Angola investe na história geral da África

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O Vice-Presidente de Angola, Manuel Domingos Vicente, revelou em Luanda, na abertura da quarta reunião do Conselho Científico da UNESCO sobre o volume IX da História Geral de África que o Governo de Angola contribuiu com 887 mil dólares americanos para que a UNESCO possa elaborar o nono volume da História Geral da África (HGA) para fins pedagógicos.

Angola investe na história geral da África
História geral da África Fotografia: Paulino Damião

De acordo com Manuel Vicente, para quem a elaboração deste volume da HGA "é uma prova do dinamismo do conhecimento científico para o bem-estar multifacetado", a contribuição de Angola foi prestada no âmbito do Acordo Quadro celebrado com a UNESCO.
Na ocasião, o Vice-Presidente angolano sublinhou que o ensino da verdadeira história de África "é um desafio premente e indispensável", pelo que o seu país apoia o Projecto do Uso Pedagógico da História Geral de África, "como via para moldar uma nova geração de africanos orgulhosos da sua história, do seu passado e confiantes na construção de um futuro melhor".
Considerou fundamental a preservação do património cultural "para a memória do que fomos, do que somos e alicerce para o que seremos".
No seu entender, a realização desta reunião do Comité Científico da UNESCO em África, e em Angola em particular, "mostra estarmos comprometidos com o conhecimento, factor que permitirá actualizar os conteúdos dos primeiros oito volumes da HGA, tendo em conta a história recente da descolonização, o fim do apartheid e o lugar de África no mundo".
Adiantou que a obra permitirá igualmente "mapear e analisar a diáspora africana, assim como colher contribuições para a construção de sociedades africanas modernas, emancipadas e desenvolvidas, assim como avaliar novos desafios e novas oportunidades com que a África e os seus emigrantes são hoje confrontados".
Nesta quarta reunião do Conselho Científico Internacional (da UNESCO) para a Redacção da História Geral de África (CCIRHGA), que encerrou dia 19 de Fevereiro, sob a égide da UNESCO e acolhida pelos ministérios da Ciência e Tecnologia, do Ensino Superior e da Educação em Angola. foram designados os cientistas e autores angolanos e estrangeiros cujos trabalhos passam a fazer parte da História Geral de África.
A reunião, realizada no Centro Nacional de Investigação Científica da Faculdade de Arquitectura da Universidade Agostinho Neto (UAN), colheu contribuições para o nono volume e actualizou os conteúdos dos primeiros oito face aos recentes desenvolvimentos nos vários domínios da investigação científica.

HERANÇA COMUM
No acto de enceramento, a ministra angolana da Ciência e Tecnologia, Maria Cândida Teixeira, frisou que o objectivo da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), em usar a história geral de África, é ajudar a renovar o seu ensino nos Estados membros da União Africana (UA), com vista a destacar a herança comum do continente.
Segundo Maria Cândida Teixeira, a ideia da UNESCO é renovar o ensino através de uma base para a elaboração de livros infantis, de manuais escolares e de programas televisivos e radiofónicos de forma a destacar a herança comum dos povos africanos e, através desta, apoiar a integração regional.
“A compreensão mútua, a construção da paz e, de igual modo, o fortalecimento dos laços entre africanos que vivem em África e os povos de ascendência africana em todo mundo, constituem parte deste intento da UNESCO”, ressalvou a ministra.
No encontro dedicado à preparação da elaboração nono volume da HGA, obra a sair em 2018, participaram Angola, Argélia, Barbados, Benin, Botswana, Brasil, China, Cuba, Estados Unidos, França, Mali e a República Democrática do Congo.

HGA NO SISTEMA DE ENSINO
O governo angolano prevê inserir, nos próximos tempos, o IX Volume da História Geral da África no sistema de ensino para o desenvolvimento científico dos cidadãos e enaltecer cada vez mais a dignidade dos africanos, revelou o secretário de Estado da Ciência e Tecnologia, João Sebastião Teta, a propósito da 4ª Reunião do Conselho Científico Internacional
O secretário de Estado referiu que esta intenção será de carácter pedagógico para que a verdadeira história do continente seja contada nas escolas. Apontou, entre várias questões, a história do Apartheid e a diáspora africana como as novas matérias complementares aos primeiros volumes que vão constar no IX Volume da História Geral de África.
João Teta deplorou o facto de os primeiros volumes da História Geral de África, elaborados por investigadores africanos, com maior destaque para o contributo do professor Joseph Ki-Zerbo e cientistas de outros continentes, ainda não se fazerem sentir nas escolas africanas.
Segundo João Sebastião Teta, os governos de Angola e do Brasil contribuirão significativamente na tradução das obras do inglês para o português e adequá-las à realidade das escolas africanas.

