MULEMBA WAXA NGOLA Símbolo de narrativas populares e tradicionais

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O território angolano dispõe de um legado extraordinariamente rico.

MULEMBA WAXA NGOLA Símbolo de narrativas populares e tradicionais
MULEMBA WAXA NGOLA Símbolo de narrativas populares e tradicionais Fotografia: Paulino Damião

 Uns de representação material e outros de essência imaterial. Desse conjunto de bens, podemos encontrar, inclusivamente, espécimes produzidos pela natureza, nomeadamente, árvores, montes, lagos, sítios etc, que se tornaram sagrados porqueesses traduzem ou permitem interpretar as instituições tradicionais, cosmovisão dos povos ou simplesmente apreciar e estudar as tradições populares.
É dizer quealgumas dessas criações naturais, além de assumirem uma posição dominante na paisagem à sua volta (principalmente pela sua beleza natural), podem estar intimamente ligadas a importantes factos da nossa história ou cultura. Pois,algumas tiveram no passado, e podem continuar a ter hoje,distintas utilidades para os povos pelo seu valor sagrado e são, por conseguinte, tradicionalmente protegidos, já quecarregam consigo valores histórica e culturalmente construídos pelos antepassados, mas que são preservados e vivenciados ainda no presente.
Essesconteúdos (históricos ou culturais) herdados do passado fazem parte do nosso presente contínuo.
Um desses sítios que se encontra, efectivamente, inscrito pela tradição oral na memória comum ou colectiva do povo angolano, confirmada pelos registos escritos e oraiséa conhecida Mulemba WaxaNgolacuja história é feita de relações e narrativas de diversa índole no contexto donosso património cultural imaterial ou intangível.
Situada na comuna de Ngola Kiluanje (bairro da Mulemba), a MulembaWaxaNgola, velha e frondosa aos olhos de quem passa pela estrada que liga a cidade de Luanda à vila do Cacuaco, é considerada um marco histórico e um pioneiro da resistência angolana à ocupação e ao colonialismo português.
Essa mulembeira é, segundo reza a tradição, um marco evocativo de um tratado, que definianaquela parte a norte, os limites territoriais da ocupação portuguesa inicial. Há quem diga que ela terá sido plantada pelo MweneNgolaKiluanjeKia Samba, o poderoso soberano dos Ambundu. E o curioso é que sobrevive com ela o mito de ter sido plantada em sentido oposto (comas partes das folhas enterradas).
Já António de Oliveira Cardonega, na sua obra intituladaHistória geral das guerras angolanas (1575 – 1608)escreveu que os “…limites no reino de Angola, chegavam a Luanda, segundo o testificam as árvores chamadas ensadeiras, e que se diz foram plantadas pelos antigos reis de Angola, como sinais de limite do seu reino…”.
Em muitos relatos ou crónicas da época refere-se que à sombra da MulembaWaxaNgola, (a Ficus - nome científico), acampou a comitiva de JingaMbandi, por alturas da sua viagem a Luanda (1621), chefiando uma embaixada de seu irmão NgolaMbandi.
Outros registos orais e até escritos referem que àquele local acorriam populações de todas as latitudes de Angola, incluindo os próprios comerciantes portugueses para prestarem os seus tributos à “velha mulembeira”.
O certo é que hoje essa secular e notável espécie botânicaque deu nome ao bairro (Mulemba) ainda é reputada como local de culto popular. Para muitos a MulembaWaxaNgolaKia Sambatem um grande poder milagroso! A comprovar tal culto, encontram-se, no local, várias moedas, muitas delas já bastante antigas!
Salienta-se que nem mesmo a aversão das autoridades coloniais em relação aos locais de culto e cerimónias populares impediram que a MulembaWaxaNgolaperdurasse na memória do povo angolano. Só assim se explica o facto de que a árvore continua a ser considerada pelas populações actuais, um abrigodos espíritos dos nossos antepassados e, por conseguinte, um templo natural dastradições populares.
Recordamos que as mulembas existem um pouco por todo o país. Em muitas regiões, a população, em épocas recuadas, utilizava o seu invólucro como tecido e as suas folhas ou raízes para efeitos medicinais.
Existem de facto muitas curiosidades sobreas mulembeiras. Diz-se, inclusivamente que a própria cidade de Luanda terá sido arborizada por uma cadeia de mulembeiras no passado e que, no interior de Angola, asua sombra servira de local de paragem obrigatória das caravanas de escravos que se dirigiam ao litoral, onde aguardavam por outros destinos. Nessa época, a frequência dessas caminhadas tornaramo local das mulembas como marcos das distâncias entre os diferentes locais.
Em conclusão, além do seu aspecto frondoso e ornamental, asmulembas passaram a fazer parte da nossa paisagem cultural. A MulembaWaxaNgola, particularmente, continua a ser um santuário popular. Não será exagero de nossa parte considerá-lo como um dos mais recorridos do país e merece, efectivamente, alguma reflexão, o facto de que,apesar da condição em que foi plantada (com a parte das folhas enterradas!), a terra lhe tenha permitido crescer. Em 1988, foi colocada na sua área envolvente um cenário muito interessante:
motivos representativos da resistência da população angolana ao colonialismo português, a escravatura, cenas da luta de Libertação e Nacional.
As pinturas feitas sob coordenação de Henrique Abranches acabaram por desaparecer quando, infelizmente, alguém entendeu fazer alterações na vedação, ignorando, ou melhor, negligenciando totalmente a sua existência!...
Nem o facto de ter sido classificada como Património Histórico-Cultural Nacional (Despacho nº 7, de 18 de Abril, do ministério da Cultura) conseguiu impedir tamanha barbaridade.
Hoje, a mulemba, já cá para fora do recinto antigo, encontra-se desprovida desse cenário que deveria manter-se pela sua função interpretativa!...


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