O nascimento da nossa capital

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A cidade de Luanda comemorou este ano, no dia 25 de Janeiro, 441 anos de idade. Local costeiro, já assinalado em cartas geográcas da época, foi considerado um dos melhores portos naturais do mundo, o que em parte pode explicar a razão pela qual Luanda se tornou porventura, em alguns períodos da História, o principal porto exportador de escravos do mundo.

O nascimento da nossa capital
Praça do Império, 1943, desenho de Groer Moreira da Silva Fotografia: Arquivo

A cidade de Luanda comemora este ano, no dia 25 de Janeiro, 441 anos de idade. De acordo com o “Dicionário Glossográfico e Toponímico da documentação sobre Angola – séculos XV-XVII” da autoria de Adriano Parreira e outras fontes autorizadas, Luanda foi o nome do “baculamento”; i.e., o tributo pago “voluntariamente” pelos sobas à Coroa Portuguesa, como forma de reconhecimento de vassalagem.

Outras definições de Luanda

Luanda significava também “região plana”, o que parece hoje não fazer muito sentido, se atendermos ao espaço actualmente ocupado pela cidade. Mas, a Luanda dos fins do século XVI, ia pouco mais além da Praia e da Praia Grande, bairros que confrontavam com a Ilha de Luanda, que, provavelmente, lhe deu o nome.
Luanda também tinha por significado “rede”, de tipóia, de pesca e foi também designada por Cidade de Angola, Porto de Angola, Vila de Olanda ou simplesmente por Cidade. Em 1576, a região de Luanda foi chamada de “São Paulo de Luanda” e, em 1649, por “São Paulo da Assumpção de Luanda”.
Durante o século XVII, a povoação ainda não se tinha estendido à Praia do Bispo, às Ingombotas ou ao Bungo. Já se definia a rua Direita e a Maianga, bem como a Lagoa dos Elefantes, que tinham as “kasimba” (depósitos naturais de água potável), um lugar distante para os moradores que ali se abasteciam. Uma fonte do século XVII refere-se à Igreja da Nazaré, como um lugar “desviado da cidade”, o que nos pode sugerir uma ideia diferente da que temos actualmente. Local costeiro, já assinalado em cartas geográficas da época, foi considerado um dos melhores portos naturais do mundo, o que em parte pode explicar a razão pela qual Luanda se tornou porventura, em alguns períodos da História, o principal porto exportador de escravos do mundo.
Era o sertão que a alimentava de escravos, forjando-se gradualmente uma sociedade poderosa, cosmopolita, multirracial e rica, mas também decadente, viciada e dependente. Os moradores de Luanda alimentavam-se com os produtos vindos das fazendas do Bengo e dos arimos (propriedades agrícolas) do Museke (região do Ndongo que, no século XVII, exportava anualmente para Luanda cerca de 40 mil sacos de fuba).
A Luanda chegavam e partiam as mais diversas mercadorias, como os panos de ráfia, o marfim, a algália e, sobretudo, os escravos de todas as idades, sexo, condição e etnia, que rumavam para São Tomé, Índias de Castela, todos os portos das Caraíbas e americanos e ainda para a Europa.
Luanda era a metrópole do comércio mercantil do tráfico de escravos. Os escravocratas enviavam os seus pumbeiros – (de “pombe”, o mesmo que sertão, etimologicamente do kimbundu “mpumbu”) – comerciantes do sertão, que trocavam panaria (uma certa qualidade de pano) e outras mercadorias por escravos. Um negócio lucrativo, que envolvia não só portugueses, mas também africanos, em total detrimento para estes últimos, que foram perdendo cada vez mais braços para o amanho da terra, bem como estabilidade para governar.
Estes residentes foram aos poucos impondo um poderio militar próprio e em muitos aspectos autónomo que, em diversos momentos, dominou áreas extensas dentro do território do reino do Ndongo, do Congo e da região de Benguela. Durante muito tempo, o Ndongo foi dado como dependente do reino do Congo, já que o mesmo foi um dos grandes potentados africanos, a quem outros obedeciam e pagavam tributos. Ligado à dinastia dos “ngola”, o reino do Ndongo era designado por reino de Angola pelos portugueses. O mesmo situava-se entre o rio Dande e o rio Kwanza, o Oceano Atlântico e as terras do reino de Matamba.

