Katete, terra de liberdade

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A nossa comunicação tenta abordar duas personalidades, nomeadamente: Agostinho Neto, nato de Katete; e Simão Gonçalves Toko, que – do seu próprio punho – assume ter acontecido a Teofania em Katete.

Introdução

A nossa comunicação tenta abordar duas personalidades, nomeadamente: Agostinho Neto, nato de Katete; e Simão Gonçalves Toko, que – do seu próprio punho – assume ter acontecido a Teofania em Katete. O primeiro é poeta, político, ao passo que o segundo é músico e religioso. Numa primeira leitura há uma profunda convergência. Ambos são artistas (poeta e músico) e servem-se de carisma para com povo. Daí, pensamos ir mais além, e identificar Katete como espaço simbólico dos dois. Desta comparação percebemos que Katete é, quer no ponto de vista da História, quer na leitura sociológica, uma terra de Liberdade e de Esperança social.

Katete: valor semântico
do topónimo
O termo Katete, em kimbûndu, designa um pássaro peculiar, mas também, noctilúcio. Isto é, a “primeira luz do dia, ainda na escuridão” (Maia, 2010: 288). Pode-se, de igual modo, interpretar como a “estrela-faísca que chama a luz do sol, na madrugada”, embora exista um termo específico geral para estrela: tetembwa, em kimbûndu e ñtêtembwa em kikôngo.
Ainda no início do século XVIII (em kikôngo), katete era tido como “pequena estrela”, quer dizer “estrela que aparece na madrugada”. Numa só palavra, “estrela de Alva”. Enquanto topónimo, o termo designava três espaços específicos: (1) nasce de água que jorra no pé (vala) de duas terras elevadas; (2) zona árida com um tipo de arbusto trepador cujo cozimento faz folhas se torna como antiemético ou plantas mirtáceas; (3) local acolhedor num vasto espaço.
Os militares Ndembu, Ngimbu, Manzozo, Kilênge (Kiyênge), KôngodyaMbundu, Kalumbuku, etc. que, em 1683, se instalaram na zona – na parte centro-nordeste e centro-sul – encontraram uma lagoa que terá dado origem ao topónimo de Katete: (1) de madrugada, a lagoa cintilava os primeiros raios da luz, ainda na escuridão da madrugada; (2) as plantas mirtáceas na região onde havia lagoa. Essa hipótese que ainda carece de dados históricos consistentes tem, portanto, uma aceitação antropológica pelo seguinte:
1. O termo katete versa-se neste tipo de planta;
2. O vocábulo de katete designa a primeira luz, na madrugada;
3. Pequena estrela que chama o amanhecer.
Colocamos agora a pergunta: o que, na base destas três definições, Katete teria com a “Terra da Liberdade e Libertação”? Para responder a essa pergunta, escolhemos duas individualidades de grande prestígio: Simão Toko e Agostinho Neto.

Simão Gonçalves Toko

Nascido em 24 de Fevereiro de 1918, Simão Gonçalves Toko foi a missão protestante de Kibokolo estudar, aos oito anos. Por ter sido um estudante brilhante e muito inteligente – de acordo com os missionários protestantes britânicos – foi a Luanda estudar. Mas em Abril de 1935 ele passou em Katete numa missão religiosa. E, como testemunha o próprio Simão Toko, ele foi visitado por Deus celeste. Chama-se esse fenómeno de Teofania, que é bíblico e há várias explicações teóricas quer em Max Weber quer em Émile Durkheim, entre outros especialistas da religião.
De acordo com Simão Toko, em Katete, no dia 17 de Abril de 1935, as 3h00 ou 4h00 de madrugada ele deparou-se com um fenómeno específico. Vamos citar o Líder Espiritual da Igreja do Nosso Senhor Jesus Cristo no Mundo, Sua Santidade Bispo Dom Afonso Nunes:
“... depois, Sua Santidade Simão Gonçalves Toco ter-se-á deparado com um clarão e visualizado a face de um Homem que o chamara, e ajoelhou-se diante Dele...” (SdeNUNES;,2018: 93).
Aqui temos um elemento interessante. A volta das 3h00 ou 4h00, Simão Tokosaiu de casa para fazer necessidades fisiológicas, ele depara-se com um “clarão”. Não será o Katete, o noctilúcio? Não será a “Estrela da Amanhã”?
Uma coisa é certeira: Simão Toko escolheu a “Estrela de Amanhã” como símbolo da identificação religiosa, que na verdade é Katete. É lembrança do seu pacto com o Espírito de Deus em forma de noctilúcio (isto é, Katete). Ora, sabe-se que a “Estrela” em geral significa “Liberdade” e a “Estrela da Amanhã” é a “Libertação dos oprimidos”.
Em Setembro de 1949 Simão Toko foi preso em Kinsâsa. Contam os jornais (no Congo belga) que mais de 1000 pessoas seguiram-no e, o que surpreendeu as autoridades belgas, manifestaram-se solidários ao Profeta angolano, assumindo de forma compartilhada a culpa pela qual foi acusado Simão Toko. Isso resultou na expulsão já em Janeiro de 1950 de Simão Gonçalves Toko e mais de 500 angolanos (entre os quais angolanos e tokoistas).
Mas antes de sair, Simão Toko avisou sobre as independências que deveriam acontecer em África. Os Tokoistas tinham uma estrelas vermelha no peito que, além de ser emblema simbólica do Tokoismo, ilustrava a Libertação que Simão Toko anunciava.
A verdade é que em 17 de Abril de 1935, Simão Toko recebeu a informação de que África será libertada e muito mais ainda. E foi em Katete!
Importa realçar que o Profeta angolano saiu do Uige para Luanda para estudar no Liceu. Ele foi acolhido pela família do pastor Pedro Neto. Isto é, passou a ser “filho espiritual” deste pastor metodista. E, por conseguinte, “irmão espiritual” de Agostinho Neto. Depois de ter sido visitado por Deus, Simão Tokoem 1935, este último não hesitou em abençoar Agostinho Neto dizendo que será o Primeiro presidente de Angola. E isso veio a acontecer em 11 de Novembro de 1975.
Numa só palavra, apesar de Simão Toko ter nascido com as características de um sacerdote ou de Servidor de Espírito de Ñzâmbi, foi necessário que isso se consumasse em Katete? Porque? O próprio termo de Katete prediz os acontecimentos, mas desde a sua fundação, Katete é uma Terra de Liberdade e de Libertação.

Agostinho Neto

Em 1922 nasceu António Agostinho Neto. Curiosamente foi no mesmo ano que se operou a Revolta de Katete, contra as políticas exploradoras de Norton de Matos (1919-1921) e resultando na consciência das liberdades dos nativos de Katete.
Há dois aspectos que é necessário ter em conta para perceber as origens sociais de Agostinho Neto. O seu pai era pastor missionário que, nas conferências rotineiras dos Metodistas, chegou a ser “palestrantes” várias vezes. Isto é, um pai intelectual. A sua mãe – que é neta de soberanos de Balombo – era professora de ensino primária. Isto é, o capital cultural e académico da Maria Silva Neto era da elite professoral. Não podemos separar Agostinho Neto deste dois capitais que, aliás, o caracterizou na vida política.
Quer dizer, mesmo antes de ter sido abençoado pelo Profeta Simão Toko, Agostinho Neto trazia já grandes valências no que diz respeito o seu capital cultural. Herda do pai o carisma que melhorou ao servir o povo como médico, depois da formação. E herda da mãe, o espírito professoral e a capacidade de instruir. Aliás, ele casa-se com uma jovem intelectual, cujas cartas (durante as prisões de Neto) e a poesia têm uma estética e herdeira (senão contaminada) da angolanidade de Neto.
Em 1949 a PIDE-DGS recebeu várias informações confirmando que Agostinho Neto mobilizava com facilidade as pessoas, sendo afecto ao Movimento da Unidade Democrática, liderando os jovens. Em 1952 e 1961 ele foi várias vezes preso, por ter manifestamente empenhado as actividades política, em busca da Libertação dos angolanos. Desde então conduziu milhares de angolanos até alcançar a sua Liberdade.
É triste que as obras de Agostinho Neto não tenham sido estudadas devidamente. Da poesia dele pouco se faz crítica. “Renúncia Impossível”, por exemplo, é uma “apologia à Liberdade”, e “Sagrada Esperança” é uma afirmação da Libertação e Soberania. O “Amanhecer” é a visão de erguer a Soberania simbólica” (NETO, 2016). Os textos políticos provam isso de forma larga.
Agostinho Neto tinha carácter de um líder, com autoridade indiscutível. Destes capitais, salvaguardou os riscos contra a dissolução do MPLA em 1962, um golpe complexo em 1977 e, quiçá, poderia liderar a unificação e reconciliação nacional. Somente a soberania de Angola preocupou esse digno filho de Angola.
Vamos aos factos. A independência de Angola foi minada em quatro aspectos. Os acordos de Alvor e depois os de Nakuru sentavam-se nas inúmeras irregularidades, nos inúmeros descuidos e, incontáveis ilusões irrealizáveis. Para citar apenas um “pecado original”, digamos que “11 de Novembro de 1975” não poderia dar certo. Nem existia logística para efeito, nem tão pouco se sabia o universo dos eleitores. O clima tenso – que tornava as pessoas pouco racionais – levou as pessoas acreditar que um presidente português proclamaria a independência de Angola. Isso foi absurdo.
Dai, o acto de 11 de Novembro de 1975 para nos dar identidade, assumir um desafio de construir um Estado com Soberania, etc. é na verdade um “acto corajoso”. Como o indicam bem os arquivos americanos, cubanos e portugueses (russo, também, embora tenhamos dificuldade em interpretar e recorrendo sempre aos terceiros para traduzir), Angola já era o “teatro da guerra fria em África” pela sua situação geoestratégica e importância social, fazendo elo com Zaire de Mobutu. Só que, contrariamente ao Mobutu que se considerava lacaio dos americanos, Agostinho Neto tinha ideias próprias e não negociava Angola em troca de nada.
Além de proclamar a independência, os ideais de Agostinho Neto convergem em busca da Liberdade. É um espírito livre! A pergunta agora é: será por ter nascido em Katete, Terra da Liberdade e Libertação?

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