Qual a origem do nome Massangano?

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Quando a noite cai em Massangano os mortos erguem vozes dos covais gritando dores de morto desengano...
Dentre as ruínas esguias, as visões alongam braços de treva descarnada, e sons de órgão na igreja abandonada rangem ouro e sangue aos borbotões!
Ramos de cruzes, grilhões de prisioneiros canhões de aventura e sonhos legendários ressurgem estes mundos visionários da memória dos antigos prisioneiros.
E o vento sul melancólico e vibrante leva envolto em si a nostalgia do burgo antigo presente mas distante


Qual a origem do nome Massangano?

Poema de Albano Neves e Sousa

Por que o poema evoca um lugar chamado Massangano, um “burgo antigo presente mas distante”?  Que relação haverá entre as ruínas e acontecimentos ali vividos com a origem do nome Massangano?
Massangano não se resume a um verbete de dicionário, reflete um componente diacrônico em que a história se tece nas relações entre três continentes, durante séculos de colonização portuguesa. África, onde se situavam reinos do Congo, Angola, Moçambique. Europa, com Portugal e Holanda basicamente, litigantes entre si, empenhados em conquistas para os novos continentes, traficando produtos e escravos africanos. América do Sul, Brasil colônia, iniciando uma história da conquista territorial pelos brancos europeus, matando e expulsando índios e trazendo escravos da África.
Leonardo Dantas, historiador pernambucano, nos relata que encontrou a palavra Massangano somente no Dicionário Lello (Porto, 1959)  com a designação de “posto administrativo do concelho de Cambambe, Angola”; servindo ainda para denominar “mau clima; terrenos pantanosos”. Consultando o Dicionário Kimbundu-Português, de A. de Assis Júnior (Luanda, s/d), Dantas encontrou o vocábulo na sua forma masculina, Massanganu, que serve como designativo de “confluência; foz. Lugar onde dois rios se juntam num só: Massanganuma Lukala ni Kuanza “; serve também para denominar o “antigo concelho da freguesia de Nossa Senhora da Vitória, constituindo hoje a área e sede do posto deste nome, concelho de Cambambe (Dondo), distrito de Quanza-Norte, província de Luanda, compreendida na língua de terra formada pelos rios Lucala e Quanza, na margem direita deste rio.” É pois palavra de origem do quimbundo (mbundu), uma das línguas bantu mais faladas em Angola, no noroeste desse país, incluindo a província de Luanda. (DANTAS, 2001).
Mapa com a localização de Massangano em Angola, África, fotos do local, de seus rios em confluência e ruínas do antigo forte.
Há, pois, inúmeros aspectos a serem realçados sobre o nome Massangano. Didaticamente vou separá-los, embora isso não esgote observações, adendos e, claro, mais pesquisas em desafios.

