Luta pela independência:Operação de reconhecimento.

Envie este artigo por email

Luta pela Independência: Memória sobre operação de reconhecimento

Operação de reconhecimento
Área fronteiriça Angola-Congo onde se situava nosso centro de interesse, marcado por duas linhas azuis entre o sul de Kimpese e entrada em Angola a oeste de Buela angolana Fotografia: Arquivo

Após os ataques da madrugada de 4 de fevereiro de 1961 em Luanda até ao 25 de abril de 1974, a resistência urbana em Angola foi conduzida por ações espontâneas com, pelo menos, quatro tentativas de organização clandestina duramente reprimidas, nas quais incluímos ações de estudantes angolanos das universidades portuguesas devido aos efeitos diretos em Angola. Mas a partir de meados da década de 1960 exilados sem filiação partidária e também ativos em bases individuais, projetaram formar o que hoje se chamaria “rede” incluindo ligações com patriotas nas cidades do país. Como não havia internet, essa “rede” obrigava à criação de “corredores invisíveis”. O tema foi abordado de forma alargada no livro “Franco Atiradores” (ed. Mayamba:2010), aqui serão dados apenas alguns elementos sobre uma ação especifica que, mesmo só tendo sido implementada parcialmente, exemplifica a vontade combativa e é complemento à informação histórica sobre a luta pela Independência, neste ano do 40º aniversário.
Lisboa e Paris foram importantes vias de passagem no relacionamento entre zonas urbanas e o exterior, mas Dakar foi um relevante centro de articulações conduzidas por essa pequena “rede” exilada, no sentido das duas áreas principais a que tinham acesso dentro de Angola: entidades culturais estudantis e angolanos que prestavam serviço militar obrigatório nas forças armadas portuguesas. Aliás, ambas tinham também forte ligação entre si, na medida em que muitos desses militares eram antigos estudantes.
Esta “rede” teve grande reforço no final da década de 1960 com a chegada ao exilio de “compelidos” (cidadãos não apresentados à inspeção para incorporação militar) e desertores angolanos das forças armadas portuguesas, podendo salientar-se os nomes de Jorge Gouveia, Tavares Alves e Eduardo Pinto, estes dois desertores da força aérea portuguesa. Mais tarde desertaria da escola de oficiais milicianos de Mafra, Vasco Castro e Silva, instalando-se em Bruxelas onde existia desde há muito um grupo de estudantes angolanos. Além de compatriotas em trânsito, alguns dos quais voluntários para missões pontuais, chegando um deles a ter papel importante numa missão urbana.
A rede projetava lançar uma campanha de mobilização, cujo desenvolvimento tinha como pré requisito estruturar aquelas ligações. Uma das vias estudadas era a passagem clandestina da fronteira congolesa por pequena unidade de cinco combatentes, com meios de auto defesa, comunicação, informação e sobrevivência, capaz de criar condições gerais de contacto e infraestrutura, visando reforçar a luta pela independência num clima de tolerância democrática e respeito mútuo no campo nacionalista angolano.
Procurava-se superar fragilidades anteriores nas formas tradicionais de ligação, onde o inimigo acumulara vantagens e eu estava em excelente posição para realizar a operação de reconhecimento prévio na fronteira sul congolesa-norte angolana. Tinha terminado o primeiro ano de “doctorat de 3éme cycle” na EHESS de Paris, podendo candidatar-me a trabalhar em projetos de desenvolvimento no continente africano, dada a minha área de estudo. Um bloco de projetos de desenvolvimento comunitário no então Congo-Kinshasa procurava um técnico e consegui a nomeação.
Cheguei ao Congo no ultimo trimestre de 1970, com passaporte senegalês de serviço, ou seja, reservado a funcionários em missão. Documento legal emitido pelo próprio governo senegalês num gesto de solidariedade. Quanto à área de trabalho oficial ela era importante do ponto de vista académico e, ao mesmo tempo, daria cobertura ao referido reconhecimento na área fronteiriça a leste do eixo Noqui-Matadi.
