Elikia Mbokolo dívida da história

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Uma dívida da história moderna o coeficiente do número de africanos deportados no processo esclavagista.

Elikia Mbokolo dívida da história
Elikia Mbokolo

Alusiva a celebração do 25 de Maio (Dia de África), a palestra "Um passado que não passou" juntou na Mediateca de Luanda diferentes individualidades políticas, académicas e estudantis na tarde do dia 27 do mês em causa. Proferida pelo renomado historiador africano nascido no Congo Democrático, *Elikia M’Bokolo, a quantia exacta do número de escravos que foram para a Europa e América e como estes dois continentes podem indemnizar o continente lesado foi dos maiores desafios deste debate que fugiu da simples narração histórica e procurou fazer da ciência uma balança justa e incolor para alguns temas que ainda se apresentam desconfortantes em alguns fóruns.

Este douto em História começou com um exemplar episódio sobre um negro que deixou espantada a corte de um país da Europa. Conta ele que no início do século XIX Alexandre Pushkin publicou o livro “O Negro de Pedro, o Grande”, dizendo que no século anterior (XVIII) o imperador Pedro tinha um escravo negro proveniente da Etiópia. Toda a gente dizia algo sobre este escravo. Como é que um cidadão da Etiópia, à época um Estado muito forte, conseguiu chegar à Rússia? Os caminhos de transferência de escravos do continente africano apontam para o Egipto, Líbia, Tunísia ou Argélia. As suposições da presença deste jovem ter chegado à Rússia apontam para o comércio Turco, porque eram estes que dominavam esta parte da África, supondo que foi levado e vendido na Europa. Das fontes consultadas, a narração indica que este jovem negro contava que era proveniente de um país onde havia um lago muito grande e que levou muito tempo para chegar até à costa, onde possivelmente foi vendido a um comerciante turco e este ao Russo, que o oferta ao imperador Alexandre I. Devido as suas habilidades e educação reservada à gente da nobreza, dominando o latim, grego, matemática e física, ganhou a atenção do imperador a ponto de manda-lo a França para estudar a arte das armas.
Elikia, numa eminente actualização deste facto, frisa ser uma das narrativas que podem ser interpretadas hoje como meio de classificação do índice de racismo na Europa, sinal de que na Rússia não tinha a mesma participação no tráfico negreiro como França, Inglaterra ou Portugal. Imperava de facto uma “ausência do racismo anti-negro”, que permite também avaliar as consequências desta atitude, um tanto diferente de quase toda a Europa ocidental, que participava activamente no tráfico negreiro, muitas vezes em conluio com entidades reais africanas, desenraizando das suas terras um grosso número que continua até hoje incerto.

Procurar o coeficiente
“Ninguém chega a ser escravo por sua própria vontade. Ou é uma pessoa vendida ou um refém de guerra. O sistema de venda de pessoas não era muito praticado em África. A transformação de uma pessoa para um escravo era uma consequência de guerra. Então, qual é o coeficiente de quantas pessoas mortas para a obtenção de escravos? E do lugar em que é preso até à costa, quantas chegam e quantas morrem no caminho? E saber os outros que morriam no barracão, ou quando acontecia insurreições e pilhagens feitas pela gente da costa que não queria ver os seus partir para uma terra desconhecida?”. Elikia assegura que é exactamente este exercício que falta para encontrar um número aproximado de quantas pessoas foram mortas para se puder ter o número de escravos que chegaram à Europa e América. Infelizmente, foi com alguma insatisfação notória que fez saber que até agora ainda não há uma fonte credível nesta questão, embora haja historiadores que avançam que por um escravo é preciso contar dois negros mortos, mas talvez possam ser 3, 4 ou 5, é apenas uma probabilidade. Agora, das pessoas chegaram aos seus destinos, diz o historiador que as fontes são parciais. Esclarece que o primeiro que pensou nisso foi um padre da igreja católica que trabalhou no Congo Belga, que escreveu em 1929 cujo título era o “O Tráfico e a Escravatura dos Congoleses Pelos Europeus – Uma História da Deportação de 13 milhões de negros para as Américas” (o termo Congo inclui os dois Congos e Angola), um incomparável registo. Os historiadores desta altura consideravam que este livro era uma primeira pesquisa científica que seria credível. Mas ninguém mais falou mais do que isso.
Sobre os números vaticinados na altura das independências africanas, o palestrante então presidente do Senegal, Léopold Sédar Senghor, uma pessoa que não foi apenas capaz de escrever poesia, mas que falou sem referência nenhuma a uma fonte ao quantificar que foram cem milhões de negros que o continente africano perdeu no processo da escravatura.
Já na América, o académico contextualizou que os estudos já tinham inaugurado a História Quantitativa e que os historiadores americanos, lá na década 50 e 60 - quando na América o debate sobre os valores dos negros tinha atingido momentos de avançada lucidez quanto aos seus direitos sociais - avançam o mesmo número do padre francês: treze milhões.
Mas, no estranho e distorcido debate de alguns historiadores americanos do referido período, África perdeu homens mas ganhou com a entrada de plantas e iguarias que contribuíram para melhorar a dieta alimentar dos africanos, assim havendo uma sorte de equilíbrio sobre o que perdeu e o que ganhou.
“Mas o tráfico não foi só transatlântico? Quantos escravos saíram para África por via do deserto do Sara?”, o historiador volta levantar mais questões. E conta que ter sido problema para a história e interpretação das consequências do tráfico o facto de a comparação ser feita muito tardiamente.
Destaca que uma das primeiras tentativas de contagem foi protagonizada por um médico francês publicada em 1802. Este médico viveu no Egipto e publicou este livro para dizer que o tráfico de escravos africanos pelos muçulmanos começou mais cedo do que o tráfico transatlântico, e talvez muito mais importante.
Mas, explica o historiador, houve um debate muito importante para responder a questão sobre a legitimidade dos muçulmanos na captura dos africanos negros, e já aconteceu no início do século XVI quando os comerciantes do Oásis do Sara procuraram um cientista negro africano (Ahmed Baba, de Tombuctu), um muçulmano que era professor de Direito, História e Filosofia, e que foi feito preso em 1591 quando o exército de Marrocos chegou na África Subsariana. Foi ele que fez uma das primeiras apologias dos escravos negros, defendo que não havia uma justificação religiosa, económica ou filosófica que levava os negros a serem escravos dos muçulmanos brancos.

