Conferência de Berlim Ecos na gestão África

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Está a fazer 134 anos que a Europa organizou uma magna conferência que ficou conhecida na História como Conferência de Berlim, mas também conhecida como Conferência do Congo.

A conquista da África e da Ásia, pelas chamadas potências imperialistas no pós-Segunda Revolução Industrial (1870)

Está a fazer 134 anos que a Europa organizou uma magna conferência que ficou conhecida na História como Conferência de Berlim, mas também conhecida como Conferência do Congo. A imprensa da altura publicitou as grandes linhas que moviam os grandes estados europeus a juntarem-se para analisarem e tomarem medidas tendo em vista uma intervenção conjunta em África. Dizia-se que o que movia as grandes potências era:
Libertar os africanos da vida selvagem, isto é, levar-lhes a fé e a civilização;
Ensiná-los a viver em paz;
Ensinar-lhes os avanços tecnológicos do mundo moderno de modo a viverem bem, com conforto, tal como os seus irmãos europeus.
Este nosso jornal, no nº 137, publicou uma entrevista ao professor José Rivar Macedo a propósito do livro O Pensamento Africano no Século XX, da Editora Expressão Popular, SP, que, em epígrafe, renova uma verdade bem expressa pela tal Conferência de Berlim, mas que fazemos por não acreditar que é a seguinte: “todo o conhecimento produzido pelo Ocidente sobre África corresponde a formas de predação em diversos níveis”.
O presente trabalho pretende que reflictamos, mais uma vez, e sem nos cansarmos, sobre tão marcante acontecimento para a sobrevivência do nosso continente tal como o herdámos dos nossos antepassados.
Penso ser tão pertinente renovarmos anualmente a reflexão sobre o assunto,com tanto ou mais fundamento quanto o não nos podemos esquecer nem do holocausto, nem da sangria esclavagista de África.
É urgente que África se reencontre e construa seus modelos de governação tendo em conta a sua realidade e as suas bases culturais, porque, não nos esqueçamos de que “todo o conhecimento produzido pelo Ocidente sobre África corresponde a formas de predação em diversos níveis”.


Introdução
A Conferência de Berlim, um encontro unilateralque decidiu a sorte dos ausentes,menosprezou literalmente a capacidade mental dos africanos no que diz respeito ao poder de decisão destes sobre o próprio destino. A par das implicações demográficas do tráfico de escravossão sobejamente conhecidas algumas das consequências políticas e económicas do encontro de Berlim, tais como as divisões territoriais que não tiveram em conta a realidade étnico-linguística dos povos africanos, o empobrecimento do continente a favor do desenvolvimento e enriquecimento do Ocidente.
O que não se conhece ou, pelo menos, pouco se fala é se o espírito dessa Conferência ainda encontra eco nas práticas das actuais lideranças do continente berço da humanidade.
Partindo do princípio das interinfluências culturais, que, no caso presente, se encontram agravadas pelo fenómeno da colonização, estetrabalho tem como objectivo compreender as consequenciais da Conferência de Berlim na gestão dos países africanos nos dias de hoje.

