O último adeus a Dom Pedro António

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Era o sacerdócio com mais tempo de actividade na CEAST, Dom Pedro António.

O último adeus a Dom Pedro António
Dom Pedro António, era o sacerdócio com mais tempo de actividade na CEAST

“Partiu o homem, mas ficaram a obras”. Foi com este sentimento que muitos arcebispos, bispos, fiéis da Igreja Católica e membros da sociedade civil, em geral, testemunharam o velório do antigo bispo emérito do Bié, D. Pedro Luís António, falecido no hospital central do Cuito, Bié, a 25 de Julho, aos 93 anos e sepultado no cemitério dessa mesma cidade quatro dias depois, uma data que coincidira com o da recepção da sua ordenação episcopal, na Sé Catedral do Huambo, em 1979.
O Governo do Bié, na mensagem dirigida a diocese do Cuito e à família de D. Pedro Luís António, manifestou a profunda consternação e dor pelo seu passamento físico.
Na mensagem, lida durante o velório na Sé Catedral do Cuito, a 29 de Julho, o Governo encabeçado por Álvaro Manuel de Boavida Neto, destacou o espírito de respeito, solidariedade e humildade, que caracterizavam o finado bispo emérito do Bié.
Estas virtudes, de acordo com a mensagem do Governo do Bié, se situam numa escala de valores que têm sido objecto de busca constante da sociedade angolana.
“D. Pedro Luís António sempre se engajou nas iniciativas a favor da paz, da reconciliação nacional, do compromisso com o desenvolvimento comunitário, fraternidade e ao amor ao próximo”, como se frisou, ainda, na mensagem proferida.
Citando o salmista, a mensagem do Governo do Bié focaliza o facto de “a duração da vida ser de 70 anos, e se alguns pela sua robustez, chegam a 80, a medida deles é a canseira e enfado”, de acordo com Salmo 90:10.
“O nosso bispo emérito D. Pedro Luís António viveu entre nós 93 anos”. Por isso, acrescenta-se na mensagem do Governo, é caso para dizer-se “ensina-nos, Senhor, a contar os nossos dias de tal maneira que alcançaremos corações sábios”, conforme se atesta, igualmente, no Salmo 90:12.
Na mensagem exalta-se, ainda, a personalidade de nobres atitudes, que se assistia em D. Pedro António, cuja fidelidade aos princípios da Igreja, dada a firmeza da sua convicção cristã e qualidades morais “só possíveis de observar em homens com a sua grandeza”.
“Dom Pedro Luís António deixa marcas profundas de patriotismo e abnegação, caracterizadas na luta pela conquista da paz e da democracia em Angola. Por isso, neste momento particularmente difícil e dolente dos fiéis da Igreja Católica, o Governo do Bié inclina-se perante a memória do malogrado e endereça os mais profundos sentimentos de pesar pelo falecimento deste ilustre filho de Angola”, cita-se na mensagem.

Fiel servidor da Igreja
e uma grande biblioteca

Na missa exequial, na Sé Catedral do Cuito, a 29 de Julho, o Núncio Apostólico de Angola e São Tomé e Príncipe, D. Novatus Rugambwa, destacou a figura do malogrado bispo emérito, descrevendo-o como “um fiel e incansável servidor da igreja”.
D. Novatus Rugambwu disse que Pedro Luís António se evidenciou na vida religiosa e ao serviço da Igreja Católica, transmitindo as várias mensagens de pesar provenientes do Vaticano e particularmente a dirigida pelo Papa Francisco.
Na mensagem do Sumo Pontífice realça-se a incontida tristeza pelo passamento físico de D. Pedro Luís António.
“O Santo Padre recomendou a misericórdia divina ao seu antigo pastor para que entre na paz e alegria eterna de Deus, a quem dedicadamente serviu. D. Pedro António deixa um exemplar testemunho de uma vida entregue a adesão à própria vocação como sacerdote e bispo solícito para com as necessidades dos fiéis”, disse Novatus Rugambwu.
Durante a celebração de uma missa, dois dias após a sua morte, na Sé Catedral do Cuito, o padre Fernando Tchimo considerou o finado bispo emérito um homem íntegro, calmo e de “grande sabedoria”.
“Além destas qualidades, era um homem de oração permanente e uma verdadeira biblioteca para história da religião”, disse, acrescentando, na ocasião.

