Flores para Martinho Samba (in memoriam)

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Eram vinte e tal (do dia 21.05.1974) quando a Emissora (não sei se a «Oficial» ou a «Católica») deu a notícia do falecimento do padre Martinho Samba.

Eram vinte e tal (do dia 21.05.1974) quando a Emissora (não sei se a «Oficial» ou a «Católica») deu a notícia do falecimento do padre Martinho Samba. Ao ouvir tal notícia, a minha mente levou-me para os fugidos momentos, passados em franca camaradagem com aquele padre, e então fiquei sentido, comovido. Padre Martinho Samba foi um angolano que combateu pela justiça, pela paz, pela independência de Angola. Na altura em que muitos padres, amedrontados (ou indecisos), fechavam a boca frente às injustiças e barbaridades perpetradas contra a lei dos próprios homens, Martinho, qual novo João Baptista, chamava as coisas pelo justo nome e, alto e bom som, dizia – para toda a gente ouvir: «não te é lícito!». Ora, porque falava a verdade, tornou-se odioso, suspeito, subversivo e – à sombra destes princípios de gente farisaica – lançaram-lhe as mãos e meteram-no num mísero calaboiço que era, na terra, o inferno do céu em miniatura: a prisão, misturada com 10 anos de exílio minaram aquele organismo de gigante que a PIDE (DGS) – semente do diabo lançada à terra angolana – sugava, dia após dia. Quando saiu da prisão, estava mais morto do que vivo e aquela morte lenta – provocada pela PIDE (DGS) – teve o seu epílogo na madrugada do dia vinte e um de Maio de mil novecentos e setenta e quatro, num quarto do «Hospital Universitário de Luanda». Não obstante tudo, acho que Martinho Samba morreu sorrindo, porque compreendera – em 25.04.1974 – que a verdade (tal como a justiça) acaba sempre por vir à tona. Foi, pois, nas imediações, às portas da «Terra Prometida», que Moisés, digo, Martinho, fechou os olhos, cantando o nunc dimitis (Lc. 2-29). Tinha acabado a sua carreira, tinha concluído a sua missão!
Paz à sua alma («entre os lírios da Eternidade»)!

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