Dipanda a Tchiweka

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Um papo pós-cinema

Dipanda a Tchiweka
Crueldade Fotografia: Arquivo

Casa cheia, sábado 7/11/2015 no Cine Atlântico. Mais ou menos um milhar de convidados à pré-projecção do documentário ‘INDEPENDÊNCIA’ responderam. Uma plateia a quase 100%, estimou a gerência, que cedera o espaço a título da sua contribuição. Público selecto, sociologicamente falando: uma mescla da elite dos primeiros anos do país soberano e mais novos, o conjunto habitando o inovado asfalto de Luanda.
A obra leva as assinaturas da Associação Tchiweka de Documentação (ATD) e da produtora cinematográfica ‘Geração 80’. Tchiweka é a alcunha de Lúcio Lara, carismático companheiro-mor de Agostinho Neto, o líder, também carismático, da luta anticolonial. O lançamento do filme acenou o 40º aniversário da descolonização de Angola, privilegiando a épica gestação até ao parto tumultuoso.

Enredo
Como? Dando voz aos protagonistas, entre sobreviventes e passados que os arquivos perenizaram. Seus depoimentos configuram o enredo, desdobrado em episódios tais como:
- O movimento cultural na elite periurbana, pressagiando nova consciência.
- A prisão dos pioneiros nacionalistas em Luanda na década de 50 do século passado.
- O febril movimento estudantil na metrópole dos autóctones idos das colónias.
- O manifesto de 1956, miticamente adoptado como fundador do MPLA.
- A agitação similar na imensa diáspora Congo-Angolana no vizinho Congo Belga.
- A onda das independências em África1960.
- O impacto por cá e, em 1961, a cadeia das revoltas de Cassange (4/1), o 4 de Fevereiro em Luanda e o braseiro de 15 de Março.
- A guerra declarada por Salazar para manter o sistema odiado pelos indígenas.
- As palpitantes peripécias seguintes do confronto, foco da luta de libertação.
- As repercussões internacionais.
- O desgaste da tropa colonial entre golpes de guerrilheiros (mesmo enfraquecidos por falanges divididas) e o crescente isolamento mundial.
- A queda estrondosa do regime fascista em Portugal com o golpe de Estado de 25/4/1974.
- Episódios do período intermédio antes do repto final e as alianças externas ditadas pela guerra fria, que elege Angola como campo de predileção.
- A apoteose de 11/11/1974, assinalada pelos independentistas na sua separação (por não variar) em Luanda, Huambo e Uige.

Abertura
Luanda está obviamente privilegiada, no filme. A sensibilidade ortodoxa pró-MPLA predomina, ensaiando abertura sensível aos concorrentes da UPA/FNLA e UNITA.
Mesmo os distintos militantes do MPLA mostrados se despiram da tradicional ‘langue de bois’. O general Ciel da Conceição ‘Gato’, por exemplo, não se importou em evocar o trânsito pela rival UPA, ido dos maquis dos Dembos para Kinshasa. Outro guerrilheiro e ministro da saúde da pós-independência, o médico Kassessa, confirmou, a concluir suas declarações, a rutura com a cartilha de autocensura. Após regozijar-se do envolvimento na saga, rematou com este picante matreiro: "A independência que nós temos é outra história”.
Noé Saúde e Augusto Loth, veteranos presos políticos, testemunham com sobriedade. O mesmo, ressenti nas intervenções austeras dos antigos combatentes Francisco Tuta “Ouro de Angola” e José C. Augusto “Kiluanji”. O primeiro é deputado, hoje em dia, e o segundo embaixador, mercê de um mando preclaro na primeira região dos maquis do MPLA. A autoridade intelectual ressoa na boca do médico João Viera Lopes, peregrino dos solavancos da resistência em toda meada. Encanto de verdade somente, captei dos subsídios das duas sobreviventes figuras femininas, Rodeth Gil “Njinga Mbandi” e Ruth Mendes. A sua organização, a OMA, tem a honra de uma longa evocação da heroína Deolinda, vítima da FNLA.
Os quatro mais velhos representantes deste movimento rival (Emmanuel Kunzika, Faustino, Adolfo Francisco, Pedro Moyo) olharam para outras facetas. Sem originalidade marcante. Vestidos a rigor hodierno, ficaram longe da fibra dos lendários irmãos cambutas da sobranceria de Holden antes da derrota sofrida no Kifangondo, em 1975! Contudo, o espaço dado às explicações do combatente Moyo minimiza o desequilíbrio.
Os históricos da UNITA (general Chiwale, senhor João Viemba e a senhora Salomé Chinhama), desvendaram a resistência levada a cabo do seu lado. De elegante porte, narraram a sua epopeia, até aqui mal publicitada ao tudo nacional. Revelação sensacional, de mesma ordem: Loth Sachikwenda, antigo preso político de Tarrafal, nascido no Bié em 1940. Dera entrada naquelas masmorras, após descoberta da sua clandestinidade em prol da UNITA em Benguela, em 1969.

