Evolução da população Mundial 1950/2050- O caso da África

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A população africana cresce 60% no período 1950/70, 73% nos vinte anos que decorrem entre 1970 e 1990, duplica nos trinta anos terminados em 2010, estimando-se que em 2050 seja mais de dez vezes superior à população existente um século antes; isto é, cerca de 2500 M de pessoas. Tudo isso acontece porque a mortalidade baixou, tal como a natalidade – sobretudo a infantil – apesar das guerras, dos sangrentos e prolongados conflitos em muitos locais do continente, com intervenções das potências ex-coloniais, das multinacionais, do sistema financeiro através do mecanismo da dívida ou, das claras interferências de outras potências. O crescimento do peso da população africana no mundo tem-se mostrado constante como se observou recentemente.

1- A dolorosa integração
da ­África pós-colonial
no capitalismo global

A população africana cresce 60% no período 1950/70, 73% nos vinte anos que decorrem entre 1970 e 1990, duplica nos trinta anos terminados em 2010, estimando-se que em 2050 seja mais de dez vezes superior à população existente um século antes; isto é, cerca de 2500 M de pessoas. Tudo isso acontece porque a mortalidade baixou, tal como a natalidade – sobretudo a infantil – apesar das guerras, dos sangrentos e prolongados conflitos em muitos locais do continente, com intervenções das potências ex-coloniais, das multinacionais, do sistema financeiro através do mecanismo da dívida ou, das claras interferências de outras potências. O crescimento do peso da população africana no mundo tem-se mostrado constante como se observou recentemente.
Há uma tipificação variada e entrelaçada quanto às causas nos conflitos africanos. A África, tal como o Médio Oriente são as regiões com mais frequentes e sangrentos conflitos nos últimos vinte anos. Muitos são (ou foram) resultantes de conflitos tribais, onde a ideia de estado-nação não existia (essencialmente a Sul do Sahel) mas, imposta pelas potências coloniais antes de abandonarem o terreno; são mais raros os conflitos directos entre os estados-nação constituídos.
Essa relativa estabilidade das fronteiras herdadas dos tempos coloniais revela, precisamente a ausência de uma tradição estatal e daí que fosse, para os africanos, relativamente indiferente o traçado das fronteiras, atravessadas com toda a naturalidade, como sempre, pelas pessoas.
Não houve nem há as guerras que se verificaram na Europa, onde os nacionalismos se arreigaram no seio da macabra ideia gerada no século XIX de que a cada povo deveria corresponder um estado-nação, todos julgando-se com direitos a territórios do outro lado de fronteiras, muitas vezes tomadas como provisórias. Após a II Guerra, na Europa, as únicas guerras de fronteiras observaram-se no âmbito do desmantelamento da Jugoslávia ou, mais recentemente, com a anexação russa da Coimeis e a separação de facto, das regiões orientais da Ucrânia (Donetsk e Lugansk), no âmbito de entidades estatais com fronteiras de constituição recente. A constituição da União Europeia e do espaço Schengen vieram a retirar significado às fronteiras, não sendo imagináveis novas guerras de conquistas territoriais.
Em África, a ideia de respeito pelas fronteiras coloniais, por muito aberrantes que aquelas tivessem sido, foi aceite no cenário da descolonização, com algumas e sangrentas excepções. Por exemplo, a Etiópia e a Eritreia separaram-se após anos de guerra; o mesmo aconteceu no Sudão onde o sul, maioritariamente povoado por povos nilóticos e não muçulmanos, se separou do norte, de preponderância árabe e islâmica, num processo de partilha de jazigos de petróleo ainda não completo e, prolongado no Sudão do Sul por uma guerra entre as duas principais tribos (dinkas e nuer).
