A rua do Clube Marítimo e as razões para a sua existência

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A Liga Nacional Africana foi uma das poucas associações legalizadas e bem olhadas pelo regime colonial em Angola, até passar a perturbar as autoridades coloniais portuguesas, no início dos anos 50. Esta agremiação estava abrangida por dotações financeiras anuais inscritas nos orçamentos do Governo-Geral de Angola e foi graças à iniciativa do ministro das colónias, Marcello Caetano, que lhe foi atribuída uma sede condigna, em 1942.

A Liga Nacional Africana foi uma das poucas associações legalizadas e bem olhadas pelo regime colonial em Angola, até passar a perturbar as autoridades coloniais portuguesas, no início dos anos 50. Esta agremiação estava abrangida por dotações financeiras anuais inscritas nos orçamentos do Governo-Geral de Angola e foi graças à iniciativa do ministro das colónias, Marcello Caetano, que lhe foi atribuída uma sede condigna, em 1942.
Oficialmente criada a 17 de Julho de 1930 e posteriormente legalizada através da publicação dos seus estatutos no Boletim Oficial, 2ª série, de 29 de Julho de 1930, a Liga Nacional Angolana, herdeira das ideias da antiga Liga Africana, tinha como propósito e perspectiva utópica reunir os africanos, do Cairo ao Cabo, em acções estritamente culturais, desportivas e recreativas. Porém, o seu funcionamento “ficava condicionado” à recomendação expressa pelas autoridades do Estado Novo, de que a “aprovação lhes seria retirada quando a citada associação se desviasse dos fins para que era instituída”, o que, efectivamente, não veio a ocorrer durante cerca de 20 anos.
Apenas, nos anos 40 e 50 – como resultado do pós-guerra mundial, da política do Estado Novo, do surgimento de países socialistas e de novos países asiáticos, árabes e africanos independentes – começam a surgir, sobretudo em Luanda, novas ideias e aspirações. Um grupo de intelectuais, sob o lema cultural de intervenção política “Vamos descobrir Angola”, passou a assumir na Liga Nacional Africana um protagonismo cada vez maior, passando a inquietar as autoridades coloniais. Desse grupo destacaram-se, entre outros, Viriato da Cruz, Mário Alcântara Monteiro, Bandeira Duarte, Leston Martins, Maurício Gomes, Humberto Silva, Lília da Fonseca, Mário António Fernandes de Oliveira, António Jacinto, Tomás Jorge Vieira da Cruz e Monteiro Silvan.
Como descreve Mário de Andrade, na «Antologia Temática da Poesia Africana», “em 1948, Viriato da Cruz, considerado o demiurgo do Movimento, enunciava assim os objectivos do movimento cultural «Vamos descobrir Angola»: ‘Queremos reavivar o espírito combatente dos escritores africanos dos fins do século XIX, de Fontes [José Fontes Pereira] e dos homens que compuseram «A Voz de Angola a Clamar no Deserto»! ‘Os poetas devem escrever acerca dos interesses reais dos africanos e da natureza social da vida africana, sem nada concederem à sede do exotismo colonial, ao turismo intelectual e emocional do prurido e curiosidade dos europeus’.”
Já a propósito deste movimento cultural, Carlos Ervedosa, no seu texto «Vamos Descobrir Angola»,afirmou: “em 1948, aqueles meninos, que eram filhos da Terra e que se tornaram homens, tomam consciência da sua qualidade de Angolanos e lançam o grito: “Vamos descobrir Angola!” Que tinham em mente? Estudar a Terra que lhes fora berço em todos os campos desde a geografia física à geografia humana. Eram ex-alunos do liceu… enquanto estudam o mundo que os rodeia, o mundo angolano de que eles fazem parte mas que tão mal lhes ensinaram, resulta a necessidade de uma literatura que fosse uma afirmação de presença, uma literatura de combate àqueles privilegiados que nas páginas dos jornais, dos livros, na rádio, só tinham olhos para as belezas das Terras do Marão e do Tejo… uma literatura que fosse verdadeiramente angolana, que acabasse de vez com os pretensos ‘escritores angolanos’ que de Angola só tinham uma falsa imagem de turistas apressados.”
A Anangola, descendente do Grémio Africano – associação de carácter civil, recreativa, artística e científica, nascida a 13 de Agosto de 1929, em Lisboa, por “naturais pertencentes… à Raça Africana” – era outra das associações legais radicada em Luanda, criada sensivelmente na mesma altura que a Liga Nacional Africana. O Grémio Africano, de acordo com os seus estatutos, aprovados pelo Governo Civil de Lisboa, a 28 de Agosto de 1929, teve como principais objectivos, os seguintes: “Concorrer para o prestígio social e mental dos africanos; Congregar e estreitar os laços de uma união e solidariedade entre os naturais d’África e as raças nacionais; Promover o levantamento do nível intelectual e revigoramento físico dos indígenas da África Portuguesa”. Segundo Mário de Andrade, distinguiu-se, nesta associação, D. Georgina Ribas, notável musicóloga feminista, que exerceu grande influência social e moral junto da intelectualidade africana então residente na capital portuguesa.
