Njinga a Mbande e Aimé Césaire: Independência e Universalidade

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Seminário pelos 350 anos da morte da soberana do Ndongo

À mesa Rosa Cruz e Silva, Sita José e Alexandra Aparício

“Njinga a Mbandi e Aimé Césaire: Independência e Universalidade” foi a temática do seminário internacional que decorreu no Palácio dos Congressos nos dias 13 e 14 de Dezembro, sob a égide da UNESCO e do Ministério da Cultura, e que assinalou os 350 anos da morte da soberana e o centenário do poeta da Martinica, duas figuras importantes da resistência e da sobrevivência cultural africana face ao império da submissão e do aviltamento dos povos tecnologicamente menos avançados.

O evento surge por decorrência do Projecto de Valorização e Divulgação das Figuras Históricas Angolanas, que visa dar a conhecer e valorizar os feitos dessas figuras, desde os tempos mais antigos até à modernidade e teve como complementos visuais uma exposição itinerante que percorrerá diversos países africanos, europeus e americanos e o lançamento do selo Njinga Mbande.

O Ministério da Cultura realça que os dois eventos visam divulgar e valorizar as duas figuras históricas a nível mundial, aprofundar os conhecimentos sobre os dois ícones da resistência africana, resgatar e reconstruir a memória e a identidade enquanto processo de construção da história de África.

O Governo pretende assim contribuir para uma correcta leitura do papel desempenhado pela personagem Njinga Mbande, no quadro da história de Angola, promover junto dos investigadores angolanos o interesse para os estudos sobre a história da soberana e sua época.

Reler as cartas da Rainha Njinga

As cartas escritas por Njinga a Mbande e a urgente recomendação da uniformização do seu nome, bem como a apresentação da obra “Istórica Descrizione de Tre Regni: Congo, Matamba et Angola”, escrita pelo padre italiano Giovani Cavazzi no séc. XVII, foram
as grandes notas deste seminário.

Apresentada ao público pelo Embaixador de Angola na Santa Sé, Armindo do Espírito Santo, é, na verdade, um dos raros originais da primeira edição, que aconteceu no ano de 1687. A obra foi encontrada na livraria romana Monte de la Farina, em Itália. E pelas Informações colhidas no local, tudo indica que a obra tenha provindo de França, já com algumas deteriorações provocadas por fogo.

O exemplar foi adquirido este ano pelo Estado angolano. Foi submetido a um trabalho de restauração que lhe restituiu as melhores condições possíveis para que pudesse ser submetido a consultas por especialistas, além de ter sido totalmente digitalizado
com referência aos processos tecnológicos mais avançados da área da investigação, respeitando sobretudo a delicadeza do material.

Em breve a Biblioteca Nacional poderá colocar a versão digitalizada em alta definição, como também as características do papel e estudar as técnicas utilizadas na impressão. O livro, cujo manuscrito original se encontra em Roma, apresenta uma versão reduzida e
previamente autorizada pelas autoridades religiosas dos escritos do padre Cavazzi, o capuchinho que na época da expansão pertenceu a uma missão em terras de Angola e que travou conhecimento directo com os povos locais; descrevendo os reinos, flora e fauna, costumes e personalidades de maior revelo da época, entre quais a Rainha Njinga a Mbande.

Alexandra Aparício, directora do Arquivo Histórico Nacional, chama a atenção para um olhar aberto à rica documentação encontrada, principalmente as cartas, que “não têm sido muito estudadas” e que “há necessidade de relermos as cartas e trabalharmos esta correspondência porque Njinga está na moda outra vez, como se pode ver pelo número crescente de teses de mestrado e doutoramento que tem sido alvo por universidades da América Latina”.

Entretanto, esta documentação, traça a historiadora angolana, tem de ser usada como recurso à crítica histórica, sendo preciso também cruzar as fontes orais com as fontes escritas e usar os conhecimentos que os mais velhos têm da oralidade; saber o que diz nas suas cartas para que possamos construir a nossa perspectiva histórica e também ter de facto uma visão completa da nossa soberana, que passou “muitas mensagens nas entrelinhas destas cartas”, porque também “não podemos mais ter sempre a nossa história à base das ilações de Cavazzi e Cadornega que têm uma visão eurocentrista e sobrecarregada de preconceitos e repleta de desconhecimentos da realidade local que eles tratam com indiferença”.

Rosa Cruz e Silva classifica os dois exaustivos dias de trabalho como sendo o primeiro passo de uma estratégia internacional sobre esta temática. A ministra projecta “levar o debate a outros países africanos, para que a diáspora dialogue e estabeleça pontes de
conhecimentos; já estando em vista o próximo colóquio para próximo ano em Paris, momento também para exaltar os 390 anos da subida de Njinga ao poder”.

Segundo a ministra da Cultura, este projecto itinerante permitirá que as fontes sejam disponibilizadas e obrigará elaborar projectos que “permitam a interpretação das fontes, visto que as conexões de Njinga com outros reinos vizinhos obrigam ao conhecimento não apenas dos documentos produzidos por agentes portugueses (missionários, governantes, militares, comerciantes), mas também de documentos que andam na posse das autoridades tradicionais que até agora ainda não se manifestam a favor”.

Por outro lado, argumenta também que “será de capital importância dar a conhecer as cartas e documentos directamente ligados à soberana para dar a conhecer ao mundo e servir de artefacto de apoio à candidatura a lista de Património Mundial da Humanidade;
melhorar a nossa perspectiva histórica de alguma carga pejorativa que ainda recai sobre a figuras importantes da identidade cultural de Angola”.

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