Cartinhas e a arte de imprimir no reino do Congo

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Os portugueses chegaram à foz do rio Zaire e ao reino do Congo num momento em que a nobre "arte da imprimissão" já estava muito desenvolvida no reino.

Cartinhas e a arte de imprimir no reino do Congo
Cartinhas e a arte de imprimir no reino do Congo

D. Afonso V, o Africano, recebeu informação da invenção de Gutemberg precisamente no momento em que o mestre impressor abriu ao público a
sua primeira oficina. Portugal tinha fortes relações comerciais com Nuremberga donde importava missangas, contas de vidro e artefactos em
latão, que trocava por ouro em África e mais tarde por pimenta no Oriente.

O Africano era um rei culto e por isso tinha uma importante biblioteca.
Quando soube que havia forma de copiar vários exemplares do mesmo livro através da “divina arte da imprimissão”, tratou logo de contratar mestres impressores germânicos que chegaram ao reino menos de cinco anos depois de aberta ao público a oficina de Gutemberg.
A primeira tipografia e os mestres tipógrafos chegaram a Portugal através do Colégio de Santa Cruz por intervenção directa do bispo de Coimbra, D.
João da Costa.
Os frades crúzios da colegiada de Santa Cruz tinham uma delegação em Leiria onde existiam moinhos de água que fabricavam papel. A oficina de imprimissão e os mestres impressores de Nuremberga foram para Leiria onde ensinaram a arte. Foi aqui que nasceram os famosos Cónegos Tipógrafos, com quem D. Afonso V tinha relações privilegiadas.
Este rei português tinha posições dissonantes das correntes de pensamento da nobreza da época. Escreveu ele: “a Ciência e sabedoria é tão precioso
dom que coisa alguma a ela pode ser comparada”. Reis e nobres de Portugal e de toda a Europa, habitualmente não sabiam sequer ler e escrever.
Mas o Africano foi mais longe e fundou uma livraria no seu Paço de Alcáçova.
Mais tarde, o soberano abriu o espaço real ao público mas antes, como descreve o Professor Joaquim de Carvalho, “adquiriu códices, curando da sua instalação, estipendiando escrivães e iluminadores e confiando a sua guarda e conservação ao historiador Gomes Eanes de Azurara”. Estava criada em Portugal a primeira biblioteca pública.
E foi neste ambiente que no reinado seguinte, (D. João II) Diogo Cão chegou à foz do Zaire e estabeleceu os primeiros contactos diplomáticos com o reino do Congo.
Os soberanos congoleses eram senhores de um império onde florescia uma civilização muito avançada para a época. Mas faltavam-lhes os livros e
uma língua escrita para difundir a sua cultura. Os portugueses, pioneiros na arte da imprimissão e na produção industrial de livros, eram os
parceiros certos.
O Congo foi inundado de livros. E no reinado de D. Afonso I (Mbemba-a-Nzinga) chegaram milhares de “cartinhas” ou cartilhas para ensinar as
crianças a ler e escrever. Claro que entre os milhares de livros se encontravam catecismos para ensinar a fé cristã.

Cartinhas de ABC
As primeiras “cartinhas” ou cartilhas de ABC impressas em Leiria chegaram ao Congo e à Ásia em 1515, em pleno reinado de D. Afonso I do Congo.
Mas ainda não foi desta vez que os portugueses enviaram para o manicongo uma oficina de imprimir.
A primeira tipografia foi para a Etiópia precisamente no mesmo ano, enviada pelo rei português D. Manuel ao Negus, o mítico Preste João das Índias. O soberano português enviou uma biblioteca completa e entre os volumes seguiam 2.500 cartilhas e 42 catecismos. O objectivo era ensinar as crianças da Etiópia a ler e escrever português e latim. As “cartilhas de ABC” foram igualmente enviadas para a escola de Cochim, na Índia, para os meninos índios aprenderem português.
Em 1982, Laurence Hallewell publicou em Londres uma obra sobre a História da Imprensa onde confirma que no final do século XVI, chegaram as primeiras máquinas impressoras a África, pela mão dos missionários portugueses, que as instalaram nos seus colégios da Ordem dos Jesuítas, em Luanda e S.
Salvador do Congo (Mbanza Congo).
A primeira tipografia foi para a Etiópia, enviada por D. Manuel, em 1515. A oficina de tipografia dos jesuítas chega a Mbanza Congo alguns anos depois.
Mas antes, em 1490, foram de Portugal para o Congo dois mestres impressores. Levavam na bagagem caixotes com tipos e caracteres. Essa “embaixada” nada tinha a ver com os jesuítas, mas com os Cónegos Tipógrafos de Leiria, pertencentes ao Colégio de Santa Cruz de Coimbra. E é certo que começaram a imprimir cartilhas.
Só assim se justifica a existência de muitos padres e mestres de latim e língua portuguesa, quando D. Afonso I do Congo (Mbemba-a-Nzinga) ascendeu ao trono, em 1507.
O historiador Damião de Góis dá nota de um avanço extraordinário no sector da educação no reino do Congo. Textos históricos do bispo de Silves ou do Cardeal Saraiva, que fizeram estudos profundos sobre as relações entre portugueses e congoleses, confirmam essa realidade e revelam novos elementos que ajudam a compreender o esplendor dessa época no mais avançado império africano.
Damião de Góis escreve que “em 1504 foram enviados para o Congo mestres de ler e escrever para que abrissem escolas onde instruíssem meninos”. Na sua Crónica do Felicíssimo Rei D. Manuel, o historiador refere que “aos principais a que encarregam destes negócios, mandou entregar muitos livros de doutrina cristã”.
Jerónimo Munzer, no seu livro “Itinerários”, dá conta que em 1494 “em Portugal verifiquei grande actividade cultural junto dos congoleses”. Esta obra está escrita em latim mas foi traduzida para português e publicada por Basílio de Vasconcelos. É uma peça essencial para se compreenderem as relações culturais entre Portugal e o reino do Congo.

Mestres impressores
Nas páginas da obra “Itinerários” é revelado um pormenor que retira aos jesuítas portugueses a primazia da arte da imprimissão no Congo. Escreve Munzer: “dois impressores alemães de Estrasburgo e Norlingen foram para o Congo tentar fortuna”. Estes dois mestres trabalhavam com os crúzios em Leiria. Já tinham feito escola e partiram para África carregados com caixotes de tipos e todos os pertences necessários à “nobre arte da imprimissão”.
Nas principais capitais da Europa da época ainda nem sequer se sonhava com tipografias, já o Congo tinha uma oficina servida por dois mestres alemães.
Os europeus “resistiram” à imprensa porque a consideravam uma arte diabólica.
O rei de França remou contra essa maré e declarou-a uma “arte divina”. D.
Manuel fez dos mestres tipógrafos cavaleiros da sua casa real. Mas a desconfiança continuou, durante séculos.
A arte de imprimissão é muito antiga.
Os chineses imprimiam livros em formas (galés) de bronze. Pi-Shang, sábio do período Ching-Li (1041-1049) imprimia livros em matrizes de barro cozido.
Em 1403, o rei da Coreia, Tai-Tsung, mandou fundir tipos de bronze. No reino do Congo o bronze era um material conhecido há muitos anos. As minas do Mavoio e do Bembe forneciam abundante matéria-prima para o fabrico de artefactos em bronze, na época uma liga nobre.
Os técnicos defendem que é pouco credível a existência de tipos em bronze. Mas na arte e no artesanato congolês abundam miniaturas em bronze. Os mestres tipógrafos alemães podem ter usado as técnicas dos coreanos na impressão de livros, cartilhas e catecismos no reino do Congo, mesmo antes do reinado de D. Afonso I (Mbemba-a-Nzinga).
As primeiras tipografias em Portugal começam a trabalhar em 1474. Mas antes já existia a imprensa e ainda antes a estampagem em papel. Mas o primeiro livro só é editado em 1494, em Braga, pelo mestre impressor alemão João Gherlinc e tem o título “Breviarium Bracarense”.
Em 1492, D. Manuel envia para o Congo vários sacerdotes negros que ele tinha mandado educar desde pequenos no Colégio de Santo Eloy, em Lisboa.
Garcia de Resende dá nota desse facto na sua obra histórica: “foram para o Congo muitos frades e alguns deles bons letrados e com eles mandou El-Rei muitos livros. Também para lá foram dois impressores alemães”.
Garcia de Resende refere que nesse ano (1492), na escola de Mbanza Congo, “um negro natural da terra que sabia ler e escrever começava a ensinar os moços da corte e os filhos dos grandes”.
O Colégio de Santo Eloy em Lisboa (ou dos Lóios) era, segundo Garcia de Resende, “destinado aos magnatas das terras de além-mar, congoleses e indianos fazerem os seus cursos”.

Um rei latinista
Os reis do Congo recebem de braços abertos os mestres de língua portuguesa e de latim, os livros e as “cartinhas”.
Mas querem muito mais. O processo é rápido e quando D. Afonso I (Mbemba-a-Nzinga) sobe ao trono em 1507, acelera ainda mais. O rei do Congo era um homem culto e considerado um latinista.
Cataldo Sículo, cronista de D. João II, escreve que nas escolas do Congo se ensinava o latim. Damião de Góis confirma que o soberano “comentava com fina graça e crítica os cinco livros das nossas Ordenações”. O rei de Portugal tinha enviado ao seu homólogo as Ordenações Manuelinas, que D. Afonso I (Mbemba-a-Nzinga) leu, comentou e criticou “com fina graça”.
Só um homem com profundos conhecimentos da língua portuguesa e do latim podia ler e criticar as ordenações.
Baltasar de Castro, cronista de D. Manuel, disse de D. Afonso I: “é mais capaz de ensinar do que ser ensinado porque o Senhor não faz outra coisa
que estudar e muitas vezes adormece sobre os livros”. Rui Aguiar, mestre enviado por D.
Manuel para o Congo, numa carta remetida para o rei pede mais livros porque o manicongo “tem mais necessidade de livraria do que doutras cousas”.
Em 1514, já existiam no reino do Congo escolas em Sundi ou Nsundi, Bamba ou Mbamba, Bata ou Mbata e Pango ou Mpangu. Uma irmã do rei ensinava meninas num colégio de Mbanza Congo. Os mestres eram todos congoleses formados em Portugal nos Lóios e as cartilhas impressas nas oficinas congolesas.
As cartilhas dessa época desapareceram ou apenas chegaram aos nossos dias fragmentos. Catecismos ainda existem, tal como chegaram aos nossos dias alguns livros da época, ainda que não tenham a chancela dos mestres impressores do Congo. Mas o importante é que as máquinas de imprimir chegaram a Luanda e a Mbanza Congo ainda no final do século XV. A Europa só décadas ou mesmo séculos mais tarde aderiu à “nobre arte da imprimissão”.
Artur Queiroz

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