África como ponto de origem da palavra

Angola

Massangano é um vocábulo cuja origem veio de Angola, com referências datadas do século XVI.
Na web, em um sítio português, vi uma versão que diria um tanto pitoresca para o nome «Massangano», referindo-se à povoação, ainda existente, a leste de Luanda, em Angola. “A lenda remonta ao tempo das caravelas que transportavam os primeiros portugueses para Angola. O seu timoneiro, Paulo Dias de Novais, após desembarcar em terra africana, terá perguntado o nome do local a um nativo que sossegadamente pisava (amassava) milho no seu pilão: “como se chama este lugar?”, perguntou ele. Vindo a pergunta em língua estranha, o homem terá pensado que oestrangeiro lhe perguntava o que ele estava a fazer e, assim pensando, respondeu em língua kimbundu: “massa n’gana!” (“milho senhor!”). Paulo Dias de Novais terá entendido que o local se chamava “Massangano” – nome que permanece até aos dias de hoje.”3
 Assim registra-se a povoação fundada em 1583 por Paulo Dias de Novaes, fidalgo e explorador português, neto do navegador Bartolomeu Dias, e escrivão da Fazenda Real. Na verdade, o local denominava-se N’Guimbi yá Songo (Cidade do Songo),  onde dois grandes rios se abraçam: o Kwanza – ou Cuanza -  e o Lucala, famosos por oferecerem a Angola as maiores quedas de água.
A força do colonizador fica evidente. Um topônimo já existente é substituído por outro e mantido séculos afora, documentado e registrado. É como se a história de Angola começasse com este fato e continuasse pelas guerras e façanhas deixadas pelos brancos. Algo similar acontece na história do Brasil com o “descobrimento” pelos portugueses no ano de 1500.
À procura de riquezas, expandindo os domínios portugueses, esses exploradores colocavam nações e reis negros uns contra os outros para tomar-lhes as terras e aprisionar os vencidos para o tráfico negreiro, um grande negócio do século XVI em diante. Durante sete anos, num período que foi de agosto de 1641 a agosto de 1648, Massangano foi oficialmente a capital portuguesa de Angola, quando da invasão holandesa. Outros nomes e fatos significativos ocorreram quando das lutas pela  retomada do lugar.
Em 1640, a rainha Nzinga (ou Ginga) e seus guerreiros atacaram o forte Massangano, onde suas duas irmãs, Cambu e Fungi, foram aprisionadas, sendo esta última executada. Foi um general brasileiro, Salvador Correia de Sá y Benevides, que restaurou a soberania portuguesa em Luanda em 1648. Num emaranhado de voltas e contravoltas, estas guerras e seus personagens fazem parte não só da história de Angola, como do imaginário desse povo e dos que vieram para o Brasil, como escravos.
Em matéria jornalística publicada no Portal ANGOP – Angola Press, registra-se um fato do presente: “Massangano, Cuanza Norte - Fiéis católicos que desde sexta-feira participam da IV peregrinação ao santuário de Nossa Senhora das Vitórias, em Massangano, município de Cambambe, Cuanza Norte, dedicaram sábado as suas súplicas em favor das almas dos escravos angolanos levados para as Américas e para a Europa durante o período de colonização de Angola.” Mais do que a peregrinação, feita em agosto de 2014, a  matéria evidencia as sequelas doloridas da história.4
Outro nome significativo neste tríptico África (Angola), Brasil (Pernambuco) e Portugal é  João Fernandes Vieira, que foi governador de Angola, hoje herói da insurreição pernambucana contra os holandeses, mas um negreiro que chegou a ter 16 engenhos em Pernambuco e mil escravos, a favor de uns e de outros, conforme seus interesses e sua visão para enriquecer. Enfim, a história dos povos e de sua dominação pelos poderosos e gananciosos ainda merece não só mais aprofundamento como maior divulgação.

Moçambique

Em Moçambique, Massangano é associado à dinastia dos Cruz, já no século XIX. Segundo pesquisa, este Massangano moçambicano não é bem visto pelos portugueses como Massangano de Angola, pela sua história, um como avesso do outro. Também foi um ponto fortificado, situado na principal artéria fluvial da colônia. Até 1888, 1891, ou mesmo 1917,  foi uma das maiores fontes de preocupações de todos os governadores-gerais, a “sombra negra” dos autores portugueses.
Na verdade, mais um exemplo cruel de interesses econômicos e militares que jogavam uns contra os outros. Joaquim José da Cruz, conhecido localmente com o nome de Nhaude  - a teia de aranha, ou o terror, conforme os autores - obteve autorização para construir um campo fortificado (aringa) em Massangano. Repeliu seus inimigos e fez alianças matrimoniais com outros chefes reais, inclusive resistindo aos Pereiras, de Macanga, inimigos de sua família. Mas os portugueses, com interesses bem definidos,  se uniram a antigos inimigos, como os Pereiras,  para derrotar os Cruz e destruir sua “aringa” e sua  influência na região, que muito lhes desagradava.

