"Combater duas vezes"

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Mulher na luta armada em Angola

Mulher angolana n luta armada Fotografia: Arquivo

Foi editado em Portugal pela Verso da História o livro “COMBATER DUAS VEZES, MULHERES NA LUTA ARMADA EM ANGOLA” resultado da tese de doutoramento em Antropologia, no ISCTE-IUL de MARGARIDA PAREDES, e de um trabalho de quase seis anos dedicado às ex-combatentes angolanas. O prefácio é da antropóloga e historiadora Maria Paula Meneses, do CES, UC.
Além de ser um ARQUIVO DE MEMÓRIAS DE GUERRA NO FEMININO que cobre toda a história contemporânea de Angola sobre as Lutas de Libertação, MPLA, FNLA e UNITA, Revolta da Baixa do Kassange, 4 de Fevereiro, 15 de Março, prisioneiras do Campo de Concentração de São Nicolau e PIDE também se debruça sobre a Guerra Civil, nomeadamente sobre a Queima das Bruxas, Meninas Raptadas ou o Batalhão 89 (tropa feminina) da UNITA e ainda sobre o papel do Destacamento Feminino no 27 de Maio de 1977, entre outros capítulos, alguns dedicados a uma descrição etnográfica da pesquisa científica. Para reflectir sobre a participação das mulheres angolanas nas guerras e nos conflitos utilizei um viés analítico ancorado na Antropologia Feminista e na Teoria Crítica Feminista.

(e por quê a dor?)

Naquele som de manhãs escondidas, talvez, certo ruído de alcofa na maresia ao fundo a tua voz, um quintal e mais coisa menos coisa o Serafim nos anexos.
As mãos na cara encobriam nada, a voz dilacerava uma dor e nós nada, o choro árduo do adulto, ouvia. Mãos na cara, um homem de crista, sei lá, um homem sem corpo talvez e mesmo assim o meu pai:
- Veste-te e vamos ao hospital.
No mesmo instante um jardim de lezírias, sobre quatro cantos uma fonte esquecida, e relva, e sonho, e delírio, a dor do domingos ao fundo do quintal num repetido “ai” tantas vezes, a bola verde, o meu amigo Platão:
- Vamos?
A bola, eram talvez trapos juntos e demolhados depois secos e num choupal ainda cru, e não eram trapos:
- Defendo todos os teus remates, apostas?
Quintal de cimento na casa vazia. Mas não eram de cimento os meus delírios, o meu pai, longe, cerca de cem metros, não mais:
- Vamos Domingos, vou contigo, prepara-te.
E um homem que era, vazio de reminiscentes nenhuns na escola dura desse antigo ido, onde os militares, saloios alguns, e creio até que muitos, de calças puxadas quase até ao peito, disfarçados de homens mais que a gente de lá, como por exemplo o Pedroto, embora gostasse da forma como ele lidava comigo, enfim um à parte:
- Anda preto, nem nadar sabes.
Tiraram ao Domingos os dentes que lhe ruíam devagar a face esquerda.
Desinchada já a cara sem valor, talvez o que sentia eu ali, os dentes dele que doíam foram arrancados a saca-rolhas.
Acredito!
Lá fora a cidade escondida no bolso ébrio de que silêncios não sei, a rua aberta, e estrada onde seguira o meu pai no carro numa pressa de ambulância, o destino era o hospital na zona do aeroporto entregá-lo:
- Meu empregado, cuidem dele.
A indiferença ali. O senhor Silveira de cabo verde sem dó. E por quê a dor?

2º capítulo (do romance OS MESES NO SEPULCRO, ainda inédito)

Victor Burity da Silva

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