Dos primórdios da historiografia à nova história

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Neste texto o interesse é descrever o valor da nova história como um segmento da historiografia e campo bastante valorizado na actualidade.

Dos primórdios da historiografia à nova história
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 A nova história tem vindo fazer o seu percurso, mas fica difícil tecer considerações à sua volta sem que se perceba os primórdios da historiografia. Por isso, vamos expor em primeiro lugar a trajectória da historiografia e, em segundo lugar, explanar o processo que proporcionou a emergência da nova história, bem como descrever o seu lugar na História.

O PERCURSO
DA HISTORIOGRAFIA
É muito comum, no contexto dos historiadores, falar-se sobre a história da história. Com isto, pretende-se tão-somente reconhecer que o conhecimento histórico é algo que se fez de maneira progressiva desde o passado ao presente. Em simultâneo, é preciso considerar que o percurso do passado foi narrado de várias maneiras e em vários tempos e espaços. Nesta base a historiografia está associada ao discurso escrito sobre o passado humano e ela tem a ver também com o próprio passado da disciplina histórica. Logo, estamos diante de uma abordagem a dois tempos. É importante referir que este estádio de desenvolvimento só se alcançou depois de uma longa caminhada, que implicou passar de um estado de memória simples para a memória política como resultado da complexificação dos processos sociais. Mas mesmo assim foi essencial passar para o estado da escrita a fim de se perpetuar o registo dos acontecimentos.
Indo ao encalço da história da historiografia, é preciso relembrar que nas sociedades Pré-Clássicas, com destaque para a Suméria, foi onde surgiram as primeiras marcas da escrita. Mas foi no mundo Egeu onde a arte atingiu um certo grau de perfeição e onde os filosóficos começaram os processos de especulação, e com isto nasceu a história. Foi nesse ambiente de especulação filosófica e de indagação permanente que emergiu Heródoto (485-425 a.C.), que é considerado como o pai da História.
Na Antiguidade Clássica, mais concretamente na Grécia, teve lugar a Guerra do Peloponeso (431-404 a.C.). Esta guerra foi narrada por Tucídes (460-395 a.C.) A sua acção é interpretada como a base que proporciou o nascimento do “método e a inteligência do historiador”, bem como criou condições para a “crítica de fontes” e para a investigação de maneira racional.
Nesta ordem de ideias, Tucídes fez recurso a várias técnicas que permitiram narrar de modo eloquente e com analogia. Além disso, ele descreveu tudo o que viu a partir dos vários ângulos da vida societária. Daqui foi possível produzir outras considerações do ponto de vista da historiografia. Assim as formas de trabalho de Herótodo e de Tucídes tornaram-se credíveis. Nesta base a história emergiu e deu-se um passo significativo do ponto de vista da compreensão das realidades humanas.
A história prossegiu, entretanto, o seu percurso na Época Clássica com o Império Romano. Para entendermos o que se passou é fundamental incorporar nesta análise o facto de que a Grécia, como a primeira sociedade Clássica, colapsou com o tempo por razões de vária ordem. Fruto desse colapso, o Império Romano passou a controlar o território grego como uma parte do seu domínio Oriental. Nestas condições, Políbio (200-118 a.C.) apareceu como historiador.
A obra histórica de Políbio situa-se entre as histórias grega e romana. Por força dos condicionalismos históricos, a sua obra converteu-se de maneira automática na primeira referência da historiografia romana porque ela tratou de enaltecer os feitos, as virtudes e as conquistas de Roma. Outros historiadores romanos deram destaque as Guerras Púnicas, bem como descreveram aspectos relativos à vida de Roma. Entre esses historiadores consta Fábio Pictor (254-201 a.C.) e outros. No apogeu do Império Romano os escritores romanos – Salustio (86-34 a.C.), César (100-44 a.C.), Tito Livio (59-17 a.C.), Tácito Suetonio (75-160 d.C.) e outros – valorizaram em grande medida os aspectos históricos. Assim, os anais registaram que Roma fez história e ao mesmo tempo nela se escreveu história. Aliás, Tito Livio (59-17d.C.) e Tácito (54-117d.C.) escreveram narrativas históricas que abarcaram a maior parte da história de Roma.
No período Clássico também despontou a percepção histórica na China. A produção histórica foi profusa, diversificada e com muitos títulos. As lendas e as crónicas ocuparam um lugar de destaque, mas também houve alguma imprecisão histórica. Foi necessário esperar muito tempo, particularmente pelo processo que conduziu a unificação da China, para a valorização e conceituação da história. Por força disto, a historiografia conquistou espaço. Entretanto, a tradição chinesa fez de Confúcio (551-479 a.C.) o pai da história da China.
