O comandante, a guerrilha e a formação do exército

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A formação do exército, estratégias e factos.


O comandante, a guerrilha e a formação do exército
A. Neto com Basil Davidson, na Frente Leste Fotografia: Arquivo

INTRODUÇÃO
No quadro da conferência sobre o “Longo Caminho para a Independência”, realizada no âmbito das comemorações do Dia do Herói Nacional e do quadragésimo aniversário da independência de Angola, fazemos uma incursão nos factos históricos da luta de libertação nacional. Tratando-se de um tema ligado à luta de libertação nacional, com destaque para a luta armada conduzida pelo MPLA, há que mergulhar na sua história desde as origens e analisar o percurso militar do MPLA enquanto movimento de libertação nacional até à proclamação da independência. Assim, compreenderemos o papel do líder, os aspectos da organização da guerrilha, as estratégias e os factos como tal.


1. MPLA – DA LUTA POLÍTICA À LUTA ARMADA
No começo, o MPLA orientou a sua actividade para acções essencialmente políticas. Cinco anos depois, teve lugar a acção armada do 4 de Fevereiro de 1961. Este acto de bravura dos nacionalistas angolanos assinalou o início da luta armada em novas condições históricas e atestou a sua importância para o derrube do colonialismo português.
No início da luta contra o colonialismo português, muitos angolanos juntaram-se ao MPLA. Mas alguns destes nacionalistas já se encontravam no Congo Leopodville e foram eles que lançaram as bases para a luta armada a partir do exterior. Assim, o MPLA criou no seu seio um Departamento de Guerra, em 1962, no sentido de dar corpo à luta armada.
Ao mesmo tempo, com base num número reduzido de guerrilheiros formados no exterior, a organização criou o Exército Popular de Libertação de Angola – EPLA. Este exército, ainda na sua fase embrionária, levou a cabo em 1962 algumas acções militares em Cabinda e pouco mais, na medida em que o Congo Leopoldville impunha restrições à circulação dos guerrilheiros do MPLA.
Enquanto decorria o ano de 1962, Agostinho Neto, que desde os anos cinquenta já tinha abraçado a luta do povo angolano contra o colonialismo português e estava ligado ao MPLA, evadiu-se de Portugal. Como ele tinha consciência da importância da luta armada, a sua preocupação imediata foi estabelecer contactos com os guerrilheiros do MPLA.
Assim, em 1962, Agostinho Neto visitou os guerrilheiros do Exército Popular de Libertação de Angola – EPLA que se encontravam em formação em Marrocos. Esta visita, dias após a sua fuga de Portugal, simbolizou de imediato a sua disponibilidade para com a luta armada, o que infundiu confiança e motivou sobremaneira os guerrilheiros. Agostinho Neto rumou, de seguida, para o Congo Leopoldville, onde se juntou aos camaradas da luta.
Quando Neto chegou, na realidade, o MPLA vivia uma situação crítica. “A situação real do MPLA era péssima, pois estava quase sem recursos. O MPLA era acusado de ser um movimento que apenas se dedicava à luta política e não pelas armas, como fazia a FNLA desde Março de 1961. O quadro ainda era mais [preocupante] porque havia confusão e algum desnorte na sua liderança.” (Agostinho Neto, 2011, p.161).
Neste ambiente de pressão interna teve lugar, no fim de 1962, a 1ª Conferência do MPLA. Quando os companheiros de luta identificaram qualidades políticas e de liderança em Agostinho Neto, eles não hesitaram e de pronto tudo fizeram para a sua ascensão à posição de líder político do Movimento Popular de Libertação de Angola. A 1ª Conferência do MPLA elegeu uma nova liderança e Agostinho Neto passou a ser, de facto, o líder da organização.
O líder assumiu as rédeas da organização e estabeleceu um plano de acção assente em diligências a fim de obter “armas e alimentos para os guerrilheiros e dinheiro para a sua acção diplomática. Agostinho Neto priorizou a procura de apoios, sem os quais não poderia agir e impulsionar a luta de libertação.” (Agostinho Neto, 2011, p.164). Neste sentido, ele visitou alguns países ocidentais e africanos (Estados Unidos da América, República Federal da Alemanha, Suíça, Tunísia, Marrocos, França, Grã-Bretanha e Itália).
A crise que estava a corroer o MPLA, na verdade, não foi estancada com os resultados da 1ª Conferência. Por força da situação que imperava, a direcção do movimento desmembrou-se em 1963 e vários quadros abandonaram a luta. O MPLA confrontava-se com as primeiras desistências.
A situação tornou-se mais crítica pois a OUA tinha reconhecido a FNLA como movimento de libertação e o MPLA foi expulso do Congo Leopoldville e foi obrigado a rumar para Brazzaville. Estas situações e outras representaram um golpe contra o MPLA. Embora o MPLA tenha perdido “força humana e intelectual”, Agostinho Neto manteve-se firme e confiante. Ele estava convicto que a luta continuaria a sua marcha triunfal.
Diante do cerco em que se encontrava o MPLA, Agostinho Neto manobrou e criou, em 1963, a Frente Democrática de Libertação de Angola – FDLA. Esta organização foi criada e dirigida por ele. Segundo a sua visão, a Frente Democrática de Libertação de Angola – FDLA perseguiria vários objectivos, sendo os principais “quebrar o isolamento internacional, reduzir a influência dominadora do GRAE, mobilizar as populações do norte de Angola e a população refugiada nos Congos e atrair apoios para a luta de libertação.” (Agostinho Neto, 2011, p.178). Mas os seus esforços não tiveram o impacto desejado. A referida organização foi sol de pouca dura.
Por isso, Agostinho Neto manteve de pé a ideia da luta armada. Mas esta luta exigia quadros, disponibilidade e dedicação à causa do povo angolano. Assim teve lugar a Conferência de Quadros em 1964. Os objectivos desta conferência foram “a unidade e a reorganização do MPLA e a continuação da luta armada e política”.
Por força dos seus resultados, e face à situação deplorante em que se encontrava a organização, Agostinho Neto fez um apelo aos quadros que se encontravam no exterior a fim de se juntarem aos esforços que ele e outros companheiros de luta levavam a cabo para retirar a organização do estado de inoperância e retomar a luta. O seu apelo foi correspondido e muitos quadros regressaram à luta armada de libertação nacional.
Agostinho Neto continuou os esforços de reorganização interna, tendo priorizado a reestruturação do Exército Popular de Libertação de Angola – EPLA. Por isso, este exército foi dissolvido e deu lugar ao Corpo de Guerrilheiros do MPLA. Com esta medida, Agostinho Neto introduziu a concepção correcta de guerrilheiro e de combatente armado sem qualquer distinção. Ao mesmo tempo, ele desencadeou um programa de consciencialização sobre o valor da luta armada em conformidade com os princípios do MPLA.
A reestruturação prosseguiu o seu curso o que permitiu extinguir o Departamento de Guerra. Com esta mudança, Agostinho Neto assumiu o comando e a coordenação da luta armada, bem como definiu um modelo de estrutura territorial da guerra de guerrilhas de acordo com as particularidades do país. Além do mais, Agostinho Neto valorizou a importância da preparação militar, pois ela era essencial para o desencadeamento de novas acções armadas no interior de Angola.
O conjunto de medidas adoptadas no sentido de relançar a guerra de guerrilhas mais a postura do líder, que se assumiu como o comandante das forças guerrilheiras, permitiu ao MPLA retomar as acções guerrilheiras na 2ª Região Militar, em 1964, e criar um centro de instrução revolucionária.
A fé inabalável na luta mais a vontade de manter acesa a sua chama foram os suportes que permitiram congregar esforços para manter activa a Frente Norte. Além do mais, o processo de afirmação do MPLA na arena política implicava actividades políticas e militares concretas. Agostinho Neto mais os seus companheiros interiorizaram essas exigências. Assim, o MPLA continuou a privilegiar a luta armada de maneira concreta e Agostinho Neto passou a enfatizar a necessidade de mais acções militares.
Por força desta postura, a partir de 1965, o MPLA passou a controlar uma parcela do território no norte de Cabinda, por sinal a sua 2ª Região Militar. Os ganhos alcançados em Cabinda abriram de forma automática as portas para o reconhecimento do MPLA, como movimento de libertação de Angola, por parte da Organização de Unidade Africana (OUA). Este feito deveu-se “ao enorme esforço de Agostinho Neto de reorganização e de reactivação da luta armada em Cabinda”.
Do ponto de vista político e militar, os ganhos evidenciavam-se apesar dos impedimentos que colocavam aos guerrilheiros do MPLA no território do Congo Leopoldville. Assim, os guerrilheiros do Esquadrão Cienfuegos chegaram à 1ª Região Militar, em 1966, decorridos vários anos após o 4 de Fevereiro de 1961.
 
