Angola blues e outras histórias em tom de jazz

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Palpitam-me/ os sons do batuque/ e os ritmos melancólicos do blue// Ó negro esfarrapado do Harlem/ ó dançarino de Chicago/ ó negro servidor do South/ Ó negro de África/ negros de todo o mundo/ eu junto ao vosso canto/ a minha pobre voz/ os meus humildes ritmos Agostinho Neto. Voz do Sangue, in Renúncia Impossível 1948

Angola  blues e outras  histórias  em tom de  jazz
Angola blues e outras histórias em tom de jazz - I

Quando Agostinho Neto escreveu este poema, em 1948, já Leadbelly tinha composto o tema Angola Blues, gravado pelo musicólogo Alan Lomax na antiga plantação de escravos vindos de Angola no Louisianna, então já reconvertida em prisão tenebrosa. Depois de Angola Blues surgiram diversos outros temas que denunciam as terríveis condições na Louisiana State Penitentiary, como os recentes trabalhos do saxofonista Howard Williams, mas foi com Junco Partner, gravado em 1951 pelo cantor americano de Rythm and Blues James Waynes, que a situação passou a ser mais conhecida, com diversas versões incluindo a do grupo punk Clash no álbum Sandinista de 1980

Singing 6 months ain't no sentence
And one year ain't no time
I was born in Angola
Serving 14 to 99

É essa aproximação entre escravatura e condição do negro em meados do século passado que Agostinho Neto transmite em muita da sua poesia, tornando-se dos primeiro autores lusófonos a utilizar imagens claramente ligadas às raízes africanas dos blues e jazz, com constantes alusões ao batuque, à dança, às artes africanas, numa palavra ao Ngoma, contribuindo à sua maneira para a introdução em Angola do movimento Negritude, onde Léopold Senghor foi figura predominante.
Talvez de forma ainda não devidamente estudada, essa ancestral ligação de gentes de Angola à história do jazz tem sido expressa, directa ou indirectamente, em tons de muito sofrimento, mas também lembrando heróis e lutas que merecem ser contadas, onde a dor vai dando lugar à esperança, como tão bem se encontra no poema Mamã Negra de Viriato da Cruz

Vozes de Harlem Hill District South
vozes das sanzalas!
Vozes gemendo blues, subindo do Mississipi, ecoando
[dos vagões!
brilhem, brilhem, batedores de jazz
rebentem, rebentem, grilhetas da Alma
evade-te, ó Alma, nas asas da Música!
...do brilho do Sol, do Sol fecundo
imortal
e belo...

São imensas as referências à música africana  na literatura angolana, não apenas em Agostinho Neto e Viriato da Cruz. Já  em 1932  o poeta português  Vieira da Cruz  então a viver em  Angola, considerado  um dos precursores da
literatura angolana, denunciava sofrimento nos sons negros, tornando-se num dos primeiros autores lusófonos a utilizar símbolos de música africana

Indo mares fora, mares bravos,
em noite primaveril
acompanhando os escravos
que morreram no Brasil.
...
Mas deixa a vida que tange,
exaltando as amarguras,
e as mais tristes desventuras
do meu amado Quissange!
Kissange- saudade negra

ou mais ainda numa clara aproximação aos espirituais negros seu poema Bailundos de 1942


Mas a triste
comitiva

vai seguindo o seu destino
cantarolando noturnos
de baladas inocentes

No mesmo sentido merece também referência o romance Terra Morta de Castro Soromenho, publicado em 1949, onde se ouve

Um canto arrastado e monótono veio de longe, (…) e pairou, alongado pelo eco, sobre a vila de Camaxilo. ... Eram os negros das senzalas que marchavam, a caminho da vila, com cargas de cera às costas, a cantar as suas velhas canções de mercadores errantes. O canto tornou-se harmonioso e mais triste, quando a caravana começou a descer a encosta... O sipaio Caluis estendeu o pescoço e fi cou, de olhos semicerrados a escutar...E começou a cantar baixinho, num lamento, acompanhando a cantiga que vinha dos longes. Era uma canção da sua terra, que muitas vezes cantara quando...vinha da aldeia negociar com os brancos de Camaxilo.

É um pouco dessa vivência que vamos encontrar neste levantamento, descobrindo alguns dos caminhos onde  poesia e outras aventuras se cruzaram com música negra durante o período colonial em Angola, mais particularmente o jazz e as suas raízes, com salpicos de temas que poderão melhor ilustrar as ideias, confirmando o que Lopes Graça escreveu em Reflexões sobre a música

O homem e o seu destino, o homem e a sua salvação: eis o grande tema de toda a grande obra de Arte. Especialmente daquelas modalidades da Arte que são capazes de animar, agitar, alevantar o homem, despertar -lhe
sentimentos, criar -lhe paixões, insuflar -lhe ideais, fecundar-lhe pensamentos – e a musica é uma dessas.

A alma negra do Jazz

Os primeiros relatos de práticas performativas musicais em África aconteceram a partir do séc. XVI, podendo encontrar-se relato dessas experiências no então Reino do Congo e no Reino de Angola na descrição do comerciante português Duarte Lopez que, pela mão de Filippo Pigafetta, nos fala em 1591 de músicos "que exprimem os seus pensamentos e fazem-se compreender tão bem, que tudo o que se diz com palavras, eles fazem-nos com os dedos, tocando o instrumento"  De facto, conforme escreve Leonardo Acosta em Música e Descolonização, "o ideal musical dos africanos é a expressividade de cada som e não a sua pureza, revelada não apenas pelo ritmo mas também pela melodia", o que nos transporta para a definição de musica negra, designadamente do jazz, do Director do   National Jazz Museum in Harlem: "It is the most immediate form of musical expression in existence, and the language that we use to state our deepest, truest feelings". Apetece ouvir Duke Ellington & John Coltrane - The Feeling Of Jazz (1962)  
O inicio da saga angolana está bem contada na interessante série da responsabilidade do canal de TV americano PBS, designada Slavery and the Making of America. Logo no primeiro episódio, narrado por Morgan Freeman, refere-se a chegada em 1619 de dezanove escravos africanos vindos de Angola a Jamestown, na Virgínia, iniciando-se assim um negócio que se prolongaria, legalmente, até 1865. Desse grupo faziam parte  Ângela, John D'angola e António de Angola, tornando-se assim pioneiros no transporte de sons e sofrimento africanos para a pátria geográfica do  jazz.Curiosamente, António de Angola terá também ficado na história por ter sido o primeiro escravo que após ganhar a libertação se tornou num rico fazendeiro de tabaco e mesmo mercador de escravos...mas isso são outras novelas...
O mesmo episódio transmitido pela PBS termina com a célebre Stono Rebellion, revolta comandada por Jemmy d´Angola, herói no verdadeiro sentido da palavra, que utilizou  "tambores, danças e cantares para atrair mais companheiros que se juntaram aos 60 iniciais, ajudando também à união entres os revoltosos",   conforme relatos oficiais da altura. Corria o ano de 1739 e os seus gritos de  "liberdade, marchemos com panos coloridos e toquemos os nossos tambores"  foram sufocados ao serem massacrados sem piedade. Daqui resultou o famigerado Negro Act de 1740, que tornou a condição de escravo ainda mais miserável, estabelecendo-se mesmo que "drums, horns, or other loud instruments" ficariam proibidos de ser utilizados por escravos! Curiosamente, se o batuque  foi proibido, já o mesmo não aconteceu com as congadas ( subtil distinção) por estas permitirem divertimentos menos pecaminosos (ver Brazil at the Dawn of the Eighteenth Century por Andre João Antonil).
Outro herói angolano foi Antônio Angola, escravo do Padre Toledo, cantado  por Carlos Drummond de Andrade no poema Inconfidência Mineira, ao comentar a revolta (entre 1788 e 1789) dirigida por elites de mercadores de escravos luso-brasileiros contra o domínio português  

Tem dois escravos Padre Toledo:
José Mina, que toca trompa,
Antônio Angola, rabecão.
O padre mete-se no rocambole
da insurreição.
A Real Justiça levanta o braço
da repressão.
Engaiola o padre na fortaleza
de São Julião.
Confisca os músicos, confisca a trompa
e o rabecão.
Música-gente, crioula música
duas vezes
na escravidão.

