Angola blues- II

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Quando a música negra americana invadiu os salões da Europa, os negros de todo o mundo sentiram com os seus irmãos americanos a alegria de poderem ser ouvidos, mesmo através do trompete. Os murros de Joe Louis foram aplaudidos em todo o mundo negro.

ANGOLA BLUES- II
ANGOLA BLUES- II

A Casa dos Estudantes
do Império

Agostinho Neto, "Introdução a um Colóquio sobre a Poesia Angolana." 1959. in João Luís Rafael Mitras
Durante os anos quarenta e cinquenta do século XX os poetas africanos de língua portuguesa vão lançar mão de vários modelos que melhor auxiliem a definir a sua identidade, dos quais destacamos, no caso de Angola, Langston Hughes e Guillén, citados por Viriato da Cruz no poema “Mamã negra”, Ngola Kiluanji e a Rainha Ginga, citados em "Ao içar da bandeira" por  Agostinho Neto, bem como diversas figuras e temas ligados ao Jazz e a outras áreas sociais, políticas e desportivas.
É dentro desse objectivo que estudantes das colónias se juntam na Casa dos Estudantes do Império (CEI), instituição fundada em Lisboa no ano de 1944 com o apoio do Governo com o objectivo de formar quadros para o apoio à política ultramarina segregacionista, mas que serviu afinal como veículo para a libertação colonial, na sequência de  um fenómeno literário que ficou conhecido pela “geração mensagem”, onde para além de Agostinho Neto também  Viriato da Cruz e António Jacinto haviam colaborado.
Logo em 1947 Agostinho Neto, talvez influenciado pelo desencanto na poesia de Drummond, escreve Ópio, publicado no Meridiano (boletim da secção de Coimbra da Casa dos Estudantes do Império). Trata-se de um protesto social, talvez o primeiro poema de um autor das colónias em que se encontram referências directas ao jazz. Note-se ser 1947 um ano importante pois apenas nesta altura começam a surgir em Portugal textos sérios onde se reflecte sobre a origem e evolução da música negra, tendo o Hot-Clube de Portugal surgido em 1950

Casaram-me com a tristeza!
A minha terra
negra de sol
-a minha Mãe-
que entoa magoadas melodias
em noites de festa
quando a lua ri
e a enigmática floresta
farfalha ritmos de jazz,
-a minha Mãe-
deu-me tristeza em casamento
quando nasci.

Entre os estudantes que participavam nas actividades da CEI e que utilizaram imagens ligadas ao jazz na sua poesia, com relevo para José Craveirinha e Noémia de Sousa - talvez a primeira escritora a utilizar jazz na poesia lusófona (“Samba”, “Let my people go” e “A Billie Holiday cantora”, entre outros poemas escritos nos anos de 1949 a 1952) - um caso que pensamos merecer especial menção, pela sua originalidade, é o de outro poeta moçambicano, Rui Knopfli que, ao contrario de outros, via o jazz e a América numa perspectiva cultural e não nacionalista (ou de um nacionalismo «submerso», como diz Fátima Monteiro, O país dos outros. A poesia de Rui Knopfli.
Você compreende Thelonius Monk?

Não. Você não o entende.
Até lhe desagrada e o inquieta
aquela forma esquisita
de ter o passo oblíquo e trôpego
e de deixar tombar a nota
não quando você a espera,
mas um momento antes ou depois,
sempre depois se a espera antes,
sempre antes se a espera depois.
Não finja. Eu sei que o incomoda
e o irrita o modo impertinente
com que faz rilhar o dente
ao piano, com que pulveriza
as semibreves. De Dinah
a Bolivar blues não se vai
nas cordas doces de um violino;
tem de se ir pisando duro
mas com cautela e precaução
doseando silêncio e som
opondo ao vazio mensuração.»


Voltando a Agostinho Neto, muito interessante é a ligação do som dos batuques ao ritmo dos blues no poema Voz de Sangue de 1948, sublinhando a origem africana dos blues americanos e a necessidade de uma noção abrangente na luta dos povos, como testemunha que foi na infância do regime esclavagista dos trabalhadores de algodão de Icolo o Bengo, ou dos contratados para as plantações de café na região dos Dembos, no Piri, onde viveu com os seus pais

Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue
Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South
Ó negro de África
negros de todo o mundo
eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos


Note-se que em 2007 o artista guineense Zé Manel, no álbum African Citizen, com uma versão musicada deste poema, ganha prémio para melhor melhor canção africana  nos EUA da revista Just Plain Folk .
Quando em 1958 Raul Calado e José Duarte criam em Lisboa o Clube Universitário de Jazz (CUJ), após cisão com o Hot Club de Villas Boas, a componente de resistência ao poder salazarista que terá motivado a dissidência cria condições para uma estreita colaboração com a CEI, procurando contribuir para a consciencialização revolucionária dos intelectuais das colónias através da divulgação do jazz como veiculo para o reforço da sua identidade política e cultural com a africanidade, na linha de Langston Hughes e o seu poema O negro fala sobre rios