No processo de colonização, a Somália foi repartida pela França, pela Grã-Bretanha e pela Itália e, numa segunda fase, as duas últimas parcelas juntaram-se num só estado, ficando a pequena parte gaulesa (o pequeno Djibouti, atualmente coalhado de bases militares estrangeiras rivais) vindo a aceder mais tarde à independência. Entretanto, a Somália e a Etiópia entraram em guerra pelo controlo do Leste etíope (Ogaden) povoado por pastores somalis, com a derrota da Somália. Mais tarde a guerra civil somali originou, por um lado, a secessão da parte norte (Somalilândia, a antiga colónia britânica) face à maior parcela do país, a sul onde continua uma guerra civil.
É interessante anotar a sensibilidade política dos EUA. Em 1993 decidiram desembarcar na Somália para impor a lei e a ordem do Império, perante as câmaras de televisão; porém a operação acabou mal com corpos de marines mortos arrastados nas ruas de Mogadiscio. Depois deste revés, o Pentágono, na sua elevada sapiência, empurrou, para pacificar a Somália… o exército etíope que havia estado em guerra com a Somália poucos anos antes, para além de rivalidades antigas. Como as coisas correram mal para os etíopes, os EUA aliciaram os vizinhos a sul, os quenianos para pacificar a Somália; e de onde resultaram, em território queniano, atentados que o al-Shaabab somali veio a desencadear. Paralelamente, a difusa mas sábia “comunidade internacional” decidiu obviar ao assalto a navios mercantes em águas somalis, por parte de comunidades de pescadores esfomeados e com as águas contaminadas por dejectos hospitalares despejados pelos ocidentais. Nesse afã, sabe-se que uma fragata portuguesa apresou um barco de borracha[1] com meia dúzia de somalis a bordo e em águas internacionais; uma heróica intervenção que deve ter dado origem a meia tonelada de condecorações…
Também no caso do Sara Ocidental, as fronteiras coloniais não foram respeitadas. Primeiro, porque Marrocos ocupou o território que a Espanha abandonou à sua sorte; isto é, deu carta branca ao senhor do Makhzen, para se apoderar da concessão de direitos de pesca e dos fosfatos, conduzindo à fuga de parte da população para campos de refugiados na Argélia, perante o desinteresse da “comunidade internacional” e a impotência da ONU.
Entre as guerras de independência, há a registar as levadas a cabo no Quénia, na Argélia, na Guiné-Bissau, em Angola, Moçambique, Zimbabwe e Namíbia.
A herança das fronteiras coloniais consubstanciou-se na invenção de estados-nação, na maior parte dos casos, onde eles nunca tinham existido, como mosaicos de etnias e culturas. Sem a presença unificadora e repressiva da potência colonial, surgiram conflitos internos de vários tipos, entre grupos ou senhores da guerra estribados nas suas tribos, ainda que sem objectivos secessionistas mas apenas de controlo do aparelho de estado. São os casos de Angola, RD do Congo, Costa do Marfim, Libéria, Moçambique, República Centro Africana, Ruanda, Serra Leoa, Sudão (Darfur) ou Uganda.
Há casos típicos de extractivismo e banditismo (negócio do marfim) como o do Exército do Senhor, no Uganda, com incursões no seu exterior; e os cruéis grupos do leste do Congo, senhores da extracção e exportação de diamantes e “terras raras” que rivalizam com a predação já histórica, praticada pelos senhores de Kinshasa, seja Mobutu, seja a família Kabila, herdeiros de um território que as potências coloniais, no século XIX entregaram a um facínora, o rei dos belgas. E não podem ficar esquecidas as práticas genocidas levadas à prática no Ruanda, onde só uma demente habilidade local – fomentada pelo colonizador belga - conseguiu distinguir tutsis de hutus ou vice versa; sabendo-se ainda que essa distinção tem mais um carácter sociológico do que étnico-cultural, a mesma foi utilizada para uma redistribuição de terras onde a densidade populacional é grande.