No próprio Congo as precauções foram muitas. Não só a PIDE estava muito presente em território congolês, como a policia política mobutista (na altura designada por CND) reprimia qualquer iniciativa angolana desligada do GRAE e este, por sua vez, procurava esmagar todas as atividades pela independência de Angola não controladas por ele.
Em Kinshasa, a base de trabalho para os projetos foi fornecida por uma entidade religiosa e os projetos estavam espalhados por zonas rurais de todo o país, com concentração principal no Baixo Congo, onde a localidade de Kimpese desempenhava para nós papel central e era para lá que priorizava as deslocações. Por razões de precaução, no percurso ao longo da estrada N1 que liga Kinshasa a Matadi, ia sempre acompanhado de missionários, que só conheciam o lado oficial da minha estadia. Kimpese fica sensivelmente a meio da N1 e, por caminhos de terra, picadas ou pelo mato, estava a escassos quilómetros da fronteira angolana. A distância exata dependeria de que ponto da fronteira se tratasse, mas no raio traçado por mim oscilavam em torno dos 50 quilómetros do lado congolês. A eventual profundidade de penetração em Angola seria decidida em função das possibilidades.
Formulei a tática operativa a partir de leituras sobre reconhecimento individual britânico na segunda guerra mundial. Causou-me forte impressão um artigo que focava a atuação de um inglês sozinho na Líbia em preparativos para a chegada de unidades do exército. A isto eu adicionava a minha própria experiência clandestina em Luanda, ela mesma influenciada por leituras sobre resistências em várias partes do mundo.
Assim, a missão consistia em reconhecimento visual combinado com recolha de testemunhos, durante cerca de seis meses, sujeita a diversas interrupções em virtude dos imperativos de trabalho ligados á cobertura legal.
Comparando essas diligencias com os mapas, informações geográficas antigas, (obtidas na minha adolescência em algumas viagens ao Norte) e conversas em Kimpese, concluí pela priorização da zona de Buela.
Na verdade há duas Buela, uma de cada lado da fronteira, distantes uma da outra no sentido leste-oeste. Entre ambas situa-se um espaço com vegetação de alguma densidade e esse era um de nossos critérios: arborização protetora. A zona era muito patrulhada do lado angolano a partir de uma companhia do exército português baseada na localidade e, dos dois lados, por informantes civis da PIDE, tanto angolanos como congoleses. Do lado congolês presença um pouco negligente do exército e da polícia mas ativa pelos agentes do CND.
Jipes, camiões Unimog, metralhadoras G3 e morteiros eram equipamento visível daquela companhia e não consegui determinar se possuíam artilharia fixa no local ou se ela lhe seria enviada de posições próximas, caso precisassem. Não era elemento significativo no quadro da campanha que montávamos.
Nos meses anteriores não se notaram incidentes armados importantes na área e os soldados portugueses durante o dia circulavam na localidade despreocupados, faziam patrulhas frequentes nas picadas, sem entrar no mato lateral para além de escassos metros. Á noite adotavam alto nível de vigilância defensiva, sem se afastarem do aquartelamento o que facilitava a movimentação de qualquer pequeno grupo que não se dirigisse para ele.
Nas nossas definições prévias, as ações de ataque armado seriam efetuadas apenas contra as várias estruturas da PIDE e unidades militares, paramilitares ou policiais reconhecidamente agressivas. Em relação aos quarteis em geral (sobretudo se tivessem soldados angolanos) a linha era apenas fazer entrar neles, ou nas zonas percorridas pelas patrulhas, propaganda democrática, tanto elaborada por nós como por um movimento de oposição portuguesa baseado em Argel que emitia um pequeno boletim para os soldados e que, por exemplo, o PAIGC ajudava a difundir.
Porém, na área de Buela nem isso. Era zona de passagem silenciosa sem levantar suspeitas e, como se nota no mapa inserido neste artigo, a faixa de travessia aconselhada seria, mais ou menos, entre a Buela congolesa e a angolana com imediata viragem a oeste uma vez em território nacional, rumo a S. Salvador (hoje Mbanza Kongo).