História da História Geral da África

Em 1964, a UNESCO dava início a uma tarefa sem precedentes: contar a história da África a partir da perspectiva dos próprios africanos. Mostrar ao mundo, por exemplo, que diversas técnicas e tecnologias hoje utilizadas são originárias do continente, bem como provar que a região era constituída por sociedades organizadas, e não por tribos, como se costuma pensar.
Quase 30 anos depois, 350 cientistas coordenados por um comité formado por 39 especialistas, dois terços deles africanos, completaram o desafio de reconstruir a historiografia africana livre de estereótipos e do olhar estrangeiro. Estavam completas as quase dez mil páginas dos oito volumes da Colecção da História Geral da África, editada em inglês, francês e árabe entre as décadas de 1980 e 1990.
Além de apresentar uma visão de dentro do continente, a obra cumpre a função de mostrar à sociedade que a história africana não se resume ao tráfico de escravos e à pobreza.
“Durante muito tempo, mitos e preconceitos de toda espécie ocultaram ao mundo a verdadeira história da África. As sociedades africanas eram vistas como sociedades que não podiam ter história. Apesar dos importantes trabalhos realizados desde as primeiras décadas do século XX por pioneiros como Leo Frobenius, Maurice Delafosse e Arturo Labriola, um grande número de estudiosos não africanos, presos a certos postulados, afirmava que essas sociedades não podiam ser objecto de um estudo cientifico. Devido, sobretudo, à ausência de fontes e de documentos escritos.”
De fato, havia uma recusa em considerar o povo africano como criador de culturas originais que floresceram e se perpetuaram ao longo dos séculos por caminhos próprios, as quais os historiadores, a menos que abandonem certos preconceitos e removam seus métodos de abordagem, não podem aprender.
A situação evoluiu muito a partir do fim da segunda Guerra Mundial e , em particular, desde que os países africanos, tendo conquistado a sua independência, começaram a participar activamente da vida da comunidade internacional e dos intercâmbios que ela implica. Um número crescente de historiadores tem se empenhado em abordar o estudo da África com maior rigor, objectividade e imparcialidade, utilizando com as devidas precauções fontes africanas originais. No exercício de seu direito à iniciativa histórica, os próprios sentiram profundamente a necessidade de estabelecer em bases sólidas a historicidade de suas sociedades.
Os especialistas de vários países que trabalharam nesta obra tiveram o cuidado de questionar as simplificações excessivas provenientes de uma concepção linear e restritiva da história universal e de restabelecer a verdade dos factos sempre que necessário e possível. Esforçaram-se por resgatar os dados históricos que melhor permitissem acompanhar a evolução dos diferentes povos africanos em seus contextos socioculturais específicos.
Esta colecção traz à luz tanto a unidade histórica da África quanto as suas relações com outros continentes, sobretudo as Américas e o Caribe. Durante muito tempo, as manifestações de criatividade dos descendentes de africanos nas Américas foram isolados por certos historiadores num agregado heteróclito de africanismos. Desnecessário dizer que tal não é a atitude dos autores desta obra. Aqui a resistência dos escravos deportados para as Américas, a “clandestinidade” politica e cultural, a participação constante e maciça dos descendentes de africanos nas primeiras lutas pela independência, assim como nos movimentos de libertação nacional, são entendidas em sua real significação: foram vigorosas afirmações de identidades que contribuíram para forjar o conceito universal de Humanidade. Outro aspecto ressaltado nesta obra são as relações da África com o sul da Ásia através do oceano Índico, assim como as contribuições africanas a outras civilizações por um processo de trocas mútuas.
Avaliando o actual estágio de conhecimentos sobre a África, propondo diferentes pontos de vista sobre as culturas africanas e oferecendo uma nova leitura da história, a História Geral da África tem a indiscutível vantagem de mostrar tanto a luz como a sombra, sem dissimular as divergências de opinião que existem entre os estudiosos.

(TEXTO INTRODUTÓRIO da versão em português publicada pelo Governo do Brasil)

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