Com conteúdos secessionistas recordámos acima os que tiveram sucesso mas havendo alguns que não o têm conseguido como o Biafra que, acarinhado pelo regime fascista português, pela França e empresas petrolíferas, tentou a independência face à Nigéria, com um lastro de fome que ficou célebre. O Catanga, nos anos 60 foi objecto de um projecto secessionista em torno de Tchombé, marionete das empresas mineiras que actuavam na região e com grandes amigos no governo fascista português. Cabinda é outro caso que se arrasta há décadas, sem resultados favoráveis aos secessionistas. E o projecto de unificação pós-colonial entre a Guiné-bissau e Cabo Verde foi efémero, com a separação realizada de modo pacífico.
Actualmente, no Mali, há um conflito ancorado num ramo da al-Qaeda (o AQMI) que desenvolve um projecto de separação da população tuaregue, dividida entre vários estados-nação quando nunca, na História tinham sofrido limitações de circulação no deserto, nas comunicações entre o Sahel e o Mediterrâneo. Refira-se ainda a Líbia, onde a intervenção ocidental para a partilha das riquezas energéticas do país conduziu ao reavivar das diferenças e dos conflitos entre a Cirenaica, a Tripolitânia e as tribos do sul, estas, com afinidades ancestrais com o mundo tuaregue.
A guerra civil na Argélia, nos anos 90 é um caso típico de luta social e política, onde as clivagens étnicas e culturais não tiveram um papel determinante. De um lado, estava o poder da FLN, que continua no poder após a guerra da independência contra os franceses; e do outro, um grupo integrista islâmico – a FIS – que entrou na luta armada depois de bloqueada uma clarificação eleitoral. Nesse contexto, a barbárie e os assassínios atingiram, como é habitual, a população em geral.
Entretanto, na África do Sul o regime racista, de apartheid, foi abolido, sob a égide da sábia figura de Mandela. Porém, a burguesia negra, assumindo o poder político, guindou-se também ao mundo dos negócios, em paralelo com a burguesia branca obrigada a aceitar a partilha, sem o estúpido recurso à separação de “raças” – “the business must go on”. Os bantustões desapareceram mas, para a esmagadora maioria da população de origem africana, acelerou-se a integração nas grandes periferias urbanas, onde o casamento entre a pobreza e a violência se desenvolve, caracterizando os enormes bairros de lata; com os prédios elegantes habitados pela minoria branca e os privilegiados negros, ali perto, á vista. Na antiga Rodésia, por outro lado, o poder da minoria de origem europeia foi substituído igualmente por uma burguesia negra, cujo maior expoente está em Mugabe, só recentemente apeado, deixando atrás de si a pobreza e o registo da maior inflação que a História regista.
Para além destes dois últimos casos que sobreviveram à já tardia expulsão dos portugueses das suas velhas colónias, a situação geral do poder em África é a de pequenas oligarquias de gente muito rica; e, como é sabido por detrás de uma grande riqueza há sempre um grande roubo, em qualquer latitude. De origem civil ou com farda militar - no corpo ou no armário - esses oligarcas governam, na menos má das hipóteses, como cópia fiel das oligarquias europeias. As estruturas económicas não são comparáveis em termos de diversificação e são muito centradas na exploração de culturas agrícolas com procura global ou no extractivismo mineiro onde as multinacionais de várias origens, dominam. Embora, mesmo numa escala global, já existam milionários africanos, mormente nigerianos, apresentando a conhecida Isabel dos Santos, uma posição no top ten que, não sabemos se se irá manter com a mudança de poder em Angola, nada favorável à tradicional famiglia Santos.
As sequelas deste modelo de desenvolvimento, patrocinado pelas instituições globais – Banco Mundial, OMC e FMI - geram uma interacção entre projectos ambientalmente desastrosos, de monoculturas de plantação, com o abandono das comunidades rurais para refúgio nas cidades ou na emigração. Os Estados, dominados pelas oligarquias predadoras, entre medidas para atrair o investimento estrangeiro, a par da ausência de infra-estruturas elementares e da evidenciação de deficits públicos, estimulam a intervenção do FMI, (em regra, aceite) com vista a uma ilusória contracção de dívida, mesmo depois de concretizados planos de privatizações e perdas de qualidade de vida para a população; um mecanismo de aplicação geral que nada tem de inovador, nem tem África como único destino.
