O Brasil e o reconhecimento de Angola

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“Na luta que ora se tratava em Angola entre o nacionalismo de um povo oprimido e uma força colonial retrograda, a vitória será incontestavelmente assegurada por aqueles que combatem pelo triunfo de um ideal justo e humano.

O Brasil e o reconhecimento de Angola
Brasil e Angola Fotografia: Jornal Cultura

Após a implementação da sua Política Externa Independente iniciada pelo presidente Jânio Quadros e prosseguida por João Goulart, que, desde a década de 60, o Brasil procurava estreitar relações com o continente africano, particularmente, com os povos de língua portuguesa. Uma aproximação necessariamente mal vista pelo Estado Novo, uma vez que o Brasil passava a deixar Portugal “orgulhosamente só” nas discussões sobre a autonomização das colónias portuguesas em África, nomeadamente, na ONU. Daí que, para alguns, deixasse de ser surpreendente, o facto de o Brasil ter sido o primeiro país do mundo a reconhecer a República Popular de Angola e o Governo do MPLA, logo no dia seguinte à Proclamação da Independência de Angola.
O académico brasileiro Marcelo Bittencourt refere na sua tese de doutoramento, publicada, em 2002, pela Universidade Federal Fluminense, com o título “Estamos Juntos; O MPLA e a Luta Anticolonial (1961-1974)”), que membros do Movimento Afro-Brasileiro Pró-Libertação de Angola (MABLA), por intermédio do antropólogo Darcy Ribeiro, ministro da Educação no governo do presidente João Goulart (Setembro de 1961 a Março de 1964), entraram em contacto com a primeira dama. Havia a pretensão de mobilizar a sociedade brasileira para prestar apoio solidário a Angola e Teresa Goulart havia conseguido um navio para levar medicamentos ao MPLA, mas a embarcação acabou por não cumprir essa missão.
Outras iniciativas houvera, tal como relatou Deolinda Rodrigues no livro “Cartas de Langidila e outros documentos”: “um apelo para obter medicamentos destinados ao MPLA teve uma resposta que excedeu as melhores previsões. Cito apenas um caso: Maria Prestes, a mulher do Perfeito de São Paulo, uma anti-fascista de origem portuguesa, conseguiu através de contactos pessoais com alguns grandes laboratórios, ofertas que pelo seu volume e valor nos colocaram perante um problema que não pudemos resolver. Durante meses, mais de cem quilos de produtos farmacêuticos – desde antibióticos a analgésicos – acumularam-se numa arrecadação da minha casa, aguardando que fosse resolvido o problema do transporte para Angola, via Zâmbia ou Argélia. Não foi. Os donativos da campanha acabaram doados a instituições brasileiras. D. Maria nunca foi informada do nosso fracasso”.
Esta acção foi promovida pelo MABLA que a divulgou da seguinte forma no Jornal Portugal – Democrático, de Janeiro de 1962: O Movimento Afro-Brasileiro Pró-Libertação de Angola, em meados de Dezembro findo […] o seguinte comunicado: “O Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados, organismo com sede em Leopoldeville, acaba de endereçar aos povos de numerosos países anticolonialistas apelos em favor das vítimas da campanha de genocídio empreendida em Angola pelo governo português. O apelo dirigido ao povo do Brasil, recebido em Leopoldeville e feito por intermédio do MABLA, é o seguinte teor:
‘Na luta que ora se tratava em Angola entre o nacionalismo de um povo oprimido e uma força colonial retrograda, a vitória será incontestavelmente assegurada por aqueles que combatem pelo triunfo de um ideal justo e humano. Forças desiguais, sem dúvida – aparelho de repressão e afinado pelo diapasão fascista e nazista – de um lado povos desarmados e depauperados pela prática odienta. Trabalho forçado de outro lado! (…). O Corpo Voluntário Angolano de Assistência aos Refugiados (CVAAR) é uma organização filantrópica, apolítica, fundada por africanos originários de Angola, contando já no seu activo seis médicos angolanos e trinta enfermeiros angolanos e que tem por objectivos principais: 1) Assistência médica aos refugiados angolanos; 2) combate contra o analfabetismo entre os refugiados; 30 instituições de medidas para obtenção de meios de assistência para os refugiados nas diferentes zonas onde se encontrem. O CVAAR trabalha em colaboração estreita com todas as instituições internacionais de assistência que se encontram em Leopoldeville e com a Cruz Vermelha do Congo. Povo brasileiro! Democratas brasileiros! O CVAAR conta com a nossa solidariedade activa’. Não sendo possível enviar directamente quaisquer donativos, o MABLA esclarece que na sede da Revista Anhembi, Rua Marconi 53, 9º se recebem medicamentos e dinheiro que serão encaminhados ao presidente do CVAAR, Dr. Américo Boavida’.”
O CVAAR foi, segundo Edmundo Rocha, organizado por um grupo de seis médicos angolanos, que, após o Congresso Constitutivo da UGEAN (União Geral dos Estudantes de Angola), decidiram criar este grupo com o objectivo de apoiar os estudantes angolanos que haviam fugido de Portugal. O CVVAR estava baseado no Congo Leopoldeville e durou entre 1961 e 1963. Depois desta data a sua missão foi perdendo significado, na medida em que a grande maioria dos estudantes se foram dispersando por vários países europeus, com o propósito de finalizarem os seus estudos interrompidos pela fuga.

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