Regiões
Quanto às regiões, o palestrante muito sucintamente adiantou serem muitas as vezes que apontamos a costa como a região de grande impacto, quando havia três redes esclavagistas: a do Atlântico, do Indico e da passagem pelo Sara. Explica que alguns africanos inconformados responderam com pilhagens para recuperar os seus às tentativas de busca de negros pelos brancos, e que isso explica a criação dos fortes militares para manter escravos.
Desde o século XVI até ao fim do XIX os Bassolongos eram conhecidos como um povo que praticava pilhagem contra os navios esclavagistas. Diz o palestrante que outras fontes acrescentam que no início do século XVI, período em que o tráfico negreiro começa a tomar contornos irreversíveis, os holandeses bombardearam muitas aldeias africanas na costa para eliminar as pilhagens.

Abolição
A literatura histórica diz sempre que as razões desta abolição prende-se com as ideias filosóficas de alguns europeus distintos daquele período. O professor Elikia foi claro na sua afirmação de que não concorda de todo com este dado porque uma das situações da conclusão esclavagista no mundo novo é que os donos dos escravos ficam sempre a temer a insurreição dos escravos, e o “Código Negro”, publicado em 1685, espelha bem este temor dos donos, proibindo inclusive os negros de estarem mais de três juntos, cantar e tocar batuque porque eram sinais que podiam esconder a preparação de uma insurreição. Houve algumas revoltas violentas, nos kilombos americanos e revoltas jurídicas no continente Europeu. O professor interpreta que estas atitudes fazem entender que os escravos sabiam bem a noção de liberdade e conhecendo artimanhas organizavam-se para tentar recupera-la, com registo do afamado processo de 1687, quando um escravo proveniente da Jamaica conseguiu ganhar a liberdade dele, e sendo também que há fontes que apontam que em Inglaterra já havia cerca de 1000 negros livres que cantavam e dançavam a noite toda.
Isso, enfatiza o professor, mostra que houve sempre uma tradição da resistência africana contra o esclavagismo, mas a abolição do Haiti foi fundamental para a aceleração do processo, tanto que foram eles que, reagindo ao absurdo do negro ter sido um dia um bem qualquer, exigiram indemnizações que vieram a ser dadas aos negros até ao fim da segunda guerra mundial.
Do agora, o historiador aclara que mais recentemente, na década noventa do século passado, portugueses e espanhóis levantaram a tese inconsequente de que os descobrimentos deveriam ser celebrados como um grande evento na história do mundo, uma decisão negada pela UNESCO pelo facto de ter conduzido ao genocídio dos índios e a escravatura dos negros, ficando favorável a discussão da reparação do continente, que motivou a Organização da Unidade Africana a criar uma comissão, já em 2001,que se encarregasse de organizar o pedido de reparação e acusação de crime contra a humanidade.
Mas, inquiri o palestrante, reparação para quem? Para África ou para os descendentes de escravos? Elikia não vê com bons olhos a reparação geral de África porque houve reis e africanos comerciantes que viveram do tráfico e os governos actuais ainda não tinham a configuração dos dias de hoje. Sugere que a reparação deve ser organizada para os descendentes destes escravos e que o continente deve exigir o respeito e valor das suas figuras simbólicas de dimensão mundial, como é caso da luta que trava em conseguir que uma avenida de França seja chamada de Patrice Lumumba, visto que durante anos muitas avenidas de cidades africanas tinham (ou ainda têm) nomes de personalidades estrangeiras.

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