A Anangola, de acordo com Edmundo Rocha, teve um departamento cultural animado por um grupo de elementos progressistas, como: António Jacinto, A. Leston Martins, Humberto da Silvan, Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro; publicou a revista«Mensagem», a qual marcou o início da literatura angolana de intervenção política e está na origem da corrente cultural «Novos Intelectuais de Angola». A Anangola era frequentada por mestiços, negros e até por brancos, que haviam assumido posições reformistas e de compromisso com o poder colonial de forma mais acentuada do que a Liga Nacional Africana. Por essa razão, Viriato da Cruz e Mário Alcântara Monteiro acabaram por abandonar a Anangola em total desacordo com a política reformista desta associação. Passaram então a integrar-se nas actividades culturais na Liga e à militância política clandestina.Começa, a partir desta altura, a emergir, em Luanda, um ramo de um dos troncos de uma árvore a que chamamos o “moderno nacionalismo angolano”, quando os processos nacionalistas em África já haviam surgido a partir dos anos 30.
Face às agruras do trabalho forçado e da imposição de políticas assimilacionistas deu-se a passagem da reivindicação para a afirmação. Surgem movimentos nacionalistas clandestinos, que haviam rompido com o regime, tais como: o PCA – Partido Comunista Angolano; o PLUAA – Partido de Luta Unida dos Africanos de Angola; o MIA – Movimento pela Independência de Angola; o MLNA – Movimento para a Libertação Nacional de Angola; o MINA – Movimento pela Independência Nacional de Angola; os quais, vieram, mais tarde, a culminar no MPLA – Movimento Popular de Libertação de Angola. Christine Messiant, na sua Tese de Doutoramento, «L’Angola Colonial, Histoire et Société, les premisses du movement nacionaliste», refere que “muitos dos cerca de 700.000 trabalhadores assalariados indígenas que, na década de 1950, eram anualmente obrigados a trabalhar, tanto para administração, como para as grandes e médias empresas privadas portuguesas ou estrangeiras, passaram a emigrar para territórios vizinhos, fora de Angola. As rusgas tornavam-se cada vez mais frequentes, “quer nos muceques, como nas sanzalas e, até mesmo, nas escolas, com o intuito de arranjar homens para o ‘contrato’.”
Tal facto, associado ao sistemático despovoamento das terras, criava nas populações um permanente sentimento de insegurança e de medo. Corroborava, por outro lado, para a destruturação das comunidades tradicionais e para o desequilíbrio das famílias africanas rurais e peri-urbanas, devido à diminuição da natalidade, à falta de braços para o trabalho, ao rápido empobrecimento por falta de meios de subsistência. Como resultado do reconhecimento de uma maior consciencialização da injustiça praticada, cresceu nestas populações um mais profundo sentimento de revolta.
Dois ramos de um outro tronco do nacionalismo angolano aparecem no Congo-Leopoldeville, em 1954, originários do grupo etnolinguístico bakongo que, entretanto, foram emigrando para o ex-Congo Belga e criaram a UPNA – União dos Povos do Norte de Angola e a ALIAZO – Aliança dos Originários do Zombo. Estas duas associações acabaram por estar na origem da fundação de duas organizações políticas nacionalistas: a UPA – União da Populações de Angola e o PDA – Partido Democrático Angolano – que, em 1962, se fundem e formam a FNLA – Frente Nacional de Libertação de Angola. Também uma parte dos angolanos de origem bacongo, que se encontrava na região de Luanda, acabou por se organizar em associações próprias e em outros pequenos movimentos clandestinos em estreita ligação com os bakongo em Leopoldville. De entre as organizações clandestinas destacavam-se: o ELA – Exército de Libertação de Angola– dirigido por António Pedro Benge; o Grupo dos Enfermeiros, etc.