Esse desmoronar das comunidades tradicionais origina o abandono das terras, a deslocação para as cidades que não têm condições para receber tais afluxos de gente, abandonada pelos chamados poderes públicos. Nessas cidades amontoam-se milhões de pobres em bairros e periferias, sem condições de salubridade, palco de violência mas, onde fervilha uma diversificada economia informal. Em África, as megalópoles crescem aceleradamente, sendo notáveis os casos de Lagos que terá uns 13 milhões de habitantes, do Cairo, Kinshasa ou Nairobi, onde se situa o maior bairro da lata do mundo (Kibera) que se estima ter 2.5 milhões de pessoas.
A emigração, sobretudo para a Europa, procede-se de formas engenhosas e/ou perigosas de atravessamento do Mediterrâneo, onde são comuns as tempestades e o encontro com polícias marítimas ou agentes do Frontex; estes últimos que rivalizam na forma de nada resolverem de fundo, cingindo-se ao confinamento e à detenção para posterior repatriamento. É sabido que a utilização das polícias para a resolução de problemas sociais só pode ter resultados circunstanciais, jamais estruturais e, menos ainda, ter efeitos nos desequilíbrios geopolíticos. Por seu turno, a NATO, com a operação Active Endeavour até 2016 e, depois dessa data, com a operação Sea Guardian não resolveu coisa alguma; nem sequer a acção de gangs de passadores que exercem todos os tipos de violência sobre os candidatos à entrada na Europa.
A vigilância no Mediterrâneo serve, sobretudo, para que os europeus adormeçam no regaço das suas virtuosas classes políticas; mesmo que os resultados apenas evidenciem as suas incapacidades.
As dificuldades dessa travessia e a situação de “ilegal” ou “sem papéis” são elementos mistos de valorização e de submissão por quem as ultrapassa. De valorização, porque os imigrantes procuram uma vida menos miserável e perigosa da vivida nos seus países de origem; por outro lado, muitos terão de se submeter aos estratos mais desqualificados do empresariado europeu que sabem ter nos imigrantes uma massa de gente que se pode pressionar, roubar, sequestrar e pagar miseravelmente, servindo-se da sua desgraça, dos poucos direitos que lhes são reconhecidos, para aumentar os seus lucros e pressionar para baixo os preços vigentes no “mercado de trabalho” europeu global.
Esse modelo ferozmente concorrencial, afecta grande parte das sociedades europeias e promove o desemprego estrutural, a atomização do desempenho laboral, a generalizada precarização na vida, instila um ambiente de medo, de estúpida canalização do descontentamento e do medo para a repulsa do Outro (o imigrante africano e/ou islâmico) e nele se encastra o racismo e a xenofobia institucionalizados em partidos fascizantes (Le Pen, AfD, Fidesz, Lega Nord…). Estes, aproveitam-se da deriva para um neo-liberalismo assanhado por parte dos partidos inscritos nos gangs PPE e S&D, que dominam a maioria das classes políticas nacionais, no seio da UE. Nessa deriva reaccionária participam os partidos de “esquerda” que procuram mais ganhar votos aproximando-se das posições do centro, para acederem ao pote, do que contribuir para uma alternativa ao sistema político oligárquico e ao modelo capitalista.

2 – O perfil demográfico
das áreas geopolíticas africanas

Como procedemos para a Europa, dividimos a África em três conjuntos de territórios[2]. Um deles é a África do Norte que bordeja a margem sul do Mediterrâneo, muçulmana, árabe e berbere, no seu essencial e que confronta com a Europa na margem norte, tendo Gibraltar e Espanha a uns parcos treze quilómetros mas também, bem perto de Malta e da Sicília. Um segundo conjunto de países, que designámos por África – Âncoras, foi escolhido por razões do seu potencial económico ou demográfico ou dada a sua importância nas zonas onde se encontram e que, por isso, se mostram como as âncoras que marcam a marcha do continente; mesmo que sem contiguidades entre si. E, finalmente, os restantes países, uns maiores que outros, em regra pobres, pouco articulados internamente ou sem uma população particularmente grande.
Como se observa no gráfico há uma evolução regular e sem recuos, sendo sensível a diferença de ritmo entre a África do Norte e os restantes conjuntos; o que se acentua nas previsões para 2050. O crescimento previsível mais forte regista-se no conjunto 43 países aqui incluídos em África-Outros, cuja população será multiplicada por oito relativamente a 1970.

2.1 - África do Norte

Enquadram-se aqui cinco países de civilização muito antiga e de relação estreita com a Europa e o Médio Oriente. No primeiro caso, com a instalação de gregos, macedónios, romanos e, fugazmente dos bizantinos; e, muito mais tarde com a colonização francesa, italiana (Líbia) e inglesa (Egipto). No segundo caso, com a chegada dos fenícios, fundadores de Cartago, com a primeira vaga da expansão muçulmana, no século VII, cuja cultura se tornou dominante em todo o Norte de África, desde então, mesmo quando se verificou a inclusão da costa sul do Mediterrâneo na esfera otomana de influência. Inversamente, a presença de norte-africanos na Europa apenas se verificou no seguimento da destruição do estado visigótico, na Península Ibérica, em 711 e durante mais de sete séculos, bem como na Sicília, Malta ou Chipre, de modo muito menos duradouro.
• A Líbia apresenta até 1990 as maiores taxas de crescimento demográfico anual na região (3.8 a 5.1%) sendo ultrapassado pelo Egipto desde então mas, mantendo taxas pouco superiores a 2% e incluindo no capítulo das previsões para 2050 (1.8%, por ano);
• A Líbia, que na década terminada em 2010 apresentou um ritmo de crescimento populacional médio de 1.5%, apenas apresenta uma taxa de 0.3% no hexénio 2000/2016. As causas são bem conhecidas e prendem-se com a guerra que as potências da NATO fizeram à Líbia – um perigoso país com apenas 6.1 M de habitantes – para se apossarem das suas riquezas energéticas, que vieram a ser repartidas em função dos bombardeamentos efetuados e que constituíram uma bofetada aos outorgantes do Nobel da Paz a Barak Obama, em 2009;
• Cabe a Marrocos o mais baixo ritmo de crescimento demográfico na região, para o período 1970/2000 (2.7%), substituído pela Tunísia na primeira década deste século e pela Líbia no hexénio seguinte, como se disse atrás;
• Neste século, depois de uma geral quebra no ritmo de crescimento populacional, assiste-se nos seis anos terminados em 2016 a um aumento das taxas, em todos os países, excepto a Líbia como já se explicou;
• Quanto às previsões para 2050, contemplam uma quebra generalizada dos aumentos populacionais que se cifram entre 1.8% para o Egipto e 0.6% para a Tunísia. A única excepção cabe à Líbia, devido à excepcionalidade dos últimos anos e que poderá não se concretizar, tendo em conta, o conflito interno que se desenvolve no país, entre as várias tribos, mormente da Cirenaica e da Tripolitânia, desde a intervenção da NATO.

2.2 - África - Âncoras
Neste conjunto considerámos seis países. A Nigéria é o país mais populoso de África e campo aberto ao extractivismo petrolífero das multinacionais que semeia um desastre ambiental descomunal nas imediações do delta do Níger. A Nigéria enquadra uma manta diversificada de etnias, línguas e credos, sendo dominante o islamismo; e tem na sua história recente um passado com várias organizações estatais, mormente os califados de Sokoto e de Bornu, entre outros, combatidos e submetidos pela colonização francesa e inglesa, nos séculos XIX e XX. A Nigéria tem internamente o problema do Boko Haram, grupo fanático ligado ao ISIS/Daesh e que se caracteriza por raptos e massacres; um problema que se adiciona ao avanço da seca que empurra população do norte para sul, provocando reacções aumentadas pelas diferenças étnico-religiosas.