A conquista do Ndongo

Para além do interesse dos portugueses em cristianizar o “ngola” e os seus súbditos, o facto da região de Luanda ser favorável ao resgate de escravos, fornecer na altura uma concha com valor fiduciário, chamada “nzimbu” e ter sido considerada rica em prata, ferro e cobre, constituiu motivo suficiente, para que os interesses comerciais portugueses se começassem a implantar não só no reino do Congo, mas também no reino do Ndongo. Com os portugueses viajavam clérigos e frades de diversas ordens religiosas para baptizarem os “ambundu”; ou seja, os naturais daquele reino africano.
Ao tempo do soberano português D. Manuel I, foi enviado Manuel Pacheco, como capitão do navio, e Baltazar de Castro, como escrivão, para contactarem Ngola Inene, no sentido de o evangelizarem, tal como as suas gentes. D. Manuel afirmava que embaixadores do reino do Ndongo haviam chegado ao reino do Kongo e lá tinham informado, que este “ngola” desejava cristianizar-se. Mas, Baltazar de Castro, após ter chegado à “Kabasa” (capital itinerante do reino africano, situado a cerca de 150 km do mar) foi preso e quase morto, dado que não tinha sido aquele potentado, que havia enviado embaixadores ao “manicongo” (rei do Congo). Este, porém, não deixou de intervir, mandando um padre para converter o “ngola” e um emissário para solicitar a libertação de Baltazar de Castro. O “ngola”, segundo Alfredo de Albuquerque Felner, fez-se cristão, mas “depois sucederão cousas que deyxou de ho ser.” Ao fim de seis anos, Baltazar de Castro saiu do cativeiro, tendo chegado nu ao reino do Congo, depois de ter passado por várias outras vicissitudes.
Após a morte de D. João III e no tempo da regente D. Catarina, outros contactos oficiais acabaram por se registar. Na sequência desta aproximação partiu, em 1560, a primeira missão comandada por Paulo Dias de Novaes, acompanhado por quatro religiosos da Companhia de Jesus: os Padres Francisco Gouveia (como superior) e Agostinho Lacerda, mais os Irmãos António Mendes e Manuel Pinto.
Com a morte de Ngola Inene, sucedeu-lhe ao trono Dambi-a-Ngola ou Ngola-a-Kilwanji, que também não se mostrou muito disponível para receber os emissários enviados por Paulo Dias de Novaes, que decidiu partir para Massangano, povoação situada no “Museke” (região do Ndongo, que incluía Massangano, Mukila, Kaboko e Kambambi), na convergência dos rios Lukala e Kwanza, a 40 léguas de Luanda.
Depois de caminhar até “Kabasa” com os presentes do rei português, não teve o acolhimento que esperava, já que Ngola-a-Kiluanji pouco mais fez do que entregar vinte crianças ao Pe. Gouveia para serem catequizadas. Posteriormente, as relações tornaram-se mais tensas e Paulo Dias de Novais acabou por ficar cativo cinco anos, sendo posteriormente libertado. No entanto, o Pe. Francisco Gouveia continuou refém, tendo falecido de doença grave, a 29 de Junho de 1575, ainda antes de Paulo Dias de Novaes ter decidido encontrar-se com Ngola-a-Kilwanji. Segundo o I. António Mendes, que participava da missão, as razões que levaram ao malogro da mesma, ficaram a dever-se a intrigas do “manicongo” junto da corte do “ngola”.
Paulo Dias de Novaes chegou a Lisboa, por volta de 1566. A 23 de Outubro de 1574, ao tempo do rei D. Sebastião, partiu com uma armada de 700 soldados à conquista do reino do Ndongo, investido dos cargos de governador e capitão-general. “Foi a primeira vez que uma expedição militar portuguesa foi organizada com fins específicos de conquistar um território ao sul do Sahara.” O principal objectivo era o de submeter o “ngola” à autoridade da coroa portuguesa pela força das armas e para levar por diante este desiderato, os portugueses deram início a campanhas militares para derrotar os chefes locais, o que não veio a acontecer de imediato, dada a resistência oferecida.
Paulo Dias de Novaes fazia-se acompanhar dos Padres Garcia Simões (como superior) e Baltazar Afonso, mais os Irmãos Auxiliares Cosme Gomes e Constantino Rodrigues. A 20 de Fevereiro de 1575 a armada chegou à ilha de Luanda. Posteriormente, Paulo Dias de Novaes fixou-se em terra firme, onde fundou a vila, mais tarde cidade de S. Paulo de Luanda.
Com a obtenção de vitórias na província da Kisama, em 1581, com o avassalamento de mais de cinquenta sobas até ao rio Lukala, que ficava entre 8 a 10 léguas de “Kabasa” e, finalmente, com a vitória na Ilamba, no dia 25 de Agosto de 1585, ficou o reino do Ndongo aberto à evangelização e, sobretudo, mais disponível para uma maior captura de escravos.