Forte Massangano: lugar de degredo

A construção do Forte Massangano, em Angola, tinha em vista não só a defesa das redes comerciais, mas também a segurança do presídio, que a monarquia portuguesa utilizou como local de degredo, assim como outros em suas possessões na África. A Inconfidência Mineira, no século XVIII, é um movimento bem conhecido da história do Brasil.
Os inconfidentes reclamavam contra o pesado pagamento de tributo em ouro cobrado aos mineiros pela coroa portuguesa e, revoltados, também desejavam a independência de Minas Gerais. A revolta foi liderada por Joaquim José da Silva Xavier, conhecido como Tiradentes. Presos, Tiradentes foi enforcado e os outros desterrados para presídios da África. Para Massangano foi José Álvares Maciel que chegou a Luanda em 1792 e foi internado na enfermaria da Forte de São Francisco do Penedo com pneumonia e escorbuto. Recuperado, de lá seguiu viagem para a Fortaleza de Massangano, de onde foi solto para lutar pela sobrevivência. Tornou-se representante comercial dos negociantes de Luanda na área de Calumbo e chegou a montar uma pequena siderurgia. Maciel teria falecido em março de 1804 ou 1805, aos 44 anos de idade,

Massangano: registos do nome no Brasil

Entre 1575 e 1681 cerca de um milhão de escravos foram embarcados de Angola para o Brasil. A importância de Angola como fornecedor de escravos para o Brasil era tão grande que a própria administração portuguesa desse território esteve subordinada às autoridades sediadas no Brasil.
 Os portos que recebiam maior número de escravos no Brasil eram Salvador, Rio de Janeiro e Recife; desses portos os escravos eram transportados para outros lugares. A proporção de desembarque de escravos em todos os portos variou ao longo de 380 anos de escravidão, dependendo do aquecimento da atividade econômica na região servida pelo porto em questão. Durante o ciclo áureo da cana-de-açúcar do Nordeste, os portos de Recife e Salvador recebiam o maior número de escravos, mas, durante o ciclo do ouro em Minas Gerais, coube ao Rio de Janeiro receber o maior número de escravos.
Existem indícios do envolvimento, pelo menos numa primeira fase, dos mesmos povos africanos das lutas travadas nas selvas de Angola e na serra da Barriga, em Alagoas. Vale lembrar que os habitantes do quilombo de Palmares chamavam a região de Angola  Janga (pequena Angola).
Além dos aspectos históricos, sem dúvidas o nome Massangano ficou assimilado ao léxico da região e se espalhou por outros lugares. Tanto é assim que, em Minas Gerais, na comunidade de Milho Verde, o Rio Jequitinhonha, um nome indígena, recebe o nome de rio Massangano quando corta aquela região. Lá dizem que, em linguagem africana, Massangano significa rio escuro e profundo. Talvez o rio – e o curso da história - seja mesmo escuro e profundo.
O nome Massangano também aparece em manifestações populares, como as congadas, festas de São Benedito e reisados, de forte influência africana. Tanto as músicas quanto as danças são permeadas de expressões da língua bantu e por memórias de etnias e guerras africanas e seus personagens. Entre as memórias estão as batalhas em Massangano, contra os nativos e aquelas em que lutaram portugueses e holandeses pelo controle do tráfico escravo em Angola e de suas riquezas minerais. Some-se a isso também a intenção dos europeus para um império cristão na África, sobretudo com os jesuítas, assentado na opressão colonialista e escravocrata.
Um exemplo aparece na cidade de Ilhabela, no litoral paulista, gravação recolhida e trabalhada como tese na USP por Giovanni Cirino, devidamente autorizada para reprodução. Vale observar também que o nome Massangana, no feminino, aparece na transcrição.  No trecho das embaixadas, dos bailes, há um diálogo com pequenas variações:

“Embaixador   Primeiramente me mande a bênção.
  Rei                 Bimbiazami in apuco aquiriri!
                        Embaixador, como é que vós fugistes de meus pés?
  Embaixador  Soberano, a cruel batalha de Maçangana foi a causa.
  Rei:               Sois fidalgo?
  Embaixador  Sou sim senhor
  Rei               Então sentai-vos”    


Massangano/a no estado de Pernambuco, Brasil.