O Egipto, também considerado atrás na área geopolítica da África do Norte, é o mais populoso país de língua árabe, com uma pequena minoria de população copta e cuja história remonta a vários milhares de anos anteriores à era comum; é um das três mais antigas unidades estatais, sendo a China e o Irão as outras duas. Recentemente houve um presidente eleito – Morsi – afecto à Irmandade Muçulmana mas, não sendo aceite pelos militares nem pelos EUA, o Egipto voltou a um regime militar ditatorial, como aliás lhe tem sido habitual. Tem no Sinai a regular actuação do ISIS/Daesh e uma vizinhança incómoda constituída por Israel e Arábia Saudita. A sua relevância estratégica deriva do controlo dessa via jugular de navegação que é o canal do Suez.
A África do Sul, outro denso retalho de línguas e etnias, tem a particularidade de incluir uma numerosa minoria de descendentes de europeus e outra, menor, de asiáticos, entre os quais esteve, há uns cem anos, Gandhi. É o país com maior riqueza global em África, com distribuição muito desigual, elevado grau de pobreza e corrupção, apesar da extinção do apartheid.
Angola tem vivido da sua riqueza em petróleo e diamantes, cujos benefícios têm sido apropriados por uma oligarquia de cleptocratas, com ligações muito próximas com a classe política portuguesa; e onde trabalham muitos milhares de portugueses. Em contrapartida, é um país desestruturado, com enorme pobreza e imensas carências infra-estruturais.
A Costa do Marfim foi governada durante trinta anos por um oligarca megalómano – Houphouet-Boigny, um exemplo de “negro com máscara branca” como diria Fanon; e que construiu uma enorme e sumptuária basílica na sua terra natal, no interior do país. A sua sucessão originou conflitos sangrentos que obrigaram à intervenção militar da ONU. Tem relevância global em vários produtos agrícolas de importância mundial, como o cacau, o algodão e o óleo de palma.
Finalmente, o Quénia destaca-se como o principal pólo de ligação ao exterior na costa oriental do continente e Mombaça foi o porto escolhido pela China para constituir o seu principal entreposto no Índico ocidental, no âmbito da rede comercial que está em curso.
Como se observou, escolheram-se como âncoras países cuja dimensão económica, demográfica ou posição geográfica são geradores de atracção nas suas respectivas áreas circundantes, para além do que já se referiu quanto à África do Norte.
• Os mais elevados ritmos de crescimento demográfico anual situam-se na Costa do Marfim até 2000, sendo o indicador para a década de 1970/80 (5.8%), o mais elevado entre todos os países deste grupo, em todo o lapso de tempo considerado. Porém, regista-se nos períodos que definem o século actual um marcado decrescimento da dinâmica populacional no país, resultante dos dois períodos de guerra civil - 2002/07 e 2010/11 - que se verificaram no país;
• Ainda no período de tempo contido neste século, os maiores ritmos de crescimento populacional entre os seis países evidenciam-se em Angola (4.2% e 3.9% em 2000/10 e 2010/16) e, as razões terão, certamente, ligação com o fim da guerra civil em 2002; uma inversão face ao acima descrito relativamente à Costa do Marfim, cujo período de turbulência se situou na primeira década do século. Em Angola, o comparativamente baixo aumento populacional registado nas décadas terminadas em 1970 e 1980, (2,4% e 3,2%, respectivamente) tem correspondência com o período final da luta pela independência e, posteriormente, com a guerra civil. As guerras que se arrastaram durante 27 anos provocaram a morte de … 500000 pessoas;
• A queda das taxas de crescimento populacional é praticamente constante no longo período considerado, nos casos do Quénia, do Egipto e, sobretudo da África do Sul que, aliás apresenta as mais reduzidas, entre os países âncora, desde o período 1980/90, ainda no tempo do apartheid;
• A Nigéria, que apresenta, com Angola as mais baixas taxas de crescimento populacional no período 1950/70 regista, a partir daí, um valor constante, em torno de 3% anuais;
• Quanto às previsões para 2050, o maior dinamismo demográfico cabe a Angola (4.8% por ano) e o mais baixo na África do Sul (0.9%) onde, aliás, através do tempo, se tem assistido a uma lenta mas regular saída de população de origem europeia. Nigéria e Costa do Marfim são também países onde se prevê um aumento do ritmo do crescimento populacional até 2050 (3.6% e 3.4%, respectivamente). Finalmente, prevê-se também uma quebra no dinamismo demográfico no Egipto (1.8%) e uma continuidade no Quénia relativamente ao hexénio terminado em 2016.