Quando se chegou ao período medieval, a história entrou para este período de um modo que parecia periclitante na medida em que o que se produzia, do ponto de vista das crónicas, tinha muito pouca elevação. Apesar disso, a história continuou e ela encontrou alguns cultores até ao século XI. Entre esses cultores despontam os nomes de Eginardo, Ermoldo o Negro, Luís o Piedoso, Nithard e Alfredo o Grande, que escreveu a História do Mundo de Osório. Esses foram as personalidades que impulsionaram a história na alta Idade Média. Já na média Idade Média, a cristandade Ocidental através da Igreja assumiu o monópolio da historiografia. Mas a historiografia do clero esteve voltada para a descrição da vida interna, destacando a vida episcopal, dos mosteiros e das diferentes congregações religiosas e suas comunidades. Nestas circunstâncias apareceram os anais históricos.
Por força dos anais e da motivação histórica, no século XI, surgiram trabalhos históricos muito mais bem documentados. Outro género que também foi muito valorizado tem a ver com as cronografias de carácter universal, que eram muito apreciadas. Só que esse género, com o tempo, perdeu algum espaço e assim os temas relativos às vidas dos santos e aos milagres (Hagiografia) passaram a ser mais valorizados. Por um conjunto de causas, entretanto, a historiografia clerical perdeu terreno.
Assim, no século XII, a historiografia Ocidental assumiu outra feição e tornou-se secular. Tanto mais que as coisas tomaram outro rumo com as Cruzadas, que eram expedições militares. Os guerreiros cruzados tornaram-se preponderantes e começaram a ser objecto de destaque. Neste contexto determinadas coisas tiveram lugar. Por exemplo, os Estados fortes conquistaram espaço e os registos históricos passaram a ficar a cargo de arquivistas e historiadores dos princípes. Assim a história foi integrada na literatura.
Nestas circunstâncias criaram-se as condições que propiciaram o surgimento de uma nova história e de novos historiadores. Outro facto é que a crónica ganhou maior importância e surgiram outros tipos de crónicas. Nesta base a temática militar foi objecto de destaque e nasceu assim a crónica da guerra santa. Por isto, todas a cruzadas foram descritas e foi feita uma narração detalhada sobre a Guerra dos Cem Anos. Aliás, esta guerra foi retratada pelos cleros com o objectivo de registar as guerras no quotidiano.
Como consequência da valorização da crónica, a história assumiu conotação política. Entretanto, o que se passou com a historiografia clerical o mesmo sucedeu com a historiografia arábe. Aliás, esta historiografia, a exemplo da anterior, centrou o seu enfoque sobre a fé e religiosidade. Este facto deveu-se em muito as suas origens. Tanto mais que após a morte do Profeta Maomé, os seus seguidores, durante mais de dois séculos, procuraram conservar todo seu legado através da canonização. Neste sentido, Bukari (810-870) canonizou o Sahib – o Autêntico. Depois a historiografia arábe viu-se enrequecida pois apareceram várias obras biográficas sobre o Profeta. Segundo os registos históricos, a obra biográfica mais antiga é a Vida de Mahoma e ela foi produzida por Ibn Isham (809-873). Neste aspecto a historiografia arábe era homóloga das obras hagiográficas cristãs. Além do mais, ela não se distanciou das tradições proféticas muçulmanas no século X, como atestam as histórias escritas por Dinawari (828-896). Por outro lado, entre os séculos X e XIII, a historiografia arábe não perdeu a sua originalidade e assim ela continuou, e não faltaram as inflexões próprias dos tempos modernos tal como sucedeu com o cristianismo.
Na modernidade, vários aspectos marcaram, entretanto, o ponto de virada da historiografia. Isto sucedeu entre os séculos XV e XVI. Assim uma nova historiografia emergiu devido à imprensa escrita (1440), à falsidade da acta de Doação de Constantino e aos ataques dos Otomanos. Por isso surgiram, para bem dizer, “novas técnicas de difusão, novos métodos de análise e novas fontes”. Apesar dos avanços registados, a verdade é que o predomínio pertencia ao mundo cristão e a sua influência era sentida em todas as direcções. Foi necessário esperar por um conjunto de reformas por que passou a igreja católica e pela aparição de outra forma de olhar a vida. Foi preciso esperar pelos séculos das Luzes.
Nos séculos XVII e XVIII surgiu a história dos eruditos, filósofos e letrados. Apesar disso subsistiram várias formas de pensar e interpretar o meio circundante quer a partir da perspectiva humanista, quer filosófica, quer até pela erudição histórica e pelos seus métodos de trabalho. No século XIX, o panorama transfigurou-se por completo e assim surgiram novas perspectivas e teorias da história.

O APARECIMENTO
DA NOVA HISTÓRIA
De antemão se coloca uma pergunta? Qual é o entendimento relativo à nova história? É preciso relembrar, desde já, que a noção de nova história tem a sua origem em França (ÉcolledesAnnales). A nova história é a “história escrita como uma reacção deliberada contra o “paradigma tradicional”. Já que este paradigma representa uma maneira específica de fazer história e que deseja ser única. Além do mais, a visão do “paradigma tradicional” assenta sobre a história política. História política vinculada ao Estado no seu carácter tradicional, nacional e internacional.
Na esteira do expresso, o aspecto que estabeleceu a diferença entre história tradicional e nova história foi a posição adoptada pelos historiadores. Assim, os historiadores tradicionais previligiavam a narrativa dos acontecimentos e já os historiadores da nova história interessavam-se mais pela “análise das estruturas”. Outro aspecto é que a perspectiva da historica tradicional estabelece a sua análise a partir da “visão de cima”, destacando chefes e líderes políticos e militares. Já a perspectiva da nova história estrutura o seu dicurso partindo da ideia da “história vista de baixo”, o que implica incorporar outras opiniões para explicar as mudanças sociais. A valorização da perspectiva da história “vinda de baixo” tem permitido abarcar muitos elementos da vida societária.
Quando se coloca a preocupação de situar a nova história no seu tempo é essencial destacar as iniciativas da Escola dos Annales cujos pais fundadores foram Lucien Febvre e Marc Bloch (1929). Esse movimento deu os primeiros passos no sentido da mudança, o que prosseguiu o seu curso natural com as contribuições de Fernand Braudel (1902-1985). Apesar dos aportes oriundos de França, há registo de contribuições provenientes da Alemanha (1900) e Grã-Bretanha (1930). Entretanto, os mentores do movimento de renovação foram beber nas ideias do sociológo Émile Durkneim (1858-1917) e da sua revista Année Sociologique. Ainda assim, a expressão nova história foi empreque pela primeira vez quando James Harvey Robinson (1863-1936) publicou um livro com esse título em 1912.
O interesse vem desde há bastante e nisso estão inclusos nomes como: Auguste Comte (1798-1857) e Herbert Spencer(1820-1903), já que eles se interessaram mais pelas estruturas do que pelos acontecimentos. De resto, Peter Burke sublinha que a nova história - “história alternativa” - tem uma ancestralidade longa.
Com a nova história surgiram outras tendências do ponto de vista da metodologia e da prática historiograficas. Além do mais, novas áreas interdisciplinares emergiram do ponto de vista da investigação histórica. As novas áreas de trabalho são, nomeadamente: antropologia histórica; história da mulher; história do corpo; história da imagem; história oral; história da escrita; história da cultura material; microhistória; história política “vista de baixo”. Além do expresso, também temos diante de nós novos campos de estudo e trabalho, a saber: história social; demografia histórica; história do trabalho; história urbana; história rural.
Não basta porém falar sobre o valor da nova história. Também é importante recordar que ela se deparou com algumas dificuldades. Estas dificuldades tinham a ver com as fontes e os métodos. Mas essas dificuldades foram supridas com a valorização da história oral, bem como o uso de imagens e estatísticas de registos judiciais.

CONCLUSÕES
À guisa de conclusão, é legítimo sublinhar que a história tradicional tem um longo percurso. Ainda assim, as referências fundamentais sobre a arte de historiar são uma consequência directa da história tradicional. Nesta esteira as linhas de força que configuram as mais diversas teorias da história estão associadas à história tradicional. Porém, a nova história há muito que vem fazendo o seu caminho. Ela já desbravou imenso e continua a sua marcha. Ela é, hoje, uma realidade com contribuições que enriquecem a história como um todo.

Miguel Júnior

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