Massangana – Recife, PE

O nome Massangano no estado de Pernambuco, no Brasil  é denominação de rio, que serve de afluente ao Suape, no município do Cabo de Santo Agostinho e de uma ilha do rio São Francisco, ilha do Massangano, na cidade de Petrolina, situada à esquerda.  À direita da ilha, fica Juazeiro, da Bahia.
No entanto, em Recife, capital do Estado, temos o Engenho Massangana onde hoje está instalada a FUNDAJ – Fundação Joaquim Nabuco e a Editora Massangana, de referência nacional.
A justificativa para esta grafia terminada em a, em Recife, é um tanto polêmica já que envolve nomes consagrados na historiografia brasileira. Segundo Evaldo Cabral de Melo, historiador pernambucano, teria sido o próprio Joaquim Nabuco (1849-1910) quem teria mudado o nome de engenho de Massangano para Massangana, feminilizando-o para valorizar a figura da madrinha, senhora do engenho,  que o criara até os 8 anos. Outros pesquisadores também citam este fato como verdadeiro, como no discurso feito por Alfredo Bosi e lido na Academia Brasileira de Letras.5
Mas o  historiador, também pernambucano, Leonardo Dantas,6 não aceita essa explicação, assegurando que o vocábulo Massangana, como designação do engenho da infância de Joaquim Nabuco, já se encontra presente em documentos do século XVIII. “Ao instituir o Morgado de Nossa Senhora da Madre de Deus no Cabo de Santo Agostinho, em 28 de outubro de 1580, o vianês João Paes Barreto deu início à colonização da sesmaria que lhe fora doada pelo primeiro donatário Duarte Coelho (1535-1554) nela levantando dez engenhos, dentre os quais o Massangana. O mesmo engenho aparece como pertencente àquele morgadio, quando da instalação da Vila do Cabo de Santo Agostinho, em 18 de junho de 1812.”7
Para o fato desta grafia com a – Massangana - ainda é Leonardo Dantas quem levanta a hipótese para o fato  de a caninha (aguardente)  produzida no engenho tornar-se conhecida, assim, no feminino. Tanto que, na imprensa da época, massangana é sinônimo de boa cachaça, uma metonímia.  Ele também cita outros eventos publicados no Diário de Pernambuco, em que o nome Massangana aparece.
Penso também que, por não conhecermos originalmente a pronúncia da palavra, isso possa ter causado tais diferenças. Sabe-se que o uso, a dinâmica da linguagem, dependendo do local e do contexto pode muito bem dar neste tipo de ocorrências, principalmente no registro escrito. De todo modo, temos, na simbologia do engenho, mais um componente da dominação que atravessa o Atlântico e desemboca no Brasil.

