As linhagens antigas e novas em Cabinda

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O livro “Cabinda e as Construções da sua história, 1783-1887”, editado pela Dinalivro, em Março de 2006, resulta de uma dissertação de mestrado, defendida por Alberto Oliveira Pinto e orientada pela Prof.ª Doutora Isabel Castro Henriques, onde, entre outros aspectos de enorme relevância, se explica a emergência das linhagens “antigas” na sociedade cabindense e das “novas” em decorrência do tráfico de escravos.

As linhagens antigas e novas emCabinda
As linhagens antigas e novas emCabinda Fotografia: Dombele Bernardo

Refere Oliveira Pinto, autor do livro, que, no reino do Ngoio, antes do tráfico de escravos, existia uma intercâmbio com outros reinos, de bens vindos do litoral, tal como o sal e o peixe, por produtos agrícolas, metais ou marfim ou panos (libongo). Esta circulação de bens implicou na necessidade de um controlo administrativo, tanto no litoral, no que respeitava à produção de bens, como em relação às rotas comerciais, que vinham do interior, independentemente do facto da autoridade central estar fixada em Mbanza Ngoio, residência oficial do Mangoio e dos seus colaboradores mais próximos, escolhidos dentre as principais linhagens.
Citando Carlos Serrano, autor do livro “O Poder Político no Reino Ngoyo”, Oliveira Pinto refere que foram criados “duplos” no litoral, que eram representantes daqueles nobres dignitários, que partilhavam o poder de forma rotativa. O Mangoio era representado pelo Manbuko, seu “duplo”,
no litoral. Porém, o principal administrador do Mangoio, o Mamboma za Noio, tinha, na costa, como seu correspondente, o Mangovo, que estava imediatamente abaixo do Manbuko.
Os conselheiros do Mangoio, em Mbanza Ngoio – o Mamboma za Noio e o Fulcico za Ngoio – tinham, no litoral, como seus homólogos, o Mamboma e o Manfuka, “sendo este último o cobrador de impostos do Manbuko e responsável directo pelos assuntos comerciais”.
Era da competência da Manfuka cobrar o “nbicó”; ou seja, “um tributo em géneros aos comerciantes que iam para o interior a partir dos mercados do litoral, como o Tchioua, na baía de Cabinda, ou aos que a eles afluíam, pertencentes às linhagens produtoras, sendo a receita redistribuída pelas linhagens hierarquicamente superiores, as ‘linhagens antigas’, detentoras de poder sobre a terra e dos bens de prestígio, como o monopólio da produção do sal e do uso de artefactos em marfim ou de panos libongo”.
Com a chegada dos portugueses ao reino do Congo, em finais do século XV, intensificou-se o tráfico de escravos e, consequentemente, um maior fluxo migratório para as áreas de maior concentração comercial, que ficavam no litoral, passando a estabelecer um maior contacto com os europeus e a ter a acesso a um novo poder económico, assente no lucro comercial de tipo mercantilista, que se foi sobrepondo ao prestigio da antiguidade da linhagem.
Assim prosperam as “linhagens novas”, provenientes de grupos que haviam antes imigrado para o litoral e que, através do estabelecimento de alianças, se foram associando às “linhagens antigas”.
Passa então a ocorrer uma partilha de poder sobre o território e sobre a detenção dos seus símbolos entre as “linhagens novas” e as “linhagens antigas” que com elas se aliaram, o que, evidentemente, provocou o afastamento do exercício desse poder, de outras “linhagens antigas”, que não estabeleceram coligações com as “linhagens novas”, economicamente mais poderosas.
D. Domingos José Franque, em “Nós, os Cabindas”, afirma que o cargo de Manbuko era hereditário e só podia ser desempenhado por “indivíduos de quatro famílias distintas do Reino de Cabinda, a saber: Príncipe Sambo, Jack, Princesa Mani Simbo e Puna”.
Por outro lado, também António João Fernandes, natural de Cabinda, no seu manuscrito de 1928, analisado por Carlos Serrano, uma lista de sete “Manbukos”, da qual constam os nomes de quatro “linhagens antigas” que desempenharam o seu cargo político no litoral: os Nsambo, os Nsimbo, os Monkata Kalombo e os Npuna. Destas quatro, só as duas últimas aderiram ao tráfico de escravos.
Esta adesão levou a que os “Monkata Kalombo se dispersassem ao longo do litoral da baía de Cabinda, adquirindo mesmo um dos seus ramos por contacto com os ingleses, o nome de Jack e que os Npuna, linhagem de ferreiros oriunda de Ntali (“ntali” significa “ferro”), se concentrasse na povoação ribeirinha de Tchimambuco (Simulambuco),nas margens do rio Lukola, não muito distante da costa”.
De realçar que, em relação a Tchimambuco, o termo deriva de “tchi” (ou “nsi”), que significa “terra”, e de “mambuko”, pelo que seria a “terra do mambuko”. Esta onomástica (estudo dos nomes próprios de todos os géneros, das suas origens e dos processos de denominação no âmbito de uma ou mais línguas e dialectos) mostra o facto de o cargo ter sido por diversas vezes desempenhado por elementos da linhagem Npuna, antes e depois do início do tráfico de escravos. Os Nsambo acabaram substituídos por “linhagens novas” às quais se aliaram. O próprio Domingos José Franque, segundo Carlos Serrano, “alude indirectamente aoa facto dos Nsambo se haverem aliado à ‘linhagem nova’ dos Franque.
Já “os Nsimbo, terão perdido prestigío por se encontrarem estabelecidos numa região a sul da capital do Ngoio e da baia de Cabinda, centro do comercio negreiro”.
Porém, “o facto de um princesa chamada Maria Simbo aparecer em 1885, na qualidade de Mambuko, ocupando duas aldeias da baía ao norte do território do Npuna e encabeçando a loista de signatários da Petição do Tratado de Simulambuco ao lado de Manuel José Puna, faz crer na existência de alianças entre os Nsimbo e os Npuna, sendo agora estes últimos uma linhagem tradicional ‘renovada’ pelo tráfico de escravos”.

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