Arrogância ou paternalismo?
Falar da Conferência de Berlim implica trazer ao de cima a postura arrogante e paternalista do Ocidente, fonte da alienação.Em conformidade com HAROCHE et. al (2015, s/p), «[a] arrogância é um termo [ou atitude] que cresceu […] com aquilo que denominamos de narcisismo de sociedades individualistas […]».Contrariamente ao individualismo, uma relação autêntica exige reciprocidade. Quando um dos intervenientes se coloca ou tende a assumir o centro da relação, facilmente se torna cego às potencialidades do outro, anula-o e fica aberto o caminho para as injustiças.
Por seu turno,BOBBIOet al. (1998) apresentam-nos um conceito de paternalismo que nos remete a um sistema político autoritário, considerando os governados como seresde menor idade, não sendo, por isso, capazes de decidir por si mesmos o seu destino. Pode-se então deduzir que a arrogância e o paternalismo caminham lado a lado.
O comportamento paternalista é fruto do sentimento de superioridade do Ocidente considerando as demais sociedades como infantis, querendo, por isso, impor a todos as suas políticas e a sua vontade. Aquela porção do planeta arroga-se o direito de proprietária do mundo, podendo dispor dele sempre e como quiser. Certamente, foi este o sentimento que animou a Conferência de Berlim, ou seremos forçados a reconhecer, na actuação dos europeus, um sentimento de nulidade do homem africano.
A Conferência que, segundo os seus mentores, teve como motivação um fim altruísta (NASCIMENTO, 2008; AJAYI, 2010) para África, não auscultou sequer um só filho deste continente de modo a certificar-se das dificuldades e das preocupações do mesmo, o que, à partida, lhe retira tal carácter filantrópico. As reais intenções e motivações da cimeiraestavam consubstanciadas na procura de matéria-prima para alimentar a sua indústria e o continente africano estava catalogado como tal fonte. A propósito, acrescenta LAMY (s/d, p. 13) que «[q]uando da Conferência de Berlim [...] a corrida para a África já havia começado [...]. O encontro pretendia freá-la e regular os interesses para impedir o desentendimento entre as nações europeias».
Na verdade, se por um lado seria destituído de sentido ajudar alguém de quem não se conhecem as necessidades, por outro, a África pouco necessitaria de uma assistência de género, pois, a dado passo da história da humanidade, o nosso continente não ficava a dever nada aos demais. Aliás, a referência a África como berço da humanidade, deve sê-lo em quase todos os sentidos e não apenas naquele que nos informa do facto de o primeiro homem ter surgido neste espaço.  Concordaremos, então, com NASCIMENTO(2008, p. 62) quando diz que «além de dar a luz à humanidade, África foi também o palco da primeira revolução tecnológica da história: a passagem da caça e da colheita de frutos silvestres à agricultura». O mesmo autor apresenta a África como o fundamento da civilização ocidental, destacando a sua anterioridade nos campos de astronomia, da matemática, da engenharia, da arquitectura, da filosofia, da religião e da medicina. No que respeita a esta última, faz-se referência não apenas ao Egipto mas também a Uganda, cujos feitosforam testemunhados no último quarto do século XIX. É igualmente refutado o argumento de que a África não tenha desenvolvido a escrita, pois, um dos primeiros sistemas de escrita, os hieróglifos, é da criatividade egípcia.
Os factos ora apontados põem em evidência a qualidade de África como berço da civilização.Houve, porém, um empenho, por parte do Ocidente no sentido de destruir tal evidência, pois essas realizações foram protagonizadas pelo africano negro, o “inferior”, que afinal habitava toda a África. Assim, aqui também encontrou eco a estratégia do branqueamento da raça que não coibiu o europeu de eliminar a população negra da África do Norte (NASCIMENTO, 2008).
O povo africano protagonizou, ainda, feitos no campo do comércio e da navegação. Segundo NASCIMENTO (2008) antes mesmo do tráfico de escravos levado a cabo pela Europa, os africanos já teriam estado não só na Europa antiga, mas também na Ásia e na América praticando o seu comércio,tendo ali assentado comunidades. Estas afirmações encontram respaldo nos resultados obtidos pela paleontologia, nas tradições orais dos maias e nos factos correntes em relação aos quais a península arábica e a Índia são apontadas comoexemplos. O mesmo autor revela que pelos africanos os europeus obtiveram o conhecimento sobre a existência da América. Este quadro, tão animador e que muito ainda prometia veio a ser destruído pela megalomania ocidental, que se apropriou das melhores obras da arte africana e dos melhores filhos do continente que foram trabalhar para o desenvolvimento da Europa em detrimento da sua pátria. Assim sendo, cabe-nos perguntar: que propósitos humanitários animaram a Conferência de Berlim a favor de uma África, destruída paradoxalmente pela própria Europa? Como se pode explicar os conflitos entre os europeus “filantropos”?


Introdução
A Conferência de Berlim, um encontro unilateralque decidiu a sorte dos ausentes,menosprezou literalmente a capacidade mental dos africanos no que diz respeito ao poder de decisão destes sobre o próprio destino. A par das implicações demográficas do tráfico de escravossão sobejamente conhecidas algumas das consequências políticas e económicas do encontro de Berlim, tais como as divisões territoriais que não tiveram em conta a realidade étnico-linguística dos povos africanos, o empobrecimento do continente a favor do desenvolvimento e enriquecimento do Ocidente.
O que não se conhece ou, pelo menos, pouco se fala é se o espírito dessa Conferência ainda encontra eco nas práticas das actuais lideranças do continente berço da humanidade.
Partindo do princípio das interinfluências culturais, que, no caso presente, se encontram agravadas pelo fenómeno da colonização, estetrabalho tem como objectivo compreender as consequenciais da Conferência de Berlim na gestão dos países africanos nos dias de hoje.

Arrogância ou paternalismo?
Falar da Conferência de Berlim implica trazer ao de cima a postura arrogante e paternalista do Ocidente, fonte da alienação.Em conformidade com HAROCHE et. al (2015, s/p), «[a] arrogância é um termo [ou atitude] que cresceu […] com aquilo que denominamos de narcisismo de sociedades individualistas […]».Contrariamente ao individualismo, uma relação autêntica exige reciprocidade. Quando um dos intervenientes se coloca ou tende a assumir o centro da relação, facilmente se torna cego às potencialidades do outro, anula-o e fica aberto o caminho para as injustiças.
Por seu turno,BOBBIOet al. (1998) apresentam-nos um conceito de paternalismo que nos remete a um sistema político autoritário, considerando os governados como seresde menor idade, não sendo, por isso, capazes de decidir por si mesmos o seu destino. Pode-se então deduzir que a arrogância e o paternalismo caminham lado a lado.
O comportamento paternalista é fruto do sentimento de superioridade do Ocidente considerando as demais sociedades como infantis, querendo, por isso, impor a todos as suas políticas e a sua vontade. Aquela porção do planeta arroga-se o direito de proprietária do mundo, podendo dispor dele sempre e como quiser. Certamente, foi este o sentimento que animou a Conferência de Berlim, ou seremos forçados a reconhecer, na actuação dos europeus, um sentimento de nulidade do homem africano.
A Conferência que, segundo os seus mentores, teve como motivação um fim altruísta (NASCIMENTO, 2008; AJAYI, 2010) para África, não auscultou sequer um só filho deste continente de modo a certificar-se das dificuldades e das preocupações do mesmo, o que, à partida, lhe retira tal carácter filantrópico. As reais intenções e motivações da cimeiraestavam consubstanciadas na procura de matéria-prima para alimentar a sua indústria e o continente africano estava catalogado como tal fonte. A propósito, acrescenta LAMY (s/d, p. 13) que «[q]uando da Conferência de Berlim [...] a corrida para a África já havia começado [...]. O encontro pretendia freá-la e regular os interesses para impedir o desentendimento entre as nações europeias».
Na verdade, se por um lado seria destituído de sentido ajudar alguém de quem não se conhecem as necessidades, por outro, a África pouco necessitaria de uma assistência de género, pois, a dado passo da história da humanidade, o nosso continente não ficava a dever nada aos demais. Aliás, a referência a África como berço da humanidade, deve sê-lo em quase todos os sentidos e não apenas naquele que nos informa do facto de o primeiro homem ter surgido neste espaço.  Concordaremos, então, com NASCIMENTO(2008, p. 62) quando diz que «além de dar a luz à humanidade, África foi também o palco da primeira revolução tecnológica da história: a passagem da caça e da colheita de frutos silvestres à agricultura». O mesmo autor apresenta a África como o fundamento da civilização ocidental, destacando a sua anterioridade nos campos de astronomia, da matemática, da engenharia, da arquitectura, da filosofia, da religião e da medicina. No que respeita a esta última, faz-se referência não apenas ao Egipto mas também a Uganda, cujos feitosforam testemunhados no último quarto do século XIX. É igualmente refutado o argumento de que a África não tenha desenvolvido a escrita, pois, um dos primeiros sistemas de escrita, os hieróglifos, é da criatividade egípcia.
Os factos ora apontados põem em evidência a qualidade de África como berço da civilização.Houve, porém, um empenho, por parte do Ocidente no sentido de destruir tal evidência, pois essas realizações foram protagonizadas pelo africano negro, o “inferior”, que afinal habitava toda a África. Assim, aqui também encontrou eco a estratégia do branqueamento da raça que não coibiu o europeu de eliminar a população negra da África do Norte (NASCIMENTO, 2008).
O povo africano protagonizou, ainda, feitos no campo do comércio e da navegação. Segundo NASCIMENTO (2008) antes mesmo do tráfico de escravos levado a cabo pela Europa, os africanos já teriam estado não só na Europa antiga, mas também na Ásia e na América praticando o seu comércio,tendo ali assentado comunidades. Estas afirmações encontram respaldo nos resultados obtidos pela paleontologia, nas tradições orais dos maias e nos factos correntes em relação aos quais a península arábica e a Índia são apontadas comoexemplos. O mesmo autor revela que pelos africanos os europeus obtiveram o conhecimento sobre a existência da América. Este quadro, tão animador e que muito ainda prometia veio a ser destruído pela megalomania ocidental, que se apropriou das melhores obras da arte africana e dos melhores filhos do continente que foram trabalhar para o desenvolvimento da Europa em detrimento da sua pátria. Assim sendo, cabe-nos perguntar: que propósitos humanitários animaram a Conferência de Berlim a favor de uma África, destruída paradoxalmente pela própria Europa? Como se pode explicar os conflitos entre os europeus “filantropos”?


A vida ou o lucro?
Um dos factores que contribuíram bastante para a emigração europeia paraos outros continentes foi a explosão populacional registada após a primeira revolução industrial, que, se melhorou a vida de alguns, mergulhou a maior parte da população num mar de dificuldades remetendo para a pobreza muitas das populações que já tinham adquirido alguma autonomia do ponto de vista económico. Criou-se a cultura do lucro e banalizou-se a vida. Como nos diz ROLKE (2016, p. 49) «[c]om uma massa de pessoas procurando emprego, fábricas simplesmente dispensavam empregados que estivessem doentes ou velhos e contratavam gente nova. Essa política resultava em enorme desemprego, desesperança e pobreza». Esta passagem é mais uma prova da concupiscência ocidental queendeusaa riqueza e vilipendiaa vida humana.
Trata-se de uma posição diametralmente opostaà cultura africana, cujas comunidades,marcadas por uma vida solidária, indigitavam certosmembros a trabalhar na lavra de quem se visse impossibilitado de o fazer, por doença ou por outro motivo, no interesse único de que elee seus dependentes não viessem passar necessidade. Quer isso dizer que para o africano, a vida está no centro de tudo; a necessidade de um é a necessidade de todos e o bem da comunidade é umreflexo do bem de cada um. Por isso, toda a actuação humana está virada para a protecção da vida.
O primitivismo frequentemente atribuído às sociedades africanasleva determinados autores a destacarem o nomadismo como uma das bases sobre as quais assenta, em sua opinião,a falta de construção de agrupamentos numerosos e fixos em África, omitindo dessa forma, factos objectivos que contrariam tais afirmações.Na verdade, o que nos parece ser o apanágio do africano é a autenticidade da relação. A cultura africana prima pelo estreitamento dos laços entre as pessoas, em vez da imponência dos bens e das cidades, todavia, como veremos a seguir, isso não impediu os africanos de realizarem obras impressionantes.
Autores como NASCIMENTO(2008) e DIOP (2014) apontam como uma das características distintivas dessas sociedades a sua ligação à terra, o que, aliás, de maneira nenhuma as impediu de construir grandes cidades não só no Norte do continente conhecido hoje como África branca, mas também no Oeste onde se podem destacar as cidades de Tombuctu e de Gao no Mali, de Walata na Mauritânia. Vem à colação o esclarecimento de ILIFFE (2013, p. 119): «Cuandollegaronlosprimeroseuropeosquedaronimpresionados por la riqueza y sofisticación de Benín, elmayor reino de la selva de África occidental». Aqui está mais uma prova evidente do dinamismo africano sem necessidade de uma alavanca europeia.
A ligação à terra e o princípio animista do homem africano fazem de si um ecologista por natureza primando pelo equilíbrio do meio que o envolve, ao contrário do homem ocidental,cuja sede pela acumulação de bens o tem conduzido à devastação da terra, à destruição do ambiente e finalmenteà da própria vida. Como é consabido, para atingir tal fim, o homem ocidental não olha a meios, tendo preparado um aparato com o engajamento de missionários, os quais não se pouparam de cometer barbaridades contra os africanos, muitos dos quais chegaram a perder a própria vida, um verdadeiro contra-senso para quem se assume como defensor deste valor insubstituível.
Às sociedades africanas,pintadas pelo Ocidente como fechadas,DIOP (2014) atribui características como a xenofilia, o cosmopolitismo e o colectivismo social, o que, na visão do autor, confere ao africano um ar sereno ante as dificuldades com que se depare, pois, conta com a solidariedade do próximo.Na verdade, o africano é marcado pela participação na vida do outro, quer na alegria quer na tristeza.Daí, que se nos afigura refutável qualificá-lo de fechado. Aliás enquanto se mantiveram simplesmente as trocas comerciais os africanos mostraram a sua natureza hospitaleira aos europeus.
Devemos, entretanto, questionar-nos sobre a manutenção ou não,nos dias que correm, deste carácter solícito do africano na dinâmica dos embates entre culturas.

