De Nkongo a Congo

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Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:

Ambriz, norte do Bengo, a caminho do Zaire, parado num posto de abastecimento de combustíveis, aproveito prosear:
- Mana, boa tarde!
- Boa tarde mano. Quer "arguma" coisa para consumir ou para levar?
- Para consumir. Um café, por favor. Pode ser com açúcar.
Enquanto a jovem ligava a máquina aproveitei provocá-la:
- Mana, como se chama quem nasceu no Zaire?
A senhora faz passear a mente que navega nos conhecimentos e quase naufraga.
- Mano, nasci "mborra" em Luanda. Minha mãe é que é daqui do Ambriz e meu pai de Mbanza (Kongo).
Mariana escapou à resposta que eu esperava, sendo, porém, fornecida por seu colega que me a transmitiria em voz meio muda:
- A resposta é "zairiense", kota. E justificou-se: zairense é do Congo Democrático. Nós aqui "samo" mesmo de Ambriz, ambrizetano (do Nzeto) ou mbanza-konguense que também se chama "zairiense".
João Nevumba, como se apresentaria já na despedida, não se ficaria por aí na sua explicação e acrescentaria:
- Estou a ver que o mano está perguntar porque gosta mesmo de saber e parece está mesmo a ir "na" capital. Mano, as pessoas de Mbanza não gostam muito "lhes" chamar "zairiense". Quando o mano chegar, se precisar referir, fala só mukongo que abrange todos do norte.
Acatei o conselho, joguei o café, meio frio, garganta abaixo. Engatei a mudança automática de progressão e rumei à cidade cujo símbolo apresenta cinco espadas que simbolizam igualmente número de topónimos por que já foi designada: Mpemba, Nkumba Ungudi, Kongo dya Ngunga, S. Salvador do Congo (depois do baptismo do Rei, tornando-se cristão) e Mbanza a Kongo.
Nkongo, contam os guias do museu, é caçador na língua local. Terão os enviados de Diogo Cão, aportado em Matadi, perguntado como se chamavam aquelas terras, ao que os nativos vindos da caça entenderam que se lhes tivesse sido questionado "o que eram", tendo respondido nkongo (caçadores). O reino que possuía seis províncias geridas por "Manis" (titulo de governadores) tomou a designação de Congo, sendo Mbanza a Congo (capital), na pronúncia e escrita dos comerciantes de bugingangas e anunciantes de Cristo, o centro político para aonde os "manis" levavam os impostos recolhidos para custear a máquina administrativa. O detentor do poder supremo é Ntotila, em cujo Palácio repousa(va) uma frondosa árvore de três grandes ramos (são dois na actualidade) e uma fronde de folhas permanentes, sob cuja sombra eram efectuadas as audiências e os julgamentos. Perdeu-se na memória o nome da árvore. Porém, o facto de ter acolhido vários Kuhu (boas vindas ou conversas introdutórias que para os ambundu equivale a mahezu) ela ganhou o registo de Yala Kuhu.
O residência real possuía ainda um espaço muito restrito para a lavagem e tratamento do cadáver do rei finado (sungilu) para que fosse possível conservá-lo intacto até ao acto fúnebre que era procrastinado até à chegada do Mani que vivesse mais distante, chamados todos pelo som do tantã.
A casa mortuária real (mpindi a tadi) ficava a umas centenas de metros do Palácio, distância aproximada a que nos leva ao campo santo real, colado aonkulu mbimbi (igreja antiga, a Sé com mais tempo a sul do Sahara).
Mas sobre Mbanza Kongo não é tudo.
Sobre o desrespeito à mítica yala kuhu, contam-se estórias associadas à queda, nos anos 90 do sec. XX , de um helicóptero que, entre outros, vitimou o bispo da diocese local e também o despiste de um avião da companhia de bandeira, já no início do séc. XXI, que levou à morte o administrador municipal, para além do "sangue que a árvore jorrou, estendendo-se do espaço em que está o pavilhão desportivo até ao cemitério real, quando os brancos construíram a estrada, cortando o terceiro galho".
Mas o guia do museu, formado no Benin, em preservação de espaços históricos, a luz da candidatura da cidade de Mbanza Kongo a património da humanidade, não se fica por aqui e vai mais adiante nos detalhes da sua apresentação. Fala também do "Mbanda Mbanda, do clã Nenzako, de Maquela", uma espécie de Presidente do Tribunal Constitucional, a quem cabia entronizar o rei, e informa que "Mbanda Mbanda e o rei no trono nunca se podiam reencontrar. Se o rei fosse à terra dele, ele se ausentava. Se Mbanda Mbanda viesse à capital, também o rei se ausentava. Ele só se via com o ntotila uma vez para o entronizar".
Entre História confrontável nos livros já abundantes e estórias de ouvir contar e entreter o visitante/turista, muito há ainda por ouvir e desvendar. O melhor mesmo é percorrer os cerca de 400km que separam Luanda de Mbanza a Kongo para ver ouvir e reter. E quiçá recontar também?!