Café com guerra
Para um pequeno grupo como pretendíamos constituir, a entrada em S. Salvador não era difícil no período entre 1 e 4 horas da madrugada para difundir panfletos e slogans pintados nas paredes, procurando dar a impressão de ser iniciativa local. Como assinatura teriam apenas palavras de ordem pela independência e contra a exploração e os racismos, clara indicação de se tratar de campanha e não de partido.
A duração do trabalho deveria ficar na faixa da meia hora, usando 4 combatentes (dois para cada modalidade de propaganda) ficando o quinto no exterior da cidade de guarda às mochilas e equipamento em geral.
Naquela altura, S. Salvador era uma pequena e pacata cidade com características só parcialmente urbanas, fortemente marcada pela segregação social, sem no entanto possuir uma classe de altos rendimentos. Os civis brancos dividiam-se principalmente pelo comércio e funcionalismo e residiam em casas de classe média baixa, tendo vizinhos mestiços e escassos negros, pois a larga maioria destes vivia em cubatas, mais de tipo rural que do tipo muceque luandense. O volume demográfico era pequeno, efeito da repressão e grande fuga popular para o Congo em 1961.
As indicações recolhidas apontavam não só importante efetivo angolano no contingente local como também descontentamento entre muitos soldados e oficiais de baixa patente. Anos mais tarde (na década de 1980) um alto oficial das Fapla, que, em finais dos 1960 ou começo dos 1970, fez parte daquele efetivo angolano, confirmou-nos esse clima e assinalou-nos a presença ali do então major Melo Antunes, cujo papel no 25 de abril é conhecido.
Após S. Salvador a marcha em direção ás imediações de Luanda implicava desvio para leste a fim de atravessar o rio Mbridge em zona mais favorável, estando entendido tratar-se, fosse onde fosse, de travessia arriscada com passagem noturna após cuidadoso reconhecimento, até nas fazendas de café que dispunham de vigilantes próprios.
Em contrapartida, a entrada na cidade do Uíge (então Carmona) não suscitava as mesmas preocupações para um grupo multirracial de origem urbana, obrigando apenas a mudança cuidadosa dos traços visuais deixados pela caminhada no mato. Na altura, o Uíge era uma espécie de Mbanza Kongo em ponto maior e com uma pequena camada europeia de altos rendimentos, ligados direta ou indiretamente à produção cafeeira sob extremas condições de trabalho. O racismo era mais patente, mas o maior volume populacional permitia dissimulação por mais tempo, inclusive durante o dia.
A entrada na cidade exigia rapidez e, uma vez dentro dela, o grupo passaria facilmente por viajantes de Luanda ou Ndalatando (então Salazar) podendo até enviar telegrama dos correios sobre o andamento da missão. Codificado como correspondência comercial ou familiar, o melhor destino seria Brasil, por não levantar qualquer suspeita e porque lá poderíamos reativar contactos dispostos a reenviar o telegrama para qualquer ponto..
Hipótese a avaliar localmente no momento era de prosseguir em direção a Luanda por autocarro, apoiados em documentos falsos e declaração de negócios.
Se essa via fosse perigosa demais – o zelo policial nas verificações de identidade e bagagem oscilava – haviam mais duas opções. Uma era roubar um carro à noite de forma silenciosa e viajar nele cerca de 100 quilómetros após o que seria abandonado e escondido; a outra seria voltar de imediato á caminhada no mato. No primeiro caso a melhor hora seria perto da meia noite, no segundo à hora do jantar, deixando alguns panfletos, próximo de estabelecimentos de ensino, instalações militares, no bispado e em locais da periferia.
Para tudo isto, a documentação falsa de boa qualidade seria imprescindível. Quase impossível de obter em Angola pela ausência de estruturas clandestinas sofisticadas, eram mais facilmente alcançáveis através de opositores portugueses. Era normal angolanos possuírem documentos emitidos na “metrópole”, dado o numero importante de renovações de B.I. feitas, entre outros, por estudantes lá residentes durante os anos de curso.
Entre os movimentos da oposição portuguesa acompanhados por nós estavam os chamados núcleos “O Comunista”, com os quais não tinhamos qualquer afinidade de posições pois eram claramente estalinistas. No entanto, neles estavam muitos angolanos residentes em Portugal, adesão explicável pelo grande destaque dado nesses núcleos á luta pela independência das colónias. Entre eles, José Mário Costa, natural da então Sazaire (hoje Soyo), presença que podia explicar uma desenvolvida notícia no boletim “O Comunista” sobre a situação naquela localidade, onde os fuzileiros navais e a marinha em geral tinham base e patrulhavam o rio, da foz a Nóqui com um ponto de apoio na Pedra do Feitiço.
Outro motivo de interesse era esse mesmo boletim reproduzir Peritreps, ou seja, informativos confidenciais das forças armadas portuguesas destinados aos oficiais e remetidos por alguns deles a células clandestinas. Tinhamos outras vias de obtenção de tais documentos, mas não desprezávamos a de “O Comunista”, (embora se notassem por vezes reproduções com erros de números ou de frases) na convicção de “quanto mais melhor” em virtude das condições aleatórias dos contactos. Na altura, a tecnologia de reprodução ainda não tinha chegado ao “copiar colar” atual. A citação tinha de ser datilografada a partir da leitura original.
Terceiro motivo, os núcleos referidos lançavam uma campanha entre os soldados para “desertar com armas” e promoviam desvios de armamento. O próprio José Mário seria preso e condenado a pena maior, junto com outros militantes, sob essa acusação e, no forte de Peniche, relacionou-se com outros angolanos presos por terem iniciado um processo organizativo com ramificações em Portugal e Angola, entre eles Joaquim Pinto de Andrade, Henrique Guerra, Rui Ramos, João Batista, etc.
O reconhecimento a sul do Uíge teria de ser feito ou pela unidade em si durante a própria marcha ou por simpatizantes de Luanda. Porém, notávamos entre estes um conhecimento limitado até à ponte do Cuanza ou à vila de Catete.
O azimute seria em qualquer caso Luanda, dependendo o acesso, portanto, da forma como se saísse do Uíge. Além de procurar resolver o problema das ligações, o grupo tinha outras funções na larga zona de influência do CFL ou a sul do Kuanza, como criação de outros grupos semelhantes e desenvolver a mobilização civil e militar, podendo recorrer a ações armadas contra a repressão, tal como definida atrás.