2.3 – África – países restantes (43)

Até 1990 há um equilíbrio na proporção entre a soma da população conjunta da África do Norte e dos países Âncora face aos Outros países africanos – na ordem dos 110 pessoas nestes últimos por cada 100 habitantes nos primeiros. Essa proporção passou a alterar-se, paulatinamente, para cerca de 116 em 2000, 125 em 2010, 130 em 2016, calculando-se que em 2050 essa relação seja de 156. Essa tendência, a concretizar-se, revelará uma alteração significativa na distribuição pelo território, da população africana e que poderá resultar da menor atracção dos países Âncora para a captação de população nas regiões vizinhas, agudizando-se a situação social nestas últimas. Por outro lado, a Europa, a manter os baixos níveis de crescimento económico, em paralelo com o aumento da animosidade e a xenofobia face a emigrantes e refugiados, poderá não constituir uma oportunidade de vida para muitos africanos, mormente dos oriundos de países onde a pressão demográfica coincidir com estagnação económica; ou, onde os conflitos armados se desenrolem, com os seus cortejos de violência sobre as populações, deslocações massivas, haveres pilhados ou destruídos, campos de refugiados ou alargamento da extensão dos bairros de lata.
De modo mais optimista, pode admitir-se que aquela tendência de níveis de aumento da população poderá ser acompanhada por maior capacidade nesses 43 restantes países para enquadrar os seus próprios naturais, numa lógica pouco aderente à realidade do “crescimento sustentado”, em regra, bastante desigual; ou ainda, do surgimento entre estes últimos de novas âncoras, susceptíveis de criar novos fluxos de deslocação interna, em África, com a criação de novas centralidades.
Tendo em consideração, as crispações geopolíticas que se vão consolidando, mormente entre EUA e Rússia/China; a continuidade ou aprofundamento das desigualdades entre os países; a própria desestruturação dentro de muitos desses estados-nação, com o aumento de conflitos sociais transformados em étnicos e religiosos, no caso de África; tendo ainda em consideração as suas desarticulações, tudo nos recorda o aviso de René Dumont, em 1962, no seu livro “A África Começa Mal” que hoje poderia ser reescrito com um novo título, “A África Continua Mal”, tendo como eventual edição seguinte um “A África Vai Para Pior”.
Não sendo conveniente, por fastidioso, proceder a uma descrição da situação em cada um dos 43 países africanos aqui agrupados, restringimo-nos aos maiores, do ponto de vista demográfico.