Foi também na década de 50, mais precisamente a 20 de Dezembro de 1954, que foram aprovados os Estatutos do Clube Marítimo Africano, através da sua publicação no Diário do Governo nº 296, de 20 de Dezembro de 1954, por conseguinte, de há 64 anos a esta parte, como uma “agremiação desportiva dos marítimos africanos e dos africanos em geral residentes na Metrópole” (artº 1º). Já antes da II Guerra Mundial (1939-1945) os chamados embarcadiços (como se dizia na altura) corriam o Mundo através de mares e oceanos em navios de companhias portuguesas de navegação. Mais tarde, do convívio entre marítimos e estudantes africanos residentes em Portugal foi criada, em Lisboa, uma associação que deu pelo nome de Clube Marítimo Africano e que teve, entre outros, como principais dinamizadores: Mário Van-Dúnem, Zito Van-Dúnem, António Rodrigues da Costa, João Pataca da Costa, Florentino da Silva e Manuel Soares Gomes. Dos estudantes das ex-colónias da altura destacavam-se: Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Humberto Alves Machado, Lúcio Lara, António Espírito Santo, Fernando da Costa Campos, Luís Barreto, Graça Tavares e outros.
Humberto Machado, engenheiro silvicultor, quechegou a ser Vice-Ministro da Agricultura, foi o principal dinamizador do Clube Marítimo Africano e mantinha, desde 1950, relações muito próximas com o Dr. Agostinho Neto. Na sua investigação publicada sob o título«Contribuição ao Estudo da Génese do Nacionalismo Moderno Angolano (período de 1950-1964) – Testemunho e Estudo Documental», Edmundo Rocha, Prémio de Investigação em Ciências Sociais e Humanas, afirma o seguinte:“(…) o Clube Marítimo Africano, que mantinha uma fachada perfeitamente legal, era estreitamente vigiado pela PIDE pois esta polícia secreta já pressentia as ligações que os dirigentes do Clube mantinham com elementos da Liga Nacional Africana de Luanda. Não é por acaso que Humberto é interrogado exaustivamente sobre a sua correspondência com Ilídio” [Ilídio Tomé Alves Machado].
Também a presença no Clube Marítimo Africano de elementos afectos ao MUD-Juvenil, ao Partido Comunista Português e à Casa dos Estudantes do Império – como era o caso de Agostinho Neto, Amílcar Cabral, Lúcio Lara, Ivo Lóio e o próprio Humberto Machado – despertavam as atenções e as preocupações da PIDE. Na verdade, atrás da camuflagem de uma inofensiva recreação, havia uma enorme actividade política clandestina destinada a promover e veicular ideias nacionalistas provenientes, sobretudo, de Luanda e de Paris. Enfim, marítimos e estudantes associados num Clube,em Lisboa, foram actores sociais do seu próprio tempo, alguns deles, cúmplices da luta clandestina que se desenvolveu para a autodeterminação e independência das ex-colónias portuguesas em África.
No testemunho do marítimo José Baçanza Tomo para o livro de minha autoria «Marítimos Africanos e um Clube com História» consta a descrição da seguinte estratégia de clandestinidade: “(…) Nos bailes que organizávamos, enquanto Agostinho Neto, Eduardo Mondlane, Amílcar Cabral, Humberto Machado e outros ficavam num quarto a fazer as suas reuniões, nós, na sala, ficávamos a dançar, mas sabíamos o que se estava a passar lá dentro com eles. Era uma forma de desviar as atenções da PIDE (…). O Lúcio Lara começou a aparecer depois. Ficava mais tempo em casa do Humberto Machado (…)”. E acrescenta o seguinte: “(…) já tinha tudo combinado com o ‘Zito’ Van-Dúnem, que também andava no ‘Rovuma’, para quandoo navio fosse a Inglaterra, fugirmos lá e depois juntarmo-nos ao Movimento [MPLA]. Nessa altura, sabíamos que um grupo de estudantes tinha conseguido fugir de Portugal e o ‘Zito’ tinha o contacto de alguns que se fixaram em Inglaterra. Pusemos o nosso plano em prática e, em terra, já tínhamos acertado tudo com um engenheiro de origem indiana, que me parece chamar-se Alberto, mas já não me lembro bem…; fomos deixando a nossa roupa em terra e, no último dia previsto para a saída do navio, íamos a terra e não voltaríamos mais. Qual o nosso espanto, quando ouvimos dizer que não deixavam ir mais ninguém a terra, porque tinha chegado uma ordem da Companhia, para que o navio partisse, tão logo que possível, para o mar. Ficámos retidos, já não conseguimos concretizar o nosso plano e ficámos sem toda a nossa roupa”.
De Mário Van-Dúnem conhecem-se, entre outras coisas, o transporte de uma parte de uma máquina policopiadora de Lisboa para o Lobito, destinada à produção de panfletos. António Rodrigues da Costa e/ou Manuel Soares Gomes transportaram a outra parte da máquina. Uma das missões que lhes haviam confiado foi coberta de êxito, muitas outras se encontram possivelmente ainda no silêncio da clandestinidade. A mobilidade dos marítimos permitiu a troca de correspondência, incluindo material de propaganda, livros proibidos, informações comprometedoras, etc. Assim se entende melhor a razão de existir hoje uma rua, em Luanda, com o nome de Clube Marítimo.


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