Todos os tantãs do mato batem no meu sangue. Todas as luas selvagens e ferventes do mato brilham na minha alma

A colaboração entre a CEI e o CUJ, matéria bem aprofundada pelo investigador do Centro de Estudos de Jazz da Universidade de Aveiro Pedro Cravinho (a quem muito agradeço achegas e correcções propostas a este texto), passou pela organização de diversas sessões fonográficas, com relato detalhado no seu boletim Mensagem, inclusive depois do CUJ ter sido fechado pela PIDE em 1961, conforme se pode ver por esta notícia no n.º 1 de 1962: “Uma anunciada sessão de jazz e kwelle, comentada pelo distinto critico dr. Raul Calado...de bom nível musical, foi seguida com o maior entusiasmo por parte do numeroso auditório...terminou a cessão com a apresentação de kwella, esse ritmo negro sul-africano tão pouco conhecido entre nós”
A viver em Angola mas também colaborador da CEI e membro fundador da União dos Escritores Angolanos, o poeta António Jacinto, com obra na quase totalidade escrita na prisão do Tarrafal,  dedica a “Antonica na Barra do Dande” o poema Bailarina Negra, onde jazz é sinónimo de amor, integrado na sua “Colectânea de poemas” editada em 1961 pela CEI

A noite
(Uma trompete, uma trompete)
fica no jazz
A noite
Sempre a noite
Sempre a indissolúvel noite
Sempre a trompete
Sempre a trépida trompete
Sempre o jazz
Sempre o xinguilante jazz
Amor
ritmo negro
no teu corpo negro
e os teus olhos
negros também
nos meus
são tantãs de fogo de amor

O começo da luta de libertação e Angola nos anos 60
O poema de António Jacinto transporta-nos para as fronteiras de Angola, onde a partir dos anos 40 os bairros periféricos das maiores cidades começam a atrair muita população das zonas rurais, palpitando numa complexidade e “mística ansiedade” onde Agostinho Neto, no poema Sábado nos Musseques de 1948, encontrava “bocas escancaradas a gritar swing”

Os musseques são bairros humildes
de gente humilde
Vem o sábado
e logo ali se confunde com a própria vida
transformada em desespero
em esperança e em mística ansiedade
...
Ansiedade
nos alto-falantes do cinema
de bocas escancaradas
a gritar swing
ao pé das bilheteiras
enquanto um carrocel
arrasta em turbilhões de sonho
luzinhas vermelhas verdes azuis
e também
a troco de dois mil e quinhentos
namorados e crianças

Dessa vivência suburbana em Luanda surge O Ngola Ritmos, grupo musical que ao misturar sons novos e tradicionais a que juntou evidente cunho político começou a delinear de forma mais nítida a diferença entre música suburbana e urbana, não deixando também de  adaptar ao semba velhas canções portuguesas, como  Teodoro não vás ao sonoro! Eduardo Lara Filho “pediu” a um dos seus fundadores, Aniceto Vieira Dias (Liceu) que também viesse cantar no seu funeral

Quando eu morrer
Quando eu morrer
eu quero que o N’Gola Ritmos
vá tocar no meu enterro.
 
Como Sidney Bechet
como Armstrong
eu gostarei de saber
 
que vocês
tocaram no meu enterro.

Os anos 60 em Angola caracterizaram-se pelo começo da luta armada de libertação nacional dirigida pelo MPLA, que durante 14 anos levou milhares de soldados portugueses a combaterem um povo que apenas desejava a  legitima independência. Lembremos que no 1.º Festival de Jazz de Cascais em 1971 Charlie Haden, contrabaixista  do Quarteto de Ornette Coleman dedica Song for Che aos Movimentos de Libertação das colónias portuguesas. Mais tarde o mesmo Charlie Haden no seu álbum Closeness de 1976, com Paul Motian na percussão, inclui a faixa “For a Free Portugal”, onde se dão vivas MPLA Liberdade ou Morte e a outros movimentos de libertação, acompanhados com sons retirados do interessantíssimo álbum Angola: Vitória é Certa, editado pela Paredon em 1970, onde facilmente se descobrem as raízes dos blues!

Outra curiosidade: em 1965 Wayne Shorter grava Footprints: The Life and Work of Wayne Shorter, que continha duas versões da composição Angola (considerada das composições mais inovadoras daquela época), que possivelmente terá dedicado à sua primeira mulher, Ana Maria Patrício, que conheceu em 1964 e que viveu a sua infância em Angola. Certo é que lhe dedicou Lusitanos, tema  do álbum Tale Spinnin que gravou com os Weather Report em 1975.
Um desses soldados foi Fernando Assiz Pacheco, jornalista mobilizado para Angola entre 1963 e 1965 e dos primeiros poetas a escrever sobre a guerra colonial, encontrou no jazz algum conforto

....
Abençoados os campos de minas: ninguém sabe, ch.
Abençoado o aviso de Ezra Pound «that war
is the destruction of restaurants».
Abençoado o ouvido para a música.
Abençoado um ceguinho qualquer
(George Shearing, Roses of Picardy)
Abençoado o ponteiro mais pequeno.
Abençoada a noite longa.
Abençoado o suor na virilha que é bom sinal.
...
Rascunho e Framentos

A herança do Ngola Ritmos alargou-se nos anos 60 e seguintes, com diversos grupos a animar as zonas suburbanas de Luanda e outras cidades, com possíveis ligações ao jazz que merecem tratamento aprofundado que não cabe neste texto, designadamente através da influência cubana após a independência.
Mas também na “cidade branca” surgiram figuras que posteriormente deixariam marcas no campo musical. Lembremos luis Cilia em 1964 com Portugal-Angola: Chants de Lutte de 1964, Fausto e as sua versões de poetas angolanos ou Fernando Girão (o Very Nice do Grupo 5) a colaborar com Rao Kyao, em 1976, na gravação de Malpertuis, um dos primeiros discos de Jazz gravados em Portugal por músicos portugueses. Merecem também menção os Windies, que curiosamente entre 1968/69 tocavam um tema chamado Rythm an Blues (Revista Noite e Dia Outubro 1968), onde cada membro “dava largas” à criatividade e improviso, com relevância para os longos solos do percurssionista Beto Kalulu, que mais tarde viria a tocar no quarteto de  Manuel Guerreiro no Festival de Jazz de Portimão. A maior parte destes músicos surgiram assim de “conjuntos” que actuavam em festas ou festivais, merecendo especial realce, pela sua constante ligação à divulgação do Jazz, José Andrade (ZAN), que criou em Luanda Os Electrónicos. Artista plástico, Zan “foi, sem dúvida, o primeiro membro de uma geração pioneira de angolanos que fez e continua a fazer uma revelação militante, apaixonada e continuada do Jazz”, conforme escreve o seu amigo Jerónimo Belo numa “breve história do Jazz em Angola” publicada em Revista TAAG n.º 76 Nov/ Dez 2009 ouvia-se um trio com trompete de chet baker
...
A voz de chet baker a cantar é como uma vadiagem ébria
incluído em POEZZ de José Duarte e Ricardo Alves



Outra figura ligadas ao Jazz nos anos 60 e 70 em Angola é Mario Rui Silva, fundador do conjunto Os Jovens, que em 1973 declarava no poema Museu

O que ergueram meus braços
não está em África
a minha música
não está em África
a minha estatuária
não está em África
idem para o meu marfim
as minhas lanças
os meus diamantes
o meu ouro
idem
idem
in “ A Onda”

Muito mais haverá a descobrir, para já fiquemos com a poesia de David Mestre que em 1971 fundou e dirigiu o grupo Poesias – Hoje, foi director do Jornal de Angola e era membro da Associação Internacional de Críticos Literários e da União dos Escritores de Angola

Tua voz desliza como um pássaro aberto na lâmina
                                                                       [do dia
ilha que se levanta e voa a partir do Sol
lamento gritado da floresta por sua gazela perdida
choro grande do vento nas montanhas
ao nascimento de um escravo mais na história do
                                                                        [vale
 
Tua voz vem de dentro da cidade
de todas as ruas bairros e leitos da cidade onde houver
                                                         um colar de pernas
contar o silêncio das horas guardadas a soco no sarilho
                                                                     dos ventres
com um jazzman a assobiar na escuridão dos pares
a memória ácida do chicote
nos porões do Mundo
Blues, incluído em Subscrito a Giz:
60 poemas escolhidos (1972-1994)

E é sublinhando a incontornável importância de Jerónimo Belo na divulgação e estudo do Jazz em Angola que terminamos estas breves linhas: para além de  principal responsável pelo Festival Internacional de Jazz de Luanda,  desde inícios da década de 70  que mantém regular participação em  programas  na Rádio  e Televisão nacionais de Angola,  autor de diversas publicações como o recente  livro  Blues e a Poética contra a Indiferença, justificando assim ter sido agraciado pelo Ministério da Cultura de Angola com um Diploma de Mérito pelas iniciativas em prol da divulgação do Jazz.
Paira no ar Afro-Blues de John Coltrane cujo título define o que  o jazz é e o é orgulhosamente - de origem africana (ainda hoje século XXI) e blue ligado a blues   conforme escreve José Duarte na colectânea editada pelo Público  Let´s jazz...
Joaquim Correia

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