Arquivo e poder

Envie este artigo por email

Todo e qualquer membro de uma sociedade tem necessidade de ter acesso ao conhecimento e informação produzidos e acumulados ao longo do tempo.

Arquivo e poder
Arquivo

Ao debruçar-se sobre a conservação do conhecimento, o historiador Amadou H. Bâ (2010) apontou o “cérebro”do homem como o “primeiro arquivo” existente no mundo. O autor acrescenta que o homem“ antes de colocar os seus pensamentos no papel” (...) “mantém um diálogo consigo mesmo”.
Analisando esta afirmação dentro da abordagem sobre os arquivos, iremos nos deparar com a selecção cuidadosa dos documentos como um dos momentos que antecede a publicação dos mesmos. Essa atitude justifica-se pelo facto de o surgimento do arquivo ter estado associado a uma determinada elite cujo poder representado pela informação documental precisava ser conservado.
Inicialmenteinstrumento de manutenção do poderoarquivotorna-sedifusor do conhecimento e da informação no quadro da institucionalização do direito a estes bensimateriais, indispensáveis ao desenvolvimento humano e sociocultural. Apesar disso, e tendo em conta o seu historial, o acesso aos documentos continuou (a) a ser condicionado pelas razões a que já nos referimos. Trata-se essencialmente do acesso à informações que, quando mal conservadas, podem perigar a existência de uma entidade pública ou privada.
Por outras palavras, a desejada partilha da informação, considerada um bem público, mas particular, em muitos casos, continua (ou) a ser controlada.
Falamos aqui de certas personalidades de relevo que, em muitas as sociedades, teimam em não divulgar informações de interesse à pesquisa científica (histórica, sociológica, etc.)
– actividade que inclui, entre outras tarefas, a consulta e análise de fontes documentais.
Sendo a universidade uma instituição voltada para o ensino e a investigação científica, e uma vez que esta depende, em parte, do auxílio prestado pelos arquivos, a partilha de informações entre estas instituições permite a realização de estudos científicos de interesse científico, económico, político, cultural, etc..
Isto pressupõe a existência de arquivistas competentes no seio de, por exemplo, instituições financeiras, partidos políticos, e associações culturais interessadas na preservação da sua memória.
Para um país como Angola, comprometido com o seu desenvolvimento, o Plano Nacional de Formação de Quadros deve contemplar a formação de técnicos superiores, isto é, de arquivistas que deverão prestar o seu contributo na melhoria da Administração Pública, e não só, cujas críticas dirigidas à si são motivadas, parcialmente, pelo extravio de documentos resultantes da inexistência de políticas de conservação do acervo documental.
Por outro lado, as empresas, incluindo as do sector privado, devem potenciar os seus «arquivistas» com acções de formação com finalidade de atender a necessidade de preservação da informação/ documentação do seu interesse e do cidadão que solicita e beneficia da prestação dos seus serviços.
Pois, a afirmação segundo a qual o arquivista limita-se apenas à arrumaçãoe localização de documentos manifesta uma visão primária sobre o exercício dessa nobre profissão que, na Era Digital, requer actualização continua de quem a exerce.
Em conclusão, cabe às instituições públicas e privadas existentes em Angola velar pelo seu património imaterial formado no decorrer do tempo e espaço no qual as suas actividades são realizadas no presente. Estas farão parte do seu passado que futuramente serão objecto de estudo para os pesquisadores.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos