KIMPA VITA Uma tentativa teológica de redenção do Reino do Kongo (1704-1706)

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Armadilhado na irreversível articulação com o tráfico intra e transatlântico de escravos, o Reino do Kongo acumulou, nos séculos XVI e XVII, um conjunto de graves contrariedades políticas, sociais e religiosas que culminaram com a fatídica batalha de Ambuila, em Outubro de 1665.

KIMPA VITA Uma tentativa teológica de redenção do Reino do Kongo (1704-1706)
Kimpa Vita (desenho de Justin Justkas Kasereka)

Esta situação de profunda crise fez emergir o movimento dos antonianos, liderado pela jovem profetiza Dona Beatriz.Examinaremos na presente comunicação, algumas vertentes do fundamento teológico que asseguraram a mobilização e o sucesso social dos Ntoni e tiraremos numa síntese final, as principais linhas de inculturação engajadas pela Neo-Virgem.

Nova doutrina

O pensamento da iniciada de Kimpasi baseou-se, portanto, fundamentalmente, no contexto de crise global, aguda, na qual estava afundado o Reino, apoiando-se na noção de humanismo endógeno e na ruptura esclavagista.
Assim, para ela, era necessário pôr fim ao reinado do pecado, restabelecendo o código moral tradicional. Isso era a garantia do destino próspero para o povo kongo e o antídoto parao crime.
E mais: era necessário fazer o bem e salvaguardar a alma colectiva na adversidade, divinamente inspirada, na terra dos viventes kongo.
Com a força de Santo António, a Sacerdotisa recebeu dons de curar, alimentar e pôr fim às pragas, numa cruzada contra o tráfico negreiro transatlântico.
A aflição devia estar acima do escuro vale da servidão para a salvação, respondendo ao pedido do nkangu. Inspirada pelo Espírito Santo, devia-se restabelecer a justiça histórica por intermédio de Ndumba a Mpa, a Mulher Santa, que guiava os discípulos na consolação graças ao poder de Deus, numa sã doutrina e numa estrita conduta cristã.

Pureza angélica

Uma das linhas essenciais da Profeta, portadora de nsanda, simbologia kongo por excelência, era fixar a Palavra de Deus de uma forma eficaz e penetrante, mudar a relação com Deus, resolver o conflito no Reino dos céus, combater o pecado homicida e o seu percurso criminoso. Dona Beatriz, que se revestiu do brilho de uma estrela de Deus, mulher pura que queria mudar os tempos, intermediária escolhida, mediadora, com auxílio do Todo-Poderoso teve a revelação da substituição de anjos negros e da inexorável caída do Panteão branco.

Chamas santas

Munida de uma carga teológica corrigida e adaptada, a Ovelha engajou-se a suportar a violência das chamas iguais às feridas de Jesus Cristo. Ela não abriu a boca, na quente crucificação como um anho levado ao matadoiro.
Plenamente convencida da sua ressurreição, num sacrifício vivo, com as chamas santas que iam para o céu, ela permaneceu heroicamente muda perante os seus inflamadores. Sabia que os Justos vão para o Elevadíssimo.
A Ndumba em profecia, símbolo de uma neo-Igreja, deixou um forte potencial da sua terrível execução.
Deixou àcerca da sua existência uma abertura das janelas do céu, uma predição, uma exortação, uma herança que se perpetrou na África central, numa esperança de vida melhor, amor ao próximo, paz e mansidão.Ofereceu a esperança de um novo céu e de uma nova terra.

Síntese e conclusão

KimpaVita acreditou na imortalidade da alma porque foi carregada de várias sensibilidades da Igreja Católica, tais como a veneração dos anjos, a exaltação de Maria, o beijo aos pés do Papa e as repetidas rezas, a dita Avé Maria.
Em suma, durante dois anos, ela experimentara levantar o Kongo, na base de alicerces teológicos endógenos e exógenos, numa dinâmica de revitalização e auto-estima antropológica, destinada a enfrentar, com coragem, o desestabilizador comércio de cativos, a forte instabilidade política, as imparáveis epidemias que eclodiram no país e a implacável seca que se instalou, no início do século XVIII.
Contrariando vários interesses negociais e políticos, a Sacerdotisa será submetida à sentença inquisitória, quente, sugerida pelos capuchinhos italianos, Bernardo da Gallo e LorenzodiLucca.

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