• A Etiópia é, em 2016 o único destes países com mais de 100 M de habitantes, mesmo que se tenha separado da Eritreia em 1993. A Eritreia, com 3.4 M de habitantes em 2000 havia sido incorporada – como se fosse uma propriedade fundiária - na Etiópia do imperador Hailé Selassié, em 1951, pela Grã-Bretanha, sem ter em conta as diferenças culturais, religiosas e linguísticas; desse acto surgiu uma guerra de 31 anos que só terminou em 1991. Assim, do ponto de vista demográfico, se a separação da Eritreia não teve relevância na Etiópia, já o mesmo não se pode dizer quanto ao facto da última ter deixado de ter acesso directo ao litoral;
• A República Democrática do Congo (RDC) é o segundo país mais populoso deste conjunto com 79 M de habitantes em 2016. Riquíssimo em recursos naturais, não deixa de ser um dos países mais pobres do mundo, revelando o domínio da cleptocracia tradicional no poder (Mobutu durante 32 anos e a família Kabila até hoje); e ainda, a desarticulação do país em regiões dominadas por poderes oligárquicos e milícias mafiosas, em articulação com os interesses do capital internacional, mais recentemente centrado nas cobiçadas “terras raras”;
• Nos lugares seguintes quanto ao volume da população em 2016, seguem-se, a Tanzânia (56 M), o Uganda (41 M) e o Sudão (40 M), recordando-se, neste último caso que o Sudão do Sul (12 M) se separou em 2011, após um longo período de guerra com o Sudão (norte); e que continua em estado de guerra, internamente, desde então, para além de um contencioso com o Sudão sobre a partilha de recursos petrolíferos;
• Os mais pequenos países de África são as Seycheles e S. Tomé e Príncipe, respectivamente com 200 mil e 94 mil habitantes em 2016. As ilhas Seychelles constituem, no caso das movimentações de capitais que têm Portugal como parte, um offshore de segunda linha; e, S. Tomé e Príncipe, só em 2016 surge nesse “mercado” como se poderá observar aqui;
• Para o período 1970/2016, as mais elevadas taxas anuais médias de crescimento populacional (não há nenhum caso de redução como observámos na Europa) registam-se no Sara Ocidental (13.1%), ocupado por Marrocos; no Djibuti (10.7%) onde se observa um verdadeiro engarrafamento de bases militares estrangeiras; e ainda o Níger (7.8%), a Gâmbia (7.7%) e o Uganda (7.4%), entre os quais somente o Uganda (41 M) e o Níger (21 M) têm uma população numerosa em 2016. Inversamente, o crescimento mais baixo observa-se nas Seychelles (1.7%) e Cabo Verde (2.2%) que, como se sabe são arquipélagos, no segundo caso com uma tradicional e forte emigração; o Lesoto (2.5%) que é uma monarquia encravada na África do Sul; a República Centro-Africana (3.3%) onde lavra uma guerra pelo domínio de minas de ouro; e a Guiné-Bissau (3.4%) onde confluem os dejectos contaminados provenientes de países avançados e as movimentações de drogas com destino à Europa;
• No capítulo das previsões para 2050 todas as taxas de crescimento demográfico se mostram inferiores às correspondentes registadas no período 1970/2016; no entanto, há situações em que as diferenças são mínimas – Mali e Burundi;
• O maior crescimento populacional até 2050 é apontado para um país do Sahel, o Níger (6.8%), um indicador ligeiramente abaixo do observado em 1970/2016 e muito acima dos indicadores mais elevados seguintes, previstos para o Uganda (4.6%) e República Democrática do Congo e Tanzânia (4.4%), três dos quatro países mais populosos entre os 43 países incluídos nos Outros;
• Ainda no que se refere a previsões para 2050, os menores dinamismos demográficos anuais recaem em países como Seychelles (0.1%), Djibuti, Cabo Verde (1.1%), Lesoto (1.3%), Botswana (1.5%), Suazilândia (1.6%), Namíbia e Serra Leoa (2.2%). Nos casos das Seychelles e de Cabo Verde sublinha-se a continuidade do baixo crescimento populacional atrás registado para o período 1970/2016. Entre os restantes que destacámos é evidente a forte presença de países que rodeiam a África do Sul que apenas crescerá do ponto de vista populacional 0.9 % por ano até 2050.
O mapa que se segue espelha a evolução demográfica dos países africanos expectável para 2050 (em % de crescimento anual).
Observa-se, muito claramente, que os mais baixos ritmos de crescimento demográfico se concentram exclusivamente a Norte e a Sul do continente (vermelho e laranja);
Por seu turno, os maiores ritmos de crescimento concentram-se grosso modo entre o Sahel e o Índico (azul e verde), surgindo dispersas as áreas com valores intermédios para o crescimento populacional (amarelo).
Evolução da população africana em 2050 face a 2016
Grazia Tanta

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