A prossecução do associativismo angolano em Leopoldeville e Portugal

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Face às agruras do trabalho forçado, muitos dos cerca de 700 mil trabalhadores assalariados angolanos com o estatuto de “indígenas”, que, na década de 1950, eram anualmente obrigados a trabalhar, tanto para administração, como para as grandes e médias empresas privadas portuguesas ou estrangeiras, passaram a emigrar para territórios vizinhos, fora de Angola.

A prossecução do associativismo angolano em Leopoldeville e Portugal
Leopoldville em 1884

 As rusgas tornavam-se cada vez mais frequentes, “quer nos muceques, como nas sanzalas e, até mesmo, nas escolas, com o intuito de arranjar homens para o ‘contrato’.” Tal facto, associado ao sistemático despovoamento das terras, criava nas populações um permanente sentimento de insegurança e medo. Corroborava, por outro lado, para a destruturação das comunidades tradicionais e para o desequilíbrio das famílias africanas rurais e peri-urbanas, devido à diminuição da natalidade,
à falta de braços para o trabalho, ao rápido empobrecimento por falta de meios de subsistência. Como resultado do reconhecimento de uma maior consciencialização da injustiça praticada, cresceu nestas populações rurais e nos poucos intelectuais da época um profundo sentimento de revolta e as condições objectivas para a emergência do associativismo dentro e fora de Angola.

A UPNA e a ALIAZO

Face à administração colonial, cada agremiação acabou, no fundo, por definir o seu espaço de actuação de acordo com as preocupações sociais, o local de emigração e o sentido de autonomização.
Daí que, em 1954, tivessem sido criadas, no Congo-Leopoldeville, duas associações de naturais do norte de Angola: a UPNA – União dos Povos
do Norte de Angola e a ALIAZO – Aliança dos Originários do Zombo, que, mais tarde, acabaram por estar na origem da fundação de duas organizações políticas de carácter nacionalista: a UPA – União da Populações de Angola e o PDA – Partido Democrático
Angolano.
Segundo Edmundo Rocha, houve também uma tentativa frustrada de criação da Associação Africana do Sul de Angola, fundada por trabalhadores
ferroviários da ex-Nova Lisboa e do Lobito. Porém o seu programa não mereceu o agrado das autoridades coloniais, o que levou ao seu rápido encerramento.

A Casa dos Estudantes do Império
Há 70 anos atrás, por pressão governamental e pelos apoios financeiros regulares dos governos-gerais das colónias e das empresas privadas, a Casa dos Estudantes de Angola transformou-se na Casa dos Estudantes do Império (CEI), mais precisamente, em 1944. Reunia, no espírito do regime colonial, estudantes oriundos das várias colónias africanas, indiana e de Macau, numa intensa actividade associativa e de apoio assistencial, onde não faltavam as actividades de carácter desportivo e cultural. Todavia, a sua secção de Coimbra contava com um grupo de estudantes angolanos que, em contacto com organizações políticas portuguesas anti-fascistas, como o Movimento de Unidade Democrática (MUD Juvenil) e o Ateneu de Coimbra, vieram a assumir uma postura menos conformista em relação aos dirigentes da CEI, em Lisboa.
Dos estudantes angolanos em Coimbra destacavam-se: Agostinho Neto, Lúcio Lara, João Vieira Lopes, Urbano Fresta, Carlos Veiga Pereira e
Fernando Costa Campos. É no seio da CEI que, entretanto, surgem em Lisboa duas organizações políticas clandestinas de luta anti-fascista e anti-colonialista:o Movimento Anti-Colonialista (MAC) e o Movimento de Estudantes Angolanos (MEA).

O Centro de Estudos Africanos

Como o ambiente na sede da Casa dos Estudantes do Império, em Lisboa, não era considerado o mais propício para os estudantes africanos mais progressistas, estes passaram a reunir-se no 1º andar do nº 31, da Rua Actor Vale, em Lisboa, em casa da Senhora Dona Andreza, da família Espírito Santo, de S. Tomé. Ali se realizavam palestras e várias sessões de tertúlia no chamado Centro de Estudos Africanos (CEA), que tiveram como objectivo a redescoberta do “Eu africano”, na corrente nativista também apelidada de “negritude”. De entre os jovens que se reuniam no CEA figuravam os nomes de Mário Pinto de Andrade, Francisco José Tenreiro, Agostinho Neto, Noémia de Sousa, Alda do Espírito Santo, Lúcio Lara e Humberto Machado. Este movimento cultural decorreu no mesmo espírito daquele que se processava, em Luanda, na Liga Nacional Africana e que deu pelo nome de “Vamos descobrir Angola”.

O Clube Marítimo Africano

O Clube Marítimo Africano (CMA) viu os seus estatutos aprovados em 13 de Dezembro de 1954 (por conseguinte, há 60 anos), tendo sido signatários do pedido de autorização para a formação desta associação recreativa, desportiva e cultural o marítimo Raul Francisco Caterça e o Eng. Humberto Machado. A mesma reunia os chamados “embarcadiços” dos navios da marinha mercante portuguesa – da Companhia Nacional de Navegação (CNN), da Companhia Colonial de Navegação (CCN) e da Sociedade Geral (SG) – bem como também estudantes nacionalistas em encontros de carácter recreativo e cultural. Foi, na opinião de Edmundo Rocha, o local considerado ideal para a realização de actividades políticas e chega mesmo a afirmar que o “CMA foi o inédito ‘soviete’ africano incrustado em terras lusas”.
O trabalho de consciencialização política junto dos marítimos, acabaria por ser determinante, já que estes estabeleciam uma ligação regular entre a metrópole, as ex-colónias e outros países cujos portos marítimos se situavam nas rotas de destino. Os contactos estabelecidos entre diferentes organizações nacionalistas afins foram feitos através da troca de correspondência que, por razões de segurança, era transportada em mão pelos próprios embarcadiços.
Atrás de uma fachada recreativa e cultural para encobrir toda uma actividade política, o CMA, juntamente com a CEI e a CEA, faziam circular as ideias nacionalistas provenientes de Luanda e dos estudantes e intelectuais exilados em Paris.

O papel do associativismo, hoje, em Angola

De acordo com Amartya Sen, exmembro da presidência do Banco Mundial, galardoado com o Prémio Nobel de Economia em 1998, associado ao conceito de desenvolvimento está implícita a existência de um Estado de Direito Democrático com ampla participação da Sociedade Civil. Numa perspectiva de liberdade, tal como exigem os fins e os meios para o desenvolvimento, ao ser envolvida de forma organizada na construção do seu próprio futuro, a Sociedade Civil deixa de se apresentar como mera e passiva beneficiária de programas de desenvolvimento e passa a contribuir para o estabelecimento de “papéis de sustentação e não de entrega sobencomenda”.

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