Arte
Tecnicamente, a pelicula soma 110 minutos de projeção, as imagens fluindo a preto e branco ou coloridos, sob uma narração impecável.
A sensação de autenticidade, que acarreta sempre o preto e branco, prevaleceu no arquivo das distantes cenas do princípio de ´60. Com o famoso discurso de Salazar contra o 15 de Março, anunciando «todos em força para Angola», a destacar-se.
A irónica inversão da sorte acontece a zero horas de 11/11/1975.
O observador visiona então o içar da bandeira rubra-preta, barrada de roda dentada de Angola independente. E Neto, acto contínuo, a proclamar o advento do novo Estado perante um público estupefacto e efusivo. A foto do instante superou aquela de Salazar em nitidez e chama, não sei se por engenharia onírica ou subjectiva impressão minha.
No conjunto do filme, o curso, encadeado numa incontestável arte de realização, prendeu a respiração dos espectadores do princípio ao fim.
As condições acústicas do próprio local ajudaram neste efeito. Jogo de luzes e planos esplêndido, na vitalidade e mobilidade das ocorrências, completa o deslumbramento.
A música, as danças, a paisagem dos locais, a gente na vasta gama dos papéis sincronizam no ritmo endiabrado da época relatada. Os ouvidos deleitam-se com melodias de um rico mosaico ambiental: clássico, tradicional, intervenção política, semba…). Idem, na vista, do bailado, a dança kazukuta dos míudos do Eme tendo espalhado o encanto nos quatro cantos e recantos do recinto.
O documentário rememora sítios do Gana e Cuba onde a solidariedade internacional levou quadros da resistência em formação.
Explorou entrevistas de 600 depoentes, abordados entre 2010 e 2015, conta um folhetim distribuído na ocasião. Retomou somente os achados paradigmáticos.
O papel do combatente José Eduardo Dos Santos foi mencionado. Discretamente, em harmonia com a simplicidade e humildade do personagem na altura. Andava já de sensível influência na 2ª região político-militar, a mais incólume até aos 25/4/1974. Virtude adicional da fita, acho, é não ter cedido ao baroco culto de seja quem for. Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi ocupam a ribalta em horas e circunstâncias certas.

Resmungos
Aplausos espontâneos retiniram na imensa sala oblíqua, em suspiro de desenlace. À revelia dos resmungos (idos até da capela privilegiada) desgostados desta ou daquela falha.
Comentários registados nesta tecla, no fim: Como se ignorou o desvio do avião tuga por três bravos jovens, que tanto revigorou o nacionalismo nesta camada na capital aterrorizada? E o acordo de unidade assinada entre Holden e Neto a 13/12/1972, que tanto embrulhou os jovens oficiais do exército colonial a termo? E a diligência de Jonas Savimbi junto dos dois líderes, em desesperado esforço para evitar a guerra civil? E a audiência conseguida junto do Papa Paulo VI em 1970, que acelerou a derrocada diplomática da falsidade colonial?
Como que a conjurar estas reações e outras, os produtores avisaram: «A memória de uma nação faz-se de muitas memórias, que é urgente recolher e guardar. Usando a linguagem do cinema para articular memórias pessoais e arquivos, INDEPENDÊNCIA coloca-se na linha da frente contra o processo de esquecimento da história».

Contas
Financeiramente, os gastos contabilizados ultrapassavam já os 500 mil dólares. Supervisor da produção, Paulo Lara, general e primogénito herdeiro biológico do patrono, antevê um pulo. «A contar com todos os equipamentos, tecnologias e peritos envolvidos», disse ao autor. Por enquanto, completou, a plenitude das despesas está a ser apurada e o balanço será publicado, incluindo a auditoria por uma entidade idônea. Paulo enalteceu os apoios recebidos. Vieram de individualidades, instituições públicas e privadas, numa generosidade à medida da notoriedade do patrono da ATD, diga-se de justeza. Ele (o patrono) cujo fascínio político advém em larga parte da fama de austeridade perfilada até no físico.

Opinião
Finalizando com opinião taxativamente solicitada pelos produtores, subscrevo:
1. Ter gostado do refresco da memória. Boa retrospectiva regenera sempre energias prospectivas, ao modo de um retiro de fé fecundo.
2. Não gostei dos limites da ortodoxia de uma conflitualidade ideológica de outrora. O defeito legitima a troça de uma «história dos vencedores».
3. Não reparei em imprecisão histórica, senão um inquinado como o relevo unilateral do hediondo assassinato da Deolinda. A explicação da FNLA abonaria mais a objectividade histórica, longe de justificar ou amenizar aquela ignomínia. A versão plural irradiaria mais vigor pedagógico contra o fratricídio.
4. Que a associação elucide o cognome autóctone de Tchiweka, chegando à motivação que levou o mestiço Lúcio Lara à opção. E, porquê não um colóquio sobre o seu legado de nacionalista singular e propenso a faustoso endeusamento e rancores? A sã ereção da Nação (almejada de paz) advoga exercícios deste quilate. Em catarse, até, dos ascos gerados pela posterior terramoto de 27/5/1977 no círculo social, que se aglutinou no Cine Atlântico, e não só!
Críticas de lado, vale, deveras, o filme, e faço votos, junto da juventude montante, para observá-lo. Amadurece quem o matute.

Siona Casimiro

Luanda, 08.11.2015

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