"CONTRATOS RENDEIROS" NA VOZ DE KILOMBU KITINU

A abolição internacional da escravatura aconteceu no sec. XIX (1883) mas a sua materialização efectiva levou décadas, para não dizer século. Porém, os detentores de escravos e aqueles que faziam da captura/compra, utilização doméstica e venda de "peças humanas" o seu negócio procuraram diversas artimanhas para fazer dos homens nessa condição meros objectos.
Ou se mudavam as totas do Atlântico para o Indico ou se praticava a escravatura (depois com outras faces) no território nativo.
Kilombo Kitinu, filha de regedor e neta de ex-proprietários de "mabika" (escravos) conta, aos setenta anos, que "meus bisavós Mungongo e Kaphote Kasenda, todos da região de Kindongo/Kisama, eram detentores de mabika que depois de alforriados, 'quando chegou a ordem', tornaram-se parentes".
Quando comecei a trabalhar na "renda" ainda adolescente, às vezes não percebia o tratamento que me era dado, explica. Recebiam-me como rainha (embora o fosse) e estendiam panos onde me sentava. Só mais tarde me fui apercebendo que era a forma grata como os ex-mabika tratavam os antigos proprietários ou seus descendentes conhecidos que os haviam tratado com dignidade.
Mas de descendente de "esclavagistas", Kilombo Kitinu também experimentaria o fel da escravidão camuflada em pseudo contratos rendeiros, onde crianças e adolescentes não eram poupadas na abertura de vias rodoviárias, apanha de café, processamento de tabaco, limpeza de capoeiras, entre outros trabalhos.
Como a máquina funcionava?
Os colonos recém-chegados, fossem portugueses ou alemães, iam ao posto administrativo requisitar "pretos para trabalhar", não se seleccionando a idade. O posto administrativo obrigava o soba a mandar ao "contrato" os seus aldeões e, nessa difícil tarefa, não podia excluir seus filhos e sobrinhos. Foi assim que ela, filha de regedor de Kuteka, também frequentou as fazendas do Prata, Kabumbulu, Ngana Mbundu, Senhora Kasenda, Conde, entre outras como "trabalhadora rendeira".
Terminado o período de um ou mais meses, outros eram "recrutados" para render os outros. Por isso, a oralidade conserva o termo "renda" para designar esse tipo de trabalho semi-escravo que se desenvolveu até à segunda metade do Sec. XX, antes da independência em Angola.
Kilombo Kitinu recua no tempo e estabelece um marco:
- Quando se abriu manualmente a picada de Kawayawasa, para o alemão Ngana Mbundu (Walter Kruk), foi quando nascemos. Aí chegou a ordem para o fim da escravatura. As pessoas que trabalhavam na abertura manual da picada  tinham as mãos rebentadas (calejadas e feridas). Entrou depois a renda. As nossas chinelas eram de pele de cabra. A todas as pessoas, os brancos chamavam apenas por ó preto! E os negros respondiam patrão! Nesses trabalhos, as meninas ficavam, às vezes, duas semanas que eram remuneradas com pouco dinheiro. Só chegava para comprar um par de brincos ou missangas para mãe, pano e sabão para a trabalhadora.
Narrou ainda que entre os seus parentes directos, duas pessoas se destacaram na fazenda da alemã conhecida por Senhora Kasenda (os nativos atribuíam outros nomes mais familiares aos europeus). Eram o mano Doce (cozinheiro) e o papá Kabota (capataz). Esses viviam lá no acampamento com suas famílias e só iam à aldeia de Mbangu-Kuteka visitar os parentes. Falavam a língua dos alemães e as suas mulheres e filhos vestiam-se bem.
Do outro lado do rio Longa, território de Dala Kaxibo, também havia alemães. Kilombo Kitinu citou Kabumbulu e Kilenge (nomes atribuídos pelos nativos).
De recordação em recordação, "viajou" por Kixinje, território da Kisama, onde, ainda garota, trabalhou na abertura da picada que termina em Kandanji (margem do rio Kwanza, junto ao Dondo).
- As mulheres também abriam picadas com enxadas...

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