Oração permanente

O bispo do Bié, D. José Nambi, ao intervir na missa exequial de Pedro Luís António, apoiou-se numa citação do Papa Bento XVI, em que se refere que “o homem pode ter muitas esperanças, mas se não tiver Deus presente de nada isso valerá”.
“Temos de ser homens de esperança e de fé, como foi o nosso irmão D. Pedro Luís António”, acrescentou prelado católico.
Na mensagem da diocese do Cuito, destacou-se, também, a personalidade do malogrado bispo emérito do Bié, “como um homem de fé e de oração permanente”.
“D. Pedro António nunca perdera a lucidez na tomada de decisões. Se a certeza da sua morte nos entristece, por outro lado nos conforta a ideia da imortalidade e do legado da sua grande sabedoria”, sublinhou-se na mensagem.

Perfil do religioso

Filho de Luís António e de Rosa de Carvalho, o malogrado bispo emérito do Bié era, até à data do seu passamento físico, a figura com mais tempo de sacerdócio no seio da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST).
Nascido na aldeia de Canducu-Catchissapa, no município de Caconda, província da Huíla, a 13 de Janeiro de 1921 e ordenado sacerdote a 20 de Julho de 1952, D. Pedro Luís António chegou a completar 62 anos de presbiterado e 35 de episcopado.
No seu consulado como religioso exerceu o magistério no Seminário Maior do Quipeio e o apostolado nas áreas das Missões de Cuima, Cambinda, Missão da Yova “Longongo”, Lunduimbale e Alto Hama, de que foi fundador.
Em 1977 assumiu o cargo de vigário geral da diocese do Huambo e a 15 de Junho de 1979 foi nomeado, pelo também já falecido Papa João Paulo II, bispo da diocese de Silva Porto, a que veio chamar-se mais tarde diocese do Cuito-Bié.
O finado bispo emérito dirigiu os destinos da Igreja Católica no Bié até passar à reforma e ser substituído no cargo por José Nambi, nomeado bispo diocesano da província a 15 de Janeiro de 1997, também pelo Papa João Paulo II.
No último adeus a D. Pedro António, no cemitério do Cuito, a 29 de Julho, prestigiaram o acto arcebispos e bispos das diferentes arquidioceses e dioceses do país.
Membros do Governo Bié, deputados, líderes de partidos políticos, oficiais das Forças Armadas Angolanas (FAA) e da Polícia Nacional, bem como milhares de fiéis de diferentes igrejas do país e membros da sociedade civil também se juntaram ao velório.

Criação da Diocese

A diocese da então cidade de Silva Porto, hoje Cuito, foi criada pela Bula “Sollemnibus Convenntionibus” de 4 de Setembro de 1940, executada pelo Decreto da Nunciatura Apostólica em Portugal de 12 de Janeiro de 1941.
Após a sua erecção presidiu-a, como administrador apostólico, Daniel Gomes Junqueira, então bispo de Nova Lisboa.
No princípio, a diocese abrangia os distritos do Bié, da Lunda, do Moxico e do Cuando-Cubango. Posteriormente, com a criação da diocese de Malange, em 1957, e do Luso, em 1963, perdeu, a favor da primeira, o distrito da Lunda e da segunda do Moxico.
Não obstante esse factor, a actual diocese do Cuito é das mais vastas de Angola, tendo cerca de 263.730 km2 de superfície e com mais de 6 milhões de habitantes, dos quais 240 mil são católicos e 58 mil catecúmenos, segundo apurou o Jornal Cultura.
Recorde-se que o Bié já teve como bispos diocesanos António Ildefonso dos Santos Silva (1941-1958), Manuel António Pires (1958-1979), Pedro António (1979-1996) e actualmente dirige os destinos da Igreja Católica na região D. José Nambi.
Sérgio V. Dias, no Cuito/ Fotos de Leonardo Castro

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