Massangano, Petrolina, PE

Entretanto, no mesmo estado, na cidade de Petrolina, no submédio rio São Francisco, o que não falta é o nome Massangano designando estabelecimentos comerciais, farmácias, madeireira, parque e, sobretudo, localização geográfica, como o bairro Cohab IV, ou Cohab Massangano e a Agrovila Massangano, dentro do projeto de irrigação Massangano, hoje chamado de Projeto Nilo Coelho.  A maior ilha do rio São Francisco é a ilha do Massangano, contemporaneamente foco de estudos e de referências, por causa de seu samba, de manifestações de fundo religioso e folguedos populares.
Tais denominações foram derivadas da antiga Fazenda Massangano. Sobre esta, consegui ter acesso ao livro manuscrito “Registo de ferros, marcas e signaes” de animais dos anos de 1872 e 1873 da Vila de Petrolina, acervo da Biblioteca Municipal, onde se tem o nome da fazenda Massangano como uma propriedade. Nos registros de números 190, 191 e 192, o escrivão cita “... morador na Villa de Joaseiro, distingue seus gados e animaes da Fazenda Massangano neste Termo.” E seguem-se as marcas e sinais para esta distinção, desenhadas e descritas, com os nomes dos proprietários.
Há, ainda, muito a se estudar sobre a história da região, mas quando se diz que os habitantes da ilha do Massangano seriam quilombolas, isto é, descendentes de escravos fugidos para os quilombos, constata-se uma base histórica para isso, embora nada haja de comprovação legal. Os moradores se dizem “da ilha”, generalizando o local e não especificando a denominação da mesma.
Nos cantos do samba de veio da Ilha do Massangano, há ainda cantos que se referem à lida no canavial, a marinheiros, típicos da Zona da Mata do estado, evidenciando remanescentes da migração para o interior. Fala-se, na ilha, que esta pertencia a um tal de João Massangano. Nada está provado, até porque referir-se a alguém como sendo de seu lugar de origem ou de moradia, é costume comum. Infere-se que a Fazenda Massangano era de grande extensão territorial e que a Ilha deveria, portanto, fazer parte desta mesma fazenda.
Márcia Nóbrega, antropóloga, em sua dissertação de mestrado sobre o samba da Ilha do Massangano, chama seus moradores, o  “povo da ilha” de  massanganos. Tendo morado na ilha certo tempo, Márcia usa “universo musical massangano”, “pessoa massangana”, “brincadeiras massanganas”, “modos massanganos de nomear” e por aí vai. O adjetivo concernente a este espaço irá se incorporar à língua em sua dinâmica? Entendo que a busca por uma identidade para os moradores do local possa sofrer influências, mas ainda é  “povo da ilha” para eles mesmos.
Uma pequena publicação do Padre Francisco José Pereira Cavalcante, denominada Petrolina, o Centro da Rosa, datada de 2013, faz um levantamento de referências bibliográficas comentadas sobre a cidade até o século XIX.  E cita a povoação com o nome Massangano, que estaria dentro do perímetro da cidade de Petrolina. “Henrique Guilherme Fernando Halfeld, engenheiro alemão radicado no Brasil em 1853,  visitou a Passagem do Juazeiro provindo da Vila do Juazeiro, aonde havia chegado desde Pirapora, em Minas Gerais. Na região da Ilha do Fogo, ele viu as povoações do Massangano, Fazenda Novo e a “Passagem do Joazeiro.”
Também a publicação se refere ao Padre Manoel Antônio de Souza. “Era Vigário Coadjutor na Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Cabrobó, situada ao Nordeste de Petrolina, de onde veio para a “fazenda do Massangano em desobriga” – então território da Freguesia. – a fim de realizar desobriga, isto é, celebrar missa, batizar e assistir casamentos. Um casal de nubentes foi Paulo Batista (ex-escravo) e Ana Joaquina.(...) Os matrimônios foram assistidos às onze horas da manhã do dia 07.06.1815. De acordo com o mapa do Atlas de Halfeld, a fazenda se situava a oeste da povoação em frente às pedras ditas “Do Maurício”, que ficavam no interior do rio e antes da Ilha do Rodeador”.     
Portanto, temos aí algo mais preciso sobre o nome Massangano nesta região.
Mas não se pode deixar de estabelecer a devida relação com a história de Santa Maria da Boa Vista, cidade de Pernambuco, de onde Petrolina se desmembrou, assim como a história da posse destas terras, dos chamados “currais” do São Francisco, para a criação do gado extensivo. Uma história de distribuição de terras que vem da exploração portuguesa, expulsando os índios cariri da região, desde o tempo das capitanias hereditárias, de doações de terras, sesmarias, até a migração de gente do litoral para cá, de negros escravos, negros libertos ou negros fugidos, trazendo sua cultura, miscigenando geneticamente e se adaptando às novas realidades. Esses movimentos acabaram por dar um caráter singular às estruturas fundiárias, econômicas e sociais, entre ribeