochina. O autor menciona e desenvolve um caso muito curioso: a guerra insurreccional nas Filipinas, que começa por ser dirigida contra o invasor japonês, passando depois a ter como inimigo o poder americano e, finalmente, o governo Filipino posterior à completa independência.
O segundo capítulo do livro é dedicado à Luta de Libertação Nacional de Angola (1961-1974), e desenvolve um quadro rico e colorido do seu percurso, sendo notável a isenção e objectividade com que é feito. O autor acompanha neste capítulo o percurso particular dos três movimentos de libertação e as suas várias fases, muito diversas ao longo de 13 anos de guerra.
O terceiro capítulo incide sobre a contrainsurreição portuguesa em Angola.
As guerras insurreccionais vão conduzir de forma natural ao desenvolvimento de teorias da contrainsurreição. Estas, têm uma matriz comum, mas, tal como acontece com as teorias da insurreição, são muito variadas nos seus desenvolvimentos. A teoria portuguesa da contrainsurreição é desenvolvida desde 1959, indo beber sobretudo nas teorias francesas criadas na Indochina e na Argélia, mas tendo alguma influência igualmente das teorias britânicas, tal como praticadas na Malásia e no Quénia, tudo experiências da década de 1950, embora algumas prolongando-se pela década posterior. São teorias muito diferentes das que os EUA aplicariam no Vietname a partir de 1964, ou das que a URSS aplicaria no Afeganistão, a partir de 1979.
O capítulo não desenvolve as particularidades e os traços originais da teoria da contrainsurreição portuguesa, pois não é esse o objecto do estudo. Traça, sim, as linhas gerais da contrainsurreição em Angola, mostrando como ela se centrou na zona Norte nos primeiros tempos, mas como a centro da manobra passa para o Leste/Sul a partir de 1965-1966.
Há no essencial dois acontecimentos externos a Angola que justificam esta importante mudança. O primeiro, é a independência da Zâmbia, em 1964, que abre a possibilidade de uma retaguarda segura para a acção de guerrilha no Leste de Angola, como o autor salienta. O segundo, é a declaração unilateral da independência branca da Rodésia, dando origem a um regime que seria condenado pela ONU e combatido pelas antigas potências coloniais, nomeadamente pela Grã-Bretanha. Portugal tem alguma importância neste desenvolvimento, pois como vários autores já salientaram, a Rodésia consulta Lisboa antes de dar o arriscado passo da declaração unilateral de independência. É fácil de entender porquê isto é feito: uma Rodésia independente seria um regime aliado à África do Sul, que sofreria necessariamente um embargo comercial dos principais poderes da Europa Ocidental, pelo que necessitaria de ser abastecido em praticamente todos os produtos importados a partir dos portos de Moçambique, o que implicava algum tipo de acordo com Portugal.
A decisão final sobre a posição portuguesa é tomada por Oliveira Salazar e, como Franco Nogueira indica nos seus livros, o Presidente do Conselho hesita muito, ao contrário do que é normal. Finalmente, Salazar acaba por assumir um compromisso: Portugal apoiará na medida do possível a declaração unilateral de independência da Rodésia, mesmo que isto o coloque numa rota de colisão com a Grã-Bretanha.
É uma decisão de grande importância, como já tive ocasião de salientar em alguns dos meus estudos anteriores, pois marca um ponto de viragem na manobra político-militar portuguesa. O seu significado é simples e representa um corte imenso com a anterior política portuguesa na África Austral. Até então a estratégia política portuguesa para combater a insurreição em Angola e Moçambique era fundamentalmente autónoma, desenvolvida em larga medida com recursos nacionais, sem o apoio e mesmo com a condenação política dos tradicionais aliados de Portugal (a Grã-Bretanha e os EUA), inserida dentro do conceito da “Pátria pluricontinental e multirracial”, tal como previsto na Constituição. A partir de 1965-1966, com a decisão de apoiar a declaração unilateral de independência da Rodésia, a manobra portuguesa passa a estar ligada automaticamente com outras no contexto mais geral da África Austral, tendo como aliados directos a Rodésia e a África do Sul. Significa isto que, apesar de Portugal condenar oficialmente os regimes racistas praticados na Rodésia e África do Sul, a sua manobra militar passa a estar associada a estes e será desenvolvida de forma coordenada a partir de então.
Na prática, esta decisão leva a que, a partir de 1965-1966, a insurreição e a contrainsurreição em Angola ou em Moçambique só posso ser realmente entendida no contexto mais geral e complexo da África Austral como um todo, o que é uma mudança de grande envergadura. É por causa disso que, embora a guerra colonial termine oficialmente em 1974 com o cessar fogo, a guerra em Angola e em Moçambique se vai prolongar depois da independência, conduzindo a um longo conflito civil. É igualmente por causa disso que a guerra, a partir de 1965-1966, passa a estar fortemente enquadrada pelo desenvolvimento da Guerra Fria e pelas diferentes fases do relacionamento EUA – URSS, que muda muito entre 1965 e 1990. O que assistimos em 1965-1966 é a uma internacionalização do conflito em Angola, que passa a ser fortemente condicionado pela evolução do sistema internacional.
Há dois factos que ilustram de forma clara esta evolução. O primeiro, é normalmente ignorado pela maior parte dos autores, mas salientado pelo tenente-general Miguel Júnior: a chegada da China em força à África Austral. A China estabelece a partir de meados dos anos sessenta uma ligação forte com a Tanzânia e, em menor grau, com a Zâmbia. Um componente importante dessa ligação são os grandes projectos de transportes, com os quais se pretende criar uma rede de caminhos de ferro alternativa à portuguesa e Sul-africana, que passavam por Angola e Moçambique. A rede de transportes tradicional era efectivamente um dos grandes trunfos de Portugal e da África do Sul. Ela visava canalizar os produtos do interior para os portos do litoral angolanos, moçambicanos e sul-africanos, permitindo a quem os dominasse controlar as condições deste escoamento. Foi por causa disso que, para dar só um exemplo, a Zâmbia proibiu em determinada altura a acção do MPLA a partir do seu território, de modo a salvaguardar a segurança do caminho de ferro de Benguela, por onde eram exportados uma parte importante dos seus produtos. A África do Sul responde a esta acção da China igualmente com grandes investimentos económicos, nomeadamente os projectos das gigantescas barragens no Zambeze (Cabora Bassa, em Moçambique) e no Sul da Angola, que visavam o fim estratégico de garantir a autonomia energética da África Austral e favorecer a fixação da população.
Vamos assim encontrar uma situação bastante mais complexa e, sobretudo, mais interligada na África Austral a partir de 1965-1966. Um dos reflexos novos desta situação é que em quase todos os movimentos de libertação surgem desde então “facções pró-chinesas”, com uma postura diferente das direcções tradicionais, favorecendo nomeadamente uma manobra militar alternativa.
O último capítulo do livro diz respeito a envolvimento Sul-Africano no sul de Angola em 1966-1974.
Ele tem muito a ver com a manobra político-militar portuguesa para responder à nova situação. Saliento que neste tipo de guerras nunca podemos falar simplesmente de uma manobra militar, pois ela não faz qualquer sentido sem o seu enquadramento político, que depende da grande estratégia definida. Em 1965-1966 a grande estratégia portuguesa para a África Austral mudou e passou a depender no essencial de um entendimento com os regimes da Rodésia e da África do Sul, o que coloca todo o contexto das operações militares num ambiente internacional diferente. No caso de Angola, a adaptação da manobra militar é clara em 1966-67: a prioridade passa a estar na Frente Leste, numa acção conjugada directamente com a África do Sul.
O tenente-general Miguel Júnior salienta no seu livro um aspecto particular desta mudança política: a acção da UNITA no Leste, que está, praticamente desde o começo, associada à SWAPO, o que significa que abarca uma área que, para além do Leste – Sul de Angola, se estende pela futura Namíbia, então um território dependente da África do Sul. Há assim um incentivo forte e directo para um envolvimento sul-africano.
O entendimento entre Portugal, a Rodésia e a África do Sul para uma manobra político militar conjunta a partir de 1965-66 é muito amplo e passa no essencial pela chamada operação Alcora, que só agora começa a ser estudada por autores portugueses como Luís Barroso ou Aniceto Afonso, sem esquecer os estudos pioneiros de alguns cadetes da Academia Militar nos seus trabalhos de investigação aplicada.
A operação Alcora era um nome modesto, que escondia uma mudança de grande envergadura, coordenada ao nível mais elevado da direcção política com múltiplas vertentes. Havia uma vertente económica e de desenvolvimento, que passava nomeadamente pela edificação de uma rede de energia autónoma, pelo crescimento da rede de transportes interligada (o pipeline da Beira era um dos seus componentes) e pela criação de um amplo cinturão de zonas irrigadas e abastecidas de energia no Sul de Angola e no vale do Zambeze, o que iria favorecer a economia de plantação moderna, ligada aos produtos de exportação.
Havia igualmente um componente directamente político, mais discreto, mas não menos importante, que passou nomeadamente pelo favorecimento do entendimento possível com alguns regimes africanos vizinhos (Malawi, Zâmbia e os dois Congos), pela promoção em território português de algumas correntes favoráveis a uma independência branca (nomeadamente no período de Marcelo Caetano, posterior a 1969), por uma acção coordenada em certos fóruns internacionais (nomeadamente na ONU) e por uma acção indirecta no seio da própria direcção dos movimentos de libertação, procurando isolar certas tendências políticas e favorecer outras, o que estava directamente associado à manobra militar – não é aqui que este aspecto pode ser desenvolvido, mas não queria deixar de mencionar a sua existência.
Havia, finalmente, a vertente militar de Alcora, uma das mais visíveis e importantes. Ela tinha uma expressão directa e diferente nos dois territórios portugueses abrangidos. Em Moçambique, a colaboração militar passava essencialmente pelo apoio à acção portuguesa na frente de Tete, nomeadamente na edificação de um dispositivo de segurança de Cabora Bassa e da sua linha, que transportaria a electricidade produzida para a África do Sul num muito vulnerável percurso de centenas de quilómetros. No caso de Angola, o acordo militar passava principalmente por uma acção conjunta na Frente Leste, que comportava fundamente duas vertentes: o apoio logístico às operações das forças especiais portuguesas, nomeadamente em termos de helicópteros, conjugada com uma acção pontual de forças sul-africanas em território angolano, nomeadamente na perseguição a grupos de guerrilheiros da SWAPO. O apoio logístico Sul-africano era importante em termos dos helicópteros, principalmente pelo empenhamento dos Pumas com maior capacidade que os Allouettes, que só no final da guerra chegariam a Portugal. Muitas das operações das forças especiais portuguesas no Leste de Angola desde 1969 foram apoiadas por helicópteros Sul-africanos.
Um outro aspecto muito importante da cooperação militar dizia respeito ao acesso a armamento e meios militares mais sofisticados. O problema aqui é que Portugal não tinha capacidade industrial para a sua produção autónoma e a África do Sul, embora com uma indústria de defesa mais desenvolvida, não tinha a capacidade de conceber e desenvolver sistemas militares sofisticados em 1966. Havia, no entanto, um importante ponto comum: ambos (Portugal e África do Sul) utilizavam muitos sistemas militares de origem francesa, que tinham substituído em larga medida os sistemas britânicos, depois das dificuldades do relacionamento político. Nos blindados, por exemplo, Portugal começava a receber os Panhard, que a África do Sul fabricava localmente com o nome de Eland (são os veículos que aparecem na capa do livro). No caso da aviação, o material mais recente Sul-Africano e português era de origem francesa, ambos utilizando nomeadamente os helicópteros Allouette e Puma, sistemas essenciais para a luta anti-guerrilha. Do mesmo modo, a África do Sul usava os Mirage (tanto o Mirage III como o Mirage F1) e Portugal tinha um projecto para comprar Mirage III, que não se concretizou devido ao 25 de Abril. Ambos os países pensavam ainda adquirir indirectamente a partir da França alguns mísseis, tanto os anti-aéreos (como os Crotale/Cactus) como anti-carro (como os SS-11).
A África do Sul concebe o projecto de desenvolver uma indústria de defesa sofisticada e moderna, capaz de conceber sistemas adaptados à luta anti-guerrilha no Leste de Angola, na Namíbia e em Tete, tudo regiões marcadas pela savana ou pelo deserto, com poucas árvores e com uma vegetação rasteira. Nestes terrenos, a acção dos blindados de rodas de grande mobilidade e com uma boa protecção contra minas (a principal ameaça enfrentada) era considerada muito importante pela África do Sul. É então que se lançam os projectos que viriam a produzir os veículos amplamente utilizados pela África do Sul no Leste de Angola depois da independência: era o caso do Casspir, do Rhino, do Ratel, do G-6, do Eland e do Olifant, entre outros. Seriam dos mais modernos blindados de rodas dos anos oitenta, começados a conceber ainda antes de 1974. A ideia era que estes mesmos veículos poderiam ser fornecidos de forma autónoma a Portugal e à Rodésia, criando um mercado alargado a toda a África Austral, o que se conjugava com o esforço industrial português de fabricar localmente outros veículos militares, como os Chaimite ou os camiões Berliet.
O tenente-general Miguel Júnior decidiu terminar o seu livro com um vasto anexo com a reprodução de documentação sul-africana. Em boa hora o fez, pois esta documentação é inédita e particularmente importante. A documentação é essencialmente do Comando Sul-Africano em Angola, mas inclui alguns documentos do vice-cônsul em Luanda.

UMA CONCEPÇÃO DIFERENTE DA CONTRAINSURREIÇÃO

Uma das coisas notórias nesta documentação é o diferente conceito da manobra de contrainsurreição de Portugal e da África do Sul. Na concepção portuguesa a contrainsurreição era uma manobra política militar, centrada na conquista das “almas e corações” da população, onde a componente militar era subordinada aos objectivos políticos. Dentro do componente militar, para Portugal era essencial a conjugação de três forças muito diferentes, todas com missões distintas: as unidades chamadas de auto-defesa africanas, as forças militares ditas da quadrícula, que asseguravam o controlo de um determinado território e da sua população e as unidades de intervenção, que tinham uma acção ofensiva na perseguição das forças de guerrilheiros, podendo actuar em qualquer território dentro de fronteiras. Havia ainda um quarto componente da força militar portuguesa, mas esse era muito discreto, a pontos de ainda hoje raramente ser mencionado: as forças que actuavam fora de fronteiras, ou com missões muito especiais dentro delas, organizadas normalmente como forças de guerrilha, com uma composição muito variada (portugueses, angolanos, catangueses e outros africanos). A concepção da manobra militar portuguesa no Leste de Angola, era assim complexa e sofisticada, passando pela acção conjugada de forças muito distintas, coordenadas pelas autoridades locais, pelas Forças Armadas ou pela PIDE, de acordo com as circunstâncias e o seu tipo.
Os documentos sul-africanos têm de ser entendidos tendo em conta a data em que são produzidos: a maior parte é de 1969 e um pequeno grupo é posterior ao 25 de Abril. Há que ter em conta que 1969 é o ano em que a situação é mais favorável à guerrilha no Leste de Angola. Tanto a UNITA como o MPLA tem vindo a alargar e sua acção nesta nova frente desde 1965-1966 e estão no período máximo de implantação. A partir de 1969 e até 1974 a situação inverteu-se por completo, devido a acção da equipa chefiada pelo General Costa Gomes. A partir de 1969, a acção da guerrilha no Leste de Angola reduz-se muito e os problemas políticos internos nos movimentos de libertação agravam-se, com profundas divisões das suas direcções, em parte fomentadas pela acção directa e indirecta portuguesa.
Em 1974 a presença da guerrilha no Leste de Angola era muito inferior ao que tinha sido o pico de 1969, no que pode ser considerado uma das mais bem sucedidas campanhas de contrainsurreição de sempre. É claro que, numa guerra insurreccional deste tipo não faz sentido falar em “vitória militar”, pois estes conflitos só se podem resolver politicamente, sendo a acção militar necessária, mas subsidiária e complementar. A acção militar, em larga medida, limita-se a comprar tempo, para que se possa desenvolver a componente política, a única que pode resolver a guerra. O que aconteceu com Portugal, é que a acção militar comprou 13 anos de tempo, mais do que os franceses aguentaram na Argélia ou os EUA no Vietname, mas a direcção política não foi capaz de encontrar uma solução realista para terminar com a guerra, apesar de ela ter sido proposta por várias entidades portuguesas em determinados momentos, nomeadamente por responsáveis militares.
O que os documentos sul-africanos revelam é um conceito muito diferente da manobra militar nestes conflitos, numa aproximação que era semelhante à da Rodésia e diferente da portuguesa. Os sul- africanos referem nomeadamente que os documentos sobre a condução da guerra elaborados pelo Comando em Luanda colocam correctamente a tónica na acção política, na necessidade de conquistar as populações e no facto de a acção militar ser complementar e subordinada, com o que estão de acordo. Simplesmente, acrescentam, as autoridades locais no Leste de Angola têm dificuldade em entender este conceito, aplicam-no com deficiências, praticam com frequências erros, raramente conseguem a unidade de comando e acção, tão necessária numa guerra deste tipo (estão a escrever em 1969, no período em que guerra corria mal para os portugueses no Leste). Os sul-africanos mostram igualmente que têm uma ideia muito diversa da máquina militar portuguesa, não escondendo a sua admiração pelas unidades de intervenção, nomeadamente pelos Comandos, mas não escondendo igualmente que a acção das forças de quadrícula apresentava fortes problemas em 1969, de acordo com a sua visão.
O ponto em que os sul-africanos se afastam por completo do conceito português é no uso de uma força de conscrição muito numerosa para uma guerra deste tipo. Os militares sul-africanos apostam numa solução diferente: uma pequena força militar profissional, altamente treinada e equipada com o que de melhor houver, actuando em pequenos grupos com as mesmas tácticas e princípios da guerrilha, que devem perseguir e aniquilar os grupos de guerrilheiros, sem permitir a sua acção no território de Angola. Simultaneamente, as populações devem ser ganhas por uma acção essencialmente civil, que conquiste a sua vontade e organize a auto-defesa. As forças de quadrícula da conscrição não têm lugar neste conceito de manobra, ou devem ser reduzidas a um mínimo, considerando mesmo os sul-africanos que elas são um factor que mina a moral do Exército e prejudica as relações com as populações. São conceitos completamente diferentes da manobra militar na contrainsurreição, não cabendo aqui discutir os seus méritos relativos. É necessário mencionar, porém, que o conceito sul-africano está muito próximo do rodesiano, partindo ambos de realidades militares muito diferentes da portuguesa, com Forças Armadas pouco numerosas e semi-profissionais.
Com esta obra o tenente-general Miguel Júnior dá-nos uma excelente imagem das recentes tendências da historiografia angolana. Mostra como ela esta a passar de uma fase inicial de memórias e descrições, que é necessária, mas é somente o primeiro passo, para outra de discussão dos grandes temas teóricos, com base em documentação contraditória de origens muito diferentes, numa visão abrangente e geral. Mostra como a historiografia angolana está a amadurecer, a ganhar profundidade e uma compreensão vasta e académica dos grandes temas da sua História recente, olhando sem preconceitos para o seu passado, não tendo receio de dar a conhecer documentos e fontes polémicos e de abrir um debate em seu torno que só pode contribuir para uma melhor compreensão do nascimento de uma das mais pujantes e prometedoras nações da nova África.
É um tema polémico e é justamente por causa disso que deve ser conhecido nas suas fontes, necessariamente contraditórias, e discutido de forma aberta, sem jamais ser escondido em nome de uma qualquer verdade oficial. Está de parabéns o seu autor e todos nós, portugueses e angolanos, que pensamos que o debate académico livre, sem preconceitos ou temas tabu, é o único caminho para alcançar uma compreensão mais abrangente da realidade, para chegar às explicações de síntese que são sempre a parte mais difícil e mais necessária daquilo a que se chama História.
António José Telo *

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