Uma das características da Globalização passa pelo sublinhar da transculturalidade, isto é, as proximidades físicas e virtuais possibilitam a apreensão de culturas diferentes, podendo daí surgir identidades culturalmente originais. Poderá mesmo afirmar-se que existem hoje construções musicais onde a questão da origem geográfica se torna impossível de localizar, tal a facilidade e por vezes superficialidade com que se trocam experiências culturais.
Com as grandes viagens marítimas passou-se situação semelhante, e o jazz é disso bom exemplo: a sua principal característica é ser um género musical tipicamente "impuro" (veja-se  Jazz e Multiculturalismo de David Rodriguez), e talvez seja essa a grande razão para se ter tornado intemporal e globalizado. De facto, dos diversos géneros musicais que nasceram do cruzamento de sons africanos com outros sons, o jazz é o que provavelmente mais transformações sofreu: basta lembrar as diversas escolas que foram surgindo a partir dos sons de    New Orleans (swing, bebop, cool, hard bop, free, sem esquecer a tentativa de levar o jazz à opera de Ernst Krene, etc) lembrando mesmo que para alguns Debussy antecipou sons jazisticos no 3.º andamento da sua sinfonia La Mer!
Na imensa bacia hidrográfica do Mississipi, polo de atracção com mais de 280.000 habitantes, Nova Orleans justificava porque era chamada de Big Easy:   na ainda agora excitante Congo Square, em bares e casas de jogo de Storyville, durante o Carnaval  (Mardi Gras)  ou todo o ano na zona portuária   (Vieux Carré ou French Quarter), um mundo complexo vibrava    " with a style of drumming also originated among people of Kongo-Angola heritage"  como escreve Freddi Williams Evans no catálogo “Ancestors of Congo Square,”, organizado pelo New Orleans Museum of Art: NOMA
Manuel Lima, guerrilheiro do MPLA e dirigente da Casa dos Estudantes do Império, de que melhor falaremos à frente, no seu poema América do livro Kissange 1960 tenta recriar por palavras a vivência de então

Mas quando chegares a New Orleans
olha para os meus dentes teclas
de jazz,
minhas pernas múltiplas
de jazz,
minha cólera ébria
de jazz,
olha os mercadores da minha pele,
olha os matadores ianques
pedindo-me
jazz,
one
       two
             three
jazz,
sobre o meu sangue,
jazz,
milhões de palmas para mim
jazz

Para o cenário ser perfeito, pode ouvir-se o tema  Congo Blues de Red Norvo ou, para mais perto da cena original o album  Congo Square - Jazz at Lincoln Center Orchestra com Wynton Marsalis
Na verdade, em finais do séc. XIX o grande centro portuário de Nova Orleans tornara-se num autentico laboratório de culturas, onde da convivência entre descendentes de antigos escravos libertados, muitos provindo de zonas limítrofes procurando trabalho, influências europeias variadas e mulatos de cultura ocidental mas rejeitados da convivência dos brancos, surge uma miscigenação musical que deu origem ao jazz:  canções de trabalho e cantos sofredores trazidos de África que evoluem até ao que se designa por   blues,  misturando-se com os pianos ragtime  de Scott Joplin e alguns pozinhos  das brilhantes  polcas e mazurcas das elites brancas!

Interessante é também quando mais tarde o circulo se completa, quando o jazz volta ao continente original e se moderniza (Kubik chama-lhe o "cradle of the blues"   no livro  Africa and the Blues):  Manu Dibango e o seu Soul Makossa de 1972, o Soukus congolês, o Mbaqanga na África do Sul, Beni Ngoma na Tanzânia, etc. No texto História da Música Angolana, embora noutro contexto, Mário Rui refere que "quando Angola aparece em 1885 com as suas fronteiras traçadas na conferência de Berlim, já os efeitos do retorno das culturas musicais  exportadas pelos escravos (Brasil e Portugal) se faziam sentir em Luanda, tanto mais que as duas composições: Madya Kandimba, de 1875 e Kinjangu de 1884 já se encontravam com escalas musicais definidas: a maior e a sua menor relativa".
Trata-se de um claro exemplo onde transculturalização não significou aculturação, onde o total é mais do que a soma das partes que lhe deram origem.
É bom sublinhar que grande parte dos géneros musicais existentes têm raiz africana: desde logo o samba a nascer do samba angolano, o tango argentino, as cafrinhas (musica kaffir)  do Sri Lanka, mas também o fank e o calipso, o reggae e, claro, o kuduro, entre muitos outros. Temas actuais como Angola, êxito de 2013 do norte americano Jah Bouks, ou Pablo Moses e o seu raggee  We Should Be In Angola bem o confirmam!


Há mesmo autores que encontram nos "descantes alentejanos" (Amilcar Cabral em A Resistência Cultural)   "um sabor de melopeias, talvez monódias chamados mornas de origem mourisca e afro-negra"   (ver Germano Lima em Boa Vista, Ilha da Morna e do Landú, in de Romina Cameiro)! Seja como for, o Morna: O planger dos escravos? de Romina Cameiro)! Seja como for, o Canto do Ladrão do Sado, lenda da Ilha dos Pretos, tradição da aldeia de São Romão a 14 km de Alcácer do Sal onde no sec. XVIII se fixou uma grande colónia de escravos negros vindos da África Ocidental, deixa pistas que justificaram que o Município daquela cidade tenha aprovado o Plano de Salvaguarda para o Ladrão do Sado e aprofunde a misteriosa origem daquele canto, na sequência duma pesquisa efectuada em 1984 por Jacometti.