Que legado para a África?
Durante séculos de colonização, aconteceu, em África, algo semelhante ao que ocorrera na Europa, nos primórdios da Revolução Industrial.Os africanos, antes ligadosà terra de onde tiravam o seu sustento, viram-se expropriados da mesma não restando,para muitos,outro meio de sobrevivência senão o de trabalhar como diaristas ou assalariados, tornando-se desse modo, dependentes de um patrão.A administração colonial estava apostada em apagar a cultura dos povos encontrados, a começar pela própria língua. França e Portugal adoptaram a política de assimilação como condiçãopara ganhar a cidadania.
A assimilação consistia emsaber ler e escrever correctamente a língua do colonizador; exercer alguma profissão, uma arte ouum ofício ou ainda possuir bens suficientes como meio de sustento; ter bom comportamento avalizado pela autoridade administrativa da área de residência; professar a religião cristã; abandonar os usos e costumes africanos;assumir a monogamia, e cumprir o serviço militar. A política de assimilação representa,assim, mais uma manifestação da arrogância do europeu ante o encontrado.
As famílias africanas detentoras de algum poder financeiro puderam mandaros filhos para as metrópoles a fim de lá estudarem. Estes, em contacto com a realidade que lhes era reservada naquelas capitais, tomaram consciência da desigualdade com que eram tratados em relação aos cidadãos nativos e começaram com as reivindicações de liberdade para os países africanos.A maior parte dos estados africanos obtiveram as suas independências por meio de negociações. Outros como Angola, Moçambique e Argélia só as obtiveram através de uma luta armada.
Alcançadas as independências, os líderes africanos mantiveram as fronteiras herdadas da colonização, que desdenhou completamente a realidade étnico-linguística dos povos, o que pode ter dividido famílias, cujo conceito africanoé muitíssimo diferente do ocidental. Assim, certos membros da mesma família passaram a pertencera países diferentes com fronteiras comuns. Este aspecto representa já uma agressão à consciência de grupo dos diferentes povos que ficam condicionados às imposições de Estados para se movimentarem de um território para o outro dentro do mesmo reino, noçãoque nada tem a ver com país, pois acarreta uma consciência de grupo, o qual se vê agora dividido, por forças estranhas à sua cultura.
Outro problema,o central,surge com o próprio processo de governação das nações ora independentes. As novas lideranças, constituídas, na maior parte dos casos, por jovens formados no Ocidente, assimilaram de tal forma a cultura europeia a ponto de terem importado modelos de governação ocidentais, procurando adaptá-los a um contexto diferente sob todos os pontos de vista. Mostraram-se desprovidas das âncoras culturais locais e foram pródigas em protagonizar atitudes que representavam um reflexo da administração que antes combateram.
Os sobas, autoridades africanas por excelência, e outros mais velhos, verdadeiras bibliotecas e conhecedores das reais necessidades e aspirações do povo, este povo cujos problemas se pretende resolver, não foram tidos nem achados. As elites actuaram e têm actuado como representantes de um povo que infelizmente não auscultaram, ignorando, por isso, as necessidades e as aspirações do mesmo. Em síntese, não conhecem o povo que dizem governar.Já GIDDENS (2008, p. 5) alertava: «[a]s medidas políticas que não se baseiam numa consciência informada dos modos de vida das pessoas que afectam têm poucas hipóteses de sucesso». Com efeito, é este um dos maiores problemas com que se debatem muitos países africanos.
É, pois, impossível resolver-se um problema sem que se deixe participar no processo de resolução aquele que é apoquentado pelo mesmo. De contrário, estar-se-ia a cair no paternalismo que, afinal, não deixa de ser uma manifestação de arrogância. É preciso lembrar que nas aldeias, onde ainda é possível verificar-se a matriz cultural africana, quando se identifica um problema, a procura da solução do mesmo envolve a participação de todos no jango, onde são dirimidos os conflitos, num verdadeiro exemplo de democracia participativa que, paradoxalmente, esperamos ainda que amanhã nos venha do Ocidente. Quantas vezes reproduzimos Berlim?
Reeditamos, infelizmente, o espírito de Berlim, sempre que num determinado espaço implantamos um estabelecimento que venha afectar a vida dos moradores os quais não são contactados antes a fim de se encontrar uma plataforma de entendimento; sempre que, em nome do Estado se desalojam comunidades sem condições prévias de realojá-las; sempre que, ocupando uma posição privilegiada no aparelho do Estado nos apossamos do que é público para benefício próprio, muitas vezes com consequências graves para a sociedade, incluindo perda de vidas humanas.
Actuações de género não podem deixar de ser consideradas como herança pesada do Ocidente, que, tendo repartido na Conferência de Berlim, entre seus membros, um continente habitado por outros povos, ignorou taxativamente as consequências do seu acto para a humanidade em geral e para os africanos em particular, primando pelo lucro e pela ostentação a todo o custo.

Consciência cultural africana
O encontro entre culturas produz sempre os seus efeitos, podendo ser positivos e/ou negativos. A colonização europeia foi violenta para a cultura africana, procurando não só sujeitar esta última à ocidental, mas também e sobretudo anulá-la.Para tal, os europeus montaram todo o arsenal, em que predominou o uso da violência, muitas vezes praticada pelas autoridades eclesiásticas.
Embora tivesse havido resistência organizada por parte dos africanos, houve também manifestações de alguma docilidade às propostas ocidentais, por parte das elites locais, visando tirar partido da situação imposta pela nova ordem. Essa atitude, em si só, não pode ser reputada de má. A perversidade surge com o abandono do substrato cultural, optando pela cultura do colonizador, vista como a melhor.
Esta parece ter sido a armadilha em que caíram as elites africanas, contribuindo, deste modo para a materialização dos intentos do Ocidente em detrimento da própria terra.A propósito do exposto, diz ILIFFE (2013, p. 235) «[d]evidoen parte a labor misionerafuesurgiendoenlascolonias de la costa una elite de africanos educada al modo ocidental». Os missionários tiveram um papel determinante na instalação do regime colonial e no processo da aculturação do africano. Ora, considerando a cultura o fundamento da identidade de um povo e, por isso, um elemento essencial para a coesão, a atitude anteriormente apontada das lideranças africanas parece pôr em causa a sua consciência cultural. Na verdade, seria mais autêntico proceder a um esforço de adaptação dasbases culturais à nova realidade, ao invés de adoptar a cultura do outro.
Infelizmente, muitos anos depois da conquista da independência, a maior parte dos países africanos são governados por meio de modelos ocidentais, sem qualquer tentativa de contextualização, o que, à partida condena as respectivas políticas ao fracasso. Não se dão conta as elites africanas de que, agindo dessa forma, contribuímos nós próprios para a perpetuaçãodos ditames do Ocidente e da nossa desgraça?
Só poderemos engendrar modelos verdadeiramente africanos de governação quando criarmos políticas públicas contextualizadas e o nosso substrato cultural nos servir efectivamente como mola impulsionadora nesta tarefa. A abertura das lideranças à participação do povo em questões de governação bem como o esforço pela materialização de consensos alcançados constituem uma garantia para a sustentabilidade de um estado; promovem a assunção de uma atitude de compromisso e de envolvimento na materialização das políticas públicas traçadas; estimulam a consciência do valor e da cultura de um povo e contribuem para a conquista e para a manutenção de uma atmosfera de confiança e de paz.

Conclusão
A Conferência de Berlim representa um acto de arrogância e paternalismo que ainda encontra eco na actuação de muitos africanos investidos em cargos de liderança, colocandoa riquezaacima da vida, decidindo sem consultar as partes afectadas.
Ao contrário, na cultura africana, os bens estão em função da vida e não se deixa nenhum membro da sociedade sem o mínimo daqueles que lhe garantam a sobrevivência. Daí que, nas comunidades rurais, cada família tem a sua parcela de terra. Quanto às decisões, são tomadas colectivamente intervindo todas as partes interessadas.
O sistema capitalista, cuja oficialização no nosso continente é lançada pelo encontro de Berlim, abalou os valores africanos que as independências políticas, infelizmente, não tiveram a capacidade de resgatar, pois valorizaram mais os métodos ocidentais do que olharam para o positivo das culturas locais.
Se, na verdade,estamos interessados em resolver os problemas que apoquentam o nosso povo, é urgente que voltemos, como já dizia Agostinho Neto, às nossas tradições a fim de resgatar o que de positivo há nelas que pode contribuir para a afirmação de uma matriz africana no concerto das nações. Se queremos imprimir uma marca de autenticidadenos nossos governos, não nos devemos limitar a mimeses, mas temos de criar os nossos paradigmas sobre as bases que já temos e que não devemos nunca descartar.
Aproveitemos os elementos positivosque as outras culturas nos oferecem e não nos viremoscontra as nossas bases africanas que são essencialmente ‘biocêntricas’ e pelo diálogo. Desta forma,estaremos a dar passos na construção de um paradigma africano de governação que proteja realmente os interesses dos nossos povos.


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