Domínio militar e envangelização

Paulo Dias de Novaes foi assentar arraiais em Massangano após uma difícil vitória alcançada neste local, a 2 de Fevereiro de 1583. Naquele local acabou por ser criada a primeira paróquia, a 18 de Maio de 1590, cerca de sete anos após aquela decisiva batalha. De entre as maiores dificuldades que se colocavam aos padres jesuítas para a conversão dos naturais do reino do Ndongo, destacava-se, naturalmente, o seu enraizamento cultural e a dificuldade dos conquistadores aprenderem as línguas nativas, dada a inexistência de qualquer relação destas, com as línguas latinas.
Após uma bem sucedida implantação de capitanias no Brasil, em 1571, o mesmo sistema foi alargado a Angola, através da doação de uma capitania com 35 léguas da sua costa, a Paulo Dias de Novaes. Com a chegada dos reis de Espanha ao trono de Portugal e através da resolução de 1583, Paulo Dias de Novaes perdeu as suas prerrogativas como capitão-donatário, que lhe haviam sido concedidas pela carta de doação de 1571, ficando apenas reduzido à categoria de governador. Após a sua morte, em 1589, a coroa passou a gerir directamente os destinos da colónia, através de nomeação régia de governadores.
Em carta dirigida aos seus familiares, de 3 de Janeiro de 1578, Paulo Dias de Novaes anunciava que “a conversão dos pretos de Luanda, estava a processar-se satisfatoriamente. Os portugueses que aqui viviam é que não se comportavam muito decentemente, não se conformando, de boa vontade, com a rigorosa disciplina imposta pelos missionários, pois muitos deles preferiam viver livremente. As exigências que se faziam levavam alguns a sair destas terras, e o facto tinha como consequência lógica que o povoamento não se fizesse tão depressa como seria desejável, caminhando muito devagar...”
Em uma outra carta do mesmo ano, datada de 23 de Agosto, informava que tinha ficado bastante satisfeito com as flautas que lhe haviam sido enviadas, tendo afirmado: “vieram muito a propósito, muito oportunamente, (...) os cristãos da terra cantavam já, com grande perfeição, algumas músicas religiosas bastante difíceis – a ‘Missa de Morales’, o ‘Pangue Lingua’, de Guerrero, e o ‘Motete de Santo André’, cujo autor emitia este a cinco partes ou vozes’ (…) [os mesmos] tocavam os instrumentos musicais com muita habilidade e perfeição, não só música religiosa como música profana, outras coisas ordinárias (...).”Por volta de 1583 estimava-se que saíssem do Ndongo não menos que cinco mil escravos por ano. Metade deles morria na travessia para as Américas devido às precárias condições de transporte.
Muitos dos padres missionários acabavam por morrer no reino do Ndongo por falta de adaptação ao clima. Mas, apesar das dificuldades encontradas, foram notórias as primeiras tentativas de evangelização, uma vez que, em 1590, já se afirmava haver, pelo menos, cerca de vinte mil cristãos.
Em 11 de Março de 1593, entravam em Luanda quatro jesuítas, que se juntaram a outros que já lá se encontravam, sendo um deles, o Pe. Pedro Rodrigues, visitador dos estabelecimentos da Companhia. Mas, nem todos se fixavam em Luanda, já que depois do navegador Pedro Álvares Cabral, no ano de 1500, ter chegado ao Brasil, aquela outra colónia passou a merecer, prioritariamente, as maiores e as melhores atenções por parte dos portugueses, chegando mesmo a advogar-se o abandono de Angola, após a subida de Filipe II de Espanha ao trono de Portugal. Tal só não veio a acontecer, porque um inquérito realizado por Domingos de Abreu e Brito, em 1590, revelou que valeria a pena conservar Angola sob domínio português.
Esse relatório mencionava a existência de minas fabulosas de prata “muito mais valiosas do que as do Perú” e dava destaque a outra grande riqueza da altura – a escravatura – afirmando que Angola “era um dos Países mais povoados do mundo.” As supostas minas situadas em Cambambe constituíram incentivo para a fundação de Luanda e a exploração das terras do interior.
Porém, após a conquista de Cambambe, em 1604, não havia quaisquer riquezas minerais e ficou desfeita a ilusão. Um estracto do Regimento de 16 de Fevereiro de 1520 a Baltazar de Castro, sobre as minas de prata de Cambambe – Reino de Angola, refere o seguinte: “trabalheis por saber a parte de onde é a dita prata e assim de quaisquer outros metais, e se os há e acham em sua terra ou noutras e quão longe, e se são estimadas, e se levam trabalho em os tirar fazendo por nos trazer amostras de todas”.
Até ao primeiro quartel do século XVII, os sistemáticos combates levados a cabo pelos portugueses acabaram por enfraquecer o poder de Ngola Mbandi (1617-1626) na região. Com a chegada de Jinga Mbandi, exímia política da época, redobraram-se forças contra a ocupação externa. Durante quase quatro décadas Jinga Mbandi resistiu, impedindo a submissão do reino do Ndongo à Coroa Portuguesa.
Mas a continuação das campanhas militares acabaram por conduzir o reino ao seu total desmoronamento. Era o fim do reino do Ndongo. No entanto, os reinos da Matamba e Kassanje mantiveram-se independentes até ao século XIX.

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