Quem quezer ver moças
Da cor do cravão,
Vá dar um passeio
Até S. Romão.
Veja o nosso Sado,
Não tenha receio,
Até São Romão
Vá dar um passeio.
Quando eu chegui
À Rebêra do Sado
Vi lá uma preta
De beco virado.
Se tiver resposta
Responda-me à letra
De beco virado
Vi lá uma preta.
O Senhor dos Mártires
Cá da Carvalheira
É o pai dos pretos
De toda a Ribeira.
Lavrador João
Quem lho diz sou eu:
Se ele é pai dos Pretos
Também o é seu.

O jazz em português

Segundo João Moreira dos Santos os primeiros artigos sobre  jazz  em Portugal remontam a 1919 no Jornal a Capital, enquanto que Suzana Sardo refere que em jornais e revistas como ABC, ABCêzinho, a Tarde, Ilustração Portuguesa, Diário de Noticias, Diário Popular surgem textos assinados por Ferreira de Castro (1925), António Ferro (1924), Almada Negreiros (1925), Repórter x (1926) ou Triska (1926)  (ver Os Mensageiros do Jazz).
Repare-se que o primeiro poema em língua portuguesa sobre jazz apenas surgiu em 1925, pelo poeta brasileiro Manuel Bandeira

Não sei dançar
Uns tomam éter, outros cocaína.
Eu já tomei tristeza, hoje tomo alegria.
Tenho todos os motivos menos um de ser triste.
Mas o cálculo das probabilidades é uma pilhéria...
Abaixo Amiel!
E nunca lerei o diário de Maria Bashkirtseff.
Sim, já perdi pai, mãe, irmãos.
Perdi a saúde também.
É por isso que sinto como ninguém o ritmo do jazz-band.
Uns tomam éter, outros cocaína
Eu tomo alegria!
Eis aí por que vim assistir a este baile de terça-feira gorda.

Este poeta e outros do Brasil vão influenciar intelectuais progressistas angolanos, fazendo com que Maurício Gomes em 1958 clamasse no poema Exortação

Ribeiro Couto e Manuel Bandeira
poetas do Brasil
do Brasil, nosso irmão,
disseram:
“— É preciso criar a poesia brasileira
de versos quentes, fortes como o Brasil,
sem macaquear a literatura lusíada.”
Angola grita pela minha voz
Pedindo a seus filhos nova poesia!


Mas vejamos como a musica negra era vista em Portugal ainda em meados do século XX
Em Os Anos vinte em Portugal,  José Augusto França refere que a propósito da vinda a Portugal de espectáculos musicais com artistas negros  (Black Folies, Harry Fleming,  etc, esta reclamada como a "a primeira orquestra de jazz em Portugal"), em artigos de Mário Azenha no Diário de Lisboa de 11 de Março de 1928 e Jornal dos Teatros de 8 de Novembro de 1928, se protesta contra tanta  escarabuncracia, fantochada negreira, fedor a catinga, pretalhada que nos servem...  tudo isto possivelmente em resposta a António Ferro, que já em 1922 se pronunciara sobre o   jazz-band  na conferência A Idade do Jazz Band, embora a relação deste autor ligado à ditadura com o jazz ainda esteja por esclarecer devidamente... Outro triste exemplo: num artigo do ABC de 14 de Outubro de 1926 chamado

"Como nasceu o Jazz-Band",  entre teorias como   "foi em feiras e arraiais do Minho por um conhecido Homem dos Sete Instrumentos que emigrou para Boston",  inclui-se a hipótese da origem negra porvir "duma aldeia de pretos, com os clássicos macacos e batuques, com um tambor e algumas pistolas roubadas aos brancos, organizaram-se constantes festas...e todos os outros pretos bailam e cantam demoniacamente"! Ainda em 1939, António Gonçalo Molho de Faria, professor de Teologia em Braga, escrevia Os Bailes e a Acção Católica,  onde  afirmava que "nos bailes temos, sim, essa máscara de música ordinária e ligeira, por vezes esse nojento batuque de pretos, esse jazz infernal que em nós tudo movimenta e enerva, que tresanda a sensualismo o mais grosseiro"
Entende-se assim melhor o que representou de corte com a situação social vigente a poesia que os intelectuais das colónias trouxeram a partir de finais dos anos 40
Calcule-se se  Molho de Faria já conhecesse o "libertino" poema “Aspiração” 1949  de Agostinho Neto...

Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo na Geórgia no Amazonas
Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar
...
Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

(Continua na próxima edição

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