2. O DESENVOLVIMENTO
DA LUTA ARMADA
O MPLA preconizou o desenvolvimento da luta armada e a sua expansão a todo o território nacional, em 1964. Por isso, quando certas condições estavam criadas na República da Zâmbia, em 1966, o MPLA iniciou a guerra no Leste de Angola. Assim, a guerra de guerrilhas chegou ao território do Moxico. Este facto representou de maneira clara mais um marco e um avanço significativo para a luta de libertação nacional, visto que a 1ª Região Militar “estava isolada e quase inactiva. [A 2ª região Militar] tinha dificuldades de penetração e de recrutamento […] apesar da quantidade de armas e munições […]” disponíveis.
De acordo com a visão de Agostinho Neto, a ideia estratégico-operacional não era permanecer no Leste, mas sim que “o Leste seria a base de guerrilha. O seu objectivo era atingir Luanda”. A partir de Malange e Bié.
Tirando partido deste ganho, em 1966, Agostinho Neto conceptualizou também a necessidade “da generalização da luta armada” a todo o território nacional. Mas esta ideia só foi levada à prática em 1967. Por isso, neste ano, o MPLA tratou de dar corpo a duas ideias centrais da luta de libertação nacional. Começou por materializar a ideia da “generalização da luta armada” e apelou aos membros da Organização para a “participação efectiva na luta” armada. Estas foram as metas fixadas por Agostinho Neto no período em análise. Porém, em 1967, Agostinho Neto frequentou um “estágio político-militar” mais certos companheiros na União Soviética.
Partindo da experiência acumulada com o Esquadrão Cienfuegos, em 1967, Agostinho Neto, como comandante, planeou o envio de mais um esquadrão para a 1ª Região Militar. O Esquadrão Kamy partiu, mas não teve a mesma sorte.
Mesmo assim, os esforços prosseguiram no sentido de se auxiliar a 1ª Região Militar com outros apoios, tendo o MPLA preparado o Esquadrão Bomboko para o efeito. Este mal conseguiu transpor o Zaíre devido às acções das forças de segurança deste país. Apesar de tudo, o MPLA continuou o seu trabalho para auxiliar a 1ª Região Militar mediante o envio da Coluna Benedito, em 1970, mas também não foi bem sucedido. Diante destes recuos, o comandante foi forçado a alterar a sua estratégia em relação à 1ª Região Militar. Assim foi possível evitar outras baixas no seio da organização.
Fruto da visão do líder, a guerra de guerrilhas do MPLA registou um avanço notório em 1968. A notoriedade resultou do alastramento da guerra de guerrilhas a todo território da 3ª Região Militar e ao facto do MPLA ter estendido as suas actividades militares a outras áreas geográficas.
Assim, o MPLA criou a 4ª e a 5ª Regiões Militares. Este feito criou, naturalmente, mais dificuldades às forças militares coloniais. Mas, no dia 14 de Abril de 1968, o MPLA perdeu o comandante Hoji ya Henda, que foi o coordenador da Comissão Militar, num ataque contra um quartel das forças portuguesas em Karipande. Entretanto, devido ao avanço da luta, em 1968, Agostinho Neto tomou a decisão de transferir de Brazzaville o Comité Director, órgão de direcção que era o Quartel General do Movimento, para uma região do interior sob controle da organização.
Por isso, o MPLA transferiu parte do Comité Director para a Frente Leste, onde já estava bem implantado. Além do mais, por força do alastramento da guerra de guerrilhas do MPLA em 1968, o comandante Agostinho Neto anteviu a intervenção da África do Sul na guerra colonial de Angola em auxílio ao seu aliado – Portugal (Agostinho Neto, 1979, p.52).
A luta armada do MPLA prosseguiu a sua marcha vitoriosa em 1969 e 1970. Tanto mais que o MPLA foi obrigado a criar no seu seio uma Comité de Coordenação Político-Militar em 1970. Este ano representou o auge da luta armada. De resto, a situação apresentava-se bastante crítica para as forças militares portuguesas no período em análise.
Em 1971, a luta armada do povo angolano completou dez anos. Por este facto, Agostinho Neto aproveitou a ocasião para fazer um balanço da luta, tendo destacado a propósito:
“Após dez anos de luta, chegamos a uma situação que nos dá a esperança de consolidar a luta pela independência do nosso país. Mais de um terço do território está sob controlo das forças armadas do MPLA, seja no Norte, em Cabinda, nas regiões do Moxico e Cuando Cubango e também numa parte da Lunda e do Bié. Verifica-se uma alteração qualitativa da luta, no plano interno e no plano externo. No plano interno, a nossa táctica aperfeiçoou-se, a nossa acção é vigorosa. [...] No plano externo, houve ao longo destes últimos anos uma revolução positiva na opinião pública internacional, o que é evidentemente uma consequência da luta.” (Agostinho Neto, 1979, p.66).

3. DA GENERALIZAÇÃO DA LUTA  À FORMAÇÃO DO EXÉRCITO
Diante dos avanços alcançados na luta armada contra as forças militares coloniais, o MPLA passou para outro estágio de organização das suas unidades guerrilheiras. Assim foram criados os esquadrões e as colunas, simbolizando a evolução da guerrilha e a tendência para a sua transformação em exército.
Mas o Exército colonial português já tinha posto em marcha, desde 1970, um plano de modo a conter o avanço da guerra de guerrilhas do MPLA. Por isso, a guerra de guerrilhas do MPLA começou a enfrentar dificuldades em 1972. Estas agravaram-se muito mais em 1973, visto que a organização também se deparou com uma rebelião interna com contornos divisionistas. Perante esta situação, a actividade guerrilheira do MPLA na 3ª Região Militar ficou paralisada.
Para reverter o quadro, foi necessário adoptar uma série de medidas, o que possibilitou estancar a crise política interna e retomar a actividade guerrilheira. Aliás, Agostinho Neto, como líder político e militar da organização, assumiu o comando dos acontecimentos, de modo a inverter o quadro por via de um movimento de reajustamento. A sua atitude permitiu devolver a tranquilidade desejada à organização e retomar as acções guerrilhas no fim de 1973 e no começo de 1974.
Em 1974, o MPLA restabeleceu-se e a organização guerrilheira voltou a crescer do ponto de vista militar, adoptado outros parâmetros de funcionamento. De resto, as mudanças operadas permitiram efectuar a transição, com outro alento, entre 1974 e 1975. Por esta altura, o MPLA já dispunha das Forças Armadas Populares de Libertação de Angola – FAPLA, como seu braço armado, proclamada no dia 1 de Agosto de 1974.
A criação das FAPLA, com feições de exército nacional, foi fundamental, pois garantiu a existência do MPLA no turbulento período de transição política em 1975 e permitiu enfrentar as invasões externas levadas a cabo pelo Zaíre e pela África do Sul. Por isso, as FAPLA foram essenciais para a proclamação da independência nacional.

CONCLUSÕES
Este é o percurso da luta armada conduzida pelo MPLA, como movimento de libertação nacional, até ao momento da proclamação da independência. Neste percurso identificámos o papel do comandante Agostinho Neto e tudo o que ele fez em benefício da luta de libertação do povo angolano.
Além do mais, ficaram evidentes as mudanças operadas no seio dos destacamentos de guerrilheiros e a evolução destes até à formação do exército, bem como foram expostas as estratégias concebidas de modo a manter activa a guerrilha até à conquista da independência. Por isso, os resultados são inúmeros: a independência, a liberdade, a dignidade dos angolanos, etc.

Miguel Júnior (historiador)

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