Efeitos imediatos
Nunca se pensou realmente em dar nome ao grupo ou à campanha, prosseguindo uma tradição secular em Angola de iniciativas patrióticas anónimas. Porém, a palavra de ordem “Liberdade e Paz”, usada num apelo e repetida em panfletos ou circulares posteriores, impôs na pratica esse nome ao grupo, ao qual se acrescentaram as iniciais “mob”, significando campanha de mobilização.
Outros canais, no interior e exterior, foram acionados para reforçá-la. Umas propostas resultantes desta operação de reconhecimento foram levadas a efeito, outras não e outras ainda foram-no por vias diferentes. Assim, como em todo o mundo nas lutas clandestinas, papel capital coube a cidadãos que puseram a própria mobilidade individual a serviço da causa, apesar dos riscos. Soldados desconhecidos numa campanha que repercutiu as resistências urbanas noutras faixas de luta e na solidariedade exterior, criando também ambiente de participação no combate para patriotas até então sem vias de engajamento.
A História também seguiu o seu curso e acelerou. Poucos meses depois, já em 1972 na cidade de Dakar (outro foco de inquietação para a PIDE, devido á vizinhança com a Guiné Bissau), respondendo a perguntas sobre a persistência do colonialismo português, previmos sua queda em cerca de dois anos. Há operações de reconhecimento montadas com indiscrições voluntárias para perturbar o inimigo. Não se pensou nisso neste caso, todavia teve tal efeito. A PIDE constatava o crescimento de ações anti-colonialistas conduzidas por novos grupos com potencial, em várias partes do então império português.
A partir de junho de 1970, as preocupações do inimigo aumentaram com a audiência do Papa Paulo VI a três líderes nacionalistas (Amílcar Cabral, Agostinho Neto e Marcelino dos Santos), até porque a partir daí os círculos católicos progressistas tornaram-se mais audaciosos em todo aquele império.
A PIDE sabia de minhas ligações a esses círculos e, comprovei após o 25 de abril, ligou minha presença na fronteira a esse quadro, estimando que eu estaria em algum plano de ações dentro de Angola. Logo em 1971 tive indícios dessa preocupação por conversas ouvidas em Kinshasa e uma visita de “uns senhores” a familiares meus em Luanda para me convencerem a “deixar aquela vida e regressar a Luanda onde tudo se normalizaria sem problemas”. Era uma das muitas tentativas dos tempos de Marcelo Caetano para obter rendições disfarçadas. Ao mesmo tempo enviou informações ao exército sobre movimentações no Congo para possível entrada em Angola com melhoria nos níveis de organização. Nesse sentido a nossa atividade era mais um elemento e passou a constituir “ameaça imediata”.
Num Peritrep com dados de fevereiro de 1971, reproduzido em julho seguinte no boletim dos núcleos portugueses mencionado atrás, além de assinalar ações armadas, baixas nas suas forças, elevado numero de prisões de populares (em geral camponeses) e agitação em vários pontos do país, a informação inimiga mencionava: “nota-se aumento da actividade do inimigo preparando-se no Congo para entrar. Aumento da sua organização também”. O mesmo Peritrep registava "frases subversivas" em escolas de Malange e num quartel do Lubango (então Sá da Bandeira), significando outras campanhas internas em andamento Na verdade era uma soma de pequenas campanhas que completavam o quadro geral da guerra e contribuiriam para o desfecho.

(este artigo foi redigido segundo o acordo ortográfico por opção do autor)

Jonuel Gonçalves

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos