HISTÓRIA GERAL DA ÁFRICA LUGAR DA HISTÓRIA NA SOCIEDADE AFRICANA (II)

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O tempo africano é um tempo histórico

BOUBOU HAMA E J. KI ZERBO Fotografia: Arquivo

O tempo africano pode ser considerado um tempo histórico? Alguns afirmam que não, sustentando que o africano só concebe o mundo como uma reedição estereotipada do passado. Ele não passaria então de um incorrigível discípulo do passado repetindo a todo mundo: “Foi assim que os ancestrais fizeram”, para justificar todas as suas acções e seus gestos. Se fosse assim, Ibn Battuta só teria encontrado no lugar do Império do Mali comunidades pré-históricas vivendo em abrigos cavados nas rochas e homens vestidos com peles de animais. O próprio carácter social da concepção africana da história lhe dá uma dimensão histórica incontestável, porque a história é a vida crescente do grupo. Ora, deste ponto de vista pode-se dizer que para o africano o tempo é dinâmico. Nem na concepção tradicional, nem na visão islâmica que influenciará a África, o homem é prisioneiro de um processo estático ou de um retorno cíclico. Evidentemente, na ausência da ideia do tempo matemático e físico contabilizado pela adição de unidades homogéneas e medido por instrumentos confeccionados para esse fim, o tempo permanece um elemento vivido e social. Nesse contexto, porém, não se trata de um elemento neutro e indiferente. Na concepção global do mundo, entre os africanos, o tempo é o lugar onde o homem pode, sem cessar, lutar pelo desenvolvimento de sua energia vital. Tal é a dimensão principal do “animismo”3 africano em que o tempo é o campo fechado e o mercado no qual se confrontam ou negociam as forças que habitam o mundo. Defender-se contra qualquer diminuição de seu ser, desenvolver a saúde, a forma física, a extensão de seus campos, a grandeza de seus rebanhos, o número de filhos, de mulheres, de aldeias, este é o ideal dos indivíduos e das colectividades. E essa concepção é incontestavelmente dinâmica. Os clãs Cerko e Sonianke (Níger) são antagonistas. O primeiro, que representa o passado e tenta reinar sobre a noite, ataca a sociedade. O segundo, ao contrário, é o mestre do dia; representa o presente e defende a sociedade. Esse simbolismo é eloquente em si. Mas vejamos uma estrofe significativa da invocação mágica entre os Songhai:

“Não é da minha boca
É da boca de A
Que o deu a B
Que o deu a C
Que o deu a D
Que o deu a E
Que o deu a F
Que o deu a mim
Que o meu esteja melhor na minha boca
Que na dos ancestrais.”

Existe assim no africano uma vontade constante de invocar o passado, que constitui para ele uma justificação. Mas esta invocação não significa o imobilismo e não contradiz a lei geral da acumulação das forças e do progresso. Daí a frase: “Que o meu esteja melhor na minha boca que na dos ancestrais”.
O poder na África negra se expressa em geral por uma palavra que significa “a força”4. Esta sinonímia assinala a importância que os povos africanos outorgam à força e mesmo à violência no desenrolar da história. Mas não se trata simplesmente da força material bruta. Trata-se da energia vital que reúne uma polivalência de forças, que vão da integridade física à sorte e à integridade moral. O valor ético é considerado, na verdade, como uma condição sine qua non do exercício benéfico do poder. A sabedoria popular é testemunha dessa ideia e em numerosos contos coloca em cena chefes despóticos que são punidos no final, extraindo assim literalmente desse facto a moral da história. O Ta’rikh- al Sudan e o Ta’rikh el Fattash não poupam elogios aos méritos de al-Hajj Askiya Muhammad. É verdade que havia interesses materiais em jogo. Mas sistematicamente as virtudes desse príncipe são relacionadas à sua “fortuna”. Bello Muhammad pensa da mesma forma e convida Yacouba Baoutchi a meditar sobre a história do Império Songhai: foi graças à sua justiça que Askiya Muhammad não apenas manteve como também reforçou a herança de Sonni Ali. E foi quando os filhos de Askiya se afastaram da justiça do Islão que seu império se desarticulou, dividindo-se em múltiplos principados impotentes.
Para o filho de Usman dan Fodio, o mesmo princípio vale para seu próprio governo:
“Olhe para o passado, para todos aqueles que comandaram antes de nós… Havia antes de nós dinastias milenares no território haussa. Nelas, muitos povos tinham adquirido grandes poderes que desmoronaram porque estavam distanciados de sua base fundada na justiça, de seus costumes e tradições, alterados pela injustiça. Quanto a nós, nossa força, para que seja duradoura, deve ser a força da verdade e a do isla¬mismo. Para nós, o fato de ter matado Yunfa, destruído a obra de Nafata, de Abarchi e de Bawa Zangorzo5 pode impressionar as gerações atuais mesmo fora da influência do Islão. Mas as que virão depois de nós, não mais perceberão isso: elas julgar-nos¬-ão pelo valor das organizações que lhes tivermos deixado, pela força permanente do islamismo que tivermos estabelecido, pela verdade e justiça que tivermos sabido impor ao Estado”.
Esta visão elevada do papel da ética na história não provém somente das convicções islâmicas do líder de Socoto. Nos meios “animistas” também existe a ideia de que a ordem das forças cósmicas pode ser alterada por procedimentos imorais e que o desequilíbrio resultante só pode ser prejudicial ao seu autor. Esta visão do mundo em que os valores e exigências éticas são parte integrante da própria organização do mundo pode parecer mítica. Mas ela exercia uma influência objectiva sobre o comportamento dos homens e particularmente sobre diversos líderes políticos da África. Nesse sentido, pode-se dizer que se a história é, em geral, justificação do passado, ela é também exortação do futuro. Nos sistemas pré-estatais, a autoridade moral que afiançava ou corrigia eventualmente a conduta dos negócios públicos era assumida por sociedades especializadas, às vezes secretas, tal como o lo do povo Senoufo ou o poro da Alta Guiné. Essas sociedades constituíam muitas vezes poderes paralelos encarregados de desempenhar o papel de recurso à parte do sistema estabelecido. Mas elas acabavam às vezes substituindo clandestinamente o poder constituído. Elas apareciam assim às pessoas como centros ocultos de decisão, que confiscavam ao povo o controle de sua própria história. Nesse tipo de sociedade, a organização em classes etárias é uma estrutura de primeira importância no encaminhamento da história do povo. Essa estrutura, na medida em que está estabelecida a partir de uma periodicidade conhecida, permite reconstituir a história dos povos até o século XVIII. Mas desempenhava também uma função específica na vida das sociedades. De fato, mesmo nas colectividades rurais que desconheciam maiores inovações técnicas e eram, consequentemente, bastante estáveis, os conflitos de gerações não estavam ausentes. Era necessário então assumi-los, por assim dizer, ordenando o fluxo das gerações e estruturando as relações entre elas para evitar que degenerassem em conflitos violentos resultantes de bruscas mutações. A geração engajada na acção delega um de seus membros à geração de jovens que a sucede. O papel desse adulto não é o de aplacar a impaciência dos jovens, mas de canalizar a fúria irreflectida que poderia ser nefasta ao conjunto da colectividade ou que, na melhor das hipóteses, prepararia mal os interessados para assumir suas responsabilidades públicas6.
A consciência do tempo passado era muito viva entre os africanos. No entanto, esse tempo que tem um grande peso sobre o presente não anula o dinamismo deste, como testemunham numerosos provérbios. A concepção do tempo tal como a detectamos nas sociedades africanas não é, com certeza, inerente ou consubstancial a uma espécie de “natureza” africana. É a marca de um estágio no desenvolvimento económico e social. Prova disso são as diferenças flagrantes que notamos ainda hoje entre o tempo-dinheiro dos habitantes das cidades e o tempo tal como é apreendido pelos habitantes do campo. O essencial é que a ideia de desenvolvimento a partir das origens (a serem pesquisadas) esteja presente. Mesmo sob a forma de contos e de lendas, ou de resquícios de mitos, trata-se de um esforço para racionalizar o desenvolvimento social. Às vezes, têm-se verificado esforços ainda mais positivos no sentido de iniciar o cálculo do tempo histórico. Este pode estar relacionado com o espaço, como quando se fala em “dar um passo”, para qualificar uma duração mínima. Pode estar relacionado também à vida biológica, como o tempo de uma inspiração ou de uma expiração. Mas está frequentemente relacionado a factores exteriores ao indivíduo, como por exemplo, os fenómenos cósmicos, climáticos e sociais, sobretudo quando eles são recorrentes. Na savana sudanesa, entre os adeptos das religiões africanas tradicionais, geralmente conta-se a idade pelo número das estações chuvosas. Para indicar que um homem é idoso, fala-se do número de estações das chuvas que ele viveu ou, através de uma imagem, que ele “bebeu muita água”.
Também foram elaborados alguns sistemas de cálculo mais aperfeiçoados7. Mas o passo decisivo nesse campo só será dado pela utilização da escrita. Ainda que a existência de uma classe letrada absolutamente não garanta a tomada de consciência de uma história colectiva por parte de todo povo, ela ao menos permite estabelecer pontos de referência que organizam o curso do fluxo histórico.
Por outro lado, a introdução das religiões monoteístas baseadas num determinado processo histórico contribuiu para fornecer uma outra representação do passado colectivo, “modelos” que apareciam geralmente nas entrelinhas das narrativas. Por exemplo, sob a forma de ligações arbitrárias das dinastias às fontes islâmicas cujos valores e ideais servirão aos profetas negros para modificar o curso dos acontecimentos em seu país de origem.
Mas a grande reviravolta na concepção africana do tempo se opera sobretudo pela entrada desse continente no universo do lucro e da acumulação monetária. Só agora o sentido do tempo individual e colectivo se transforma pela assimilação dos esquemas mentais em vigor nos países que influenciam os africanos económica e culturalmente. Descobrem então que, em geral, é o dinheiro que faz a história. O homem africano, tão próximo de sua história que tinha a impressão de forjá-la ele próprio em suas micro-sociedades, enfrenta agora, ao mesmo tempo, o risco de uma gigantesca alienação e a oportunidade de ser co-autor do progresso global.
(Capítulo 2, do Volume 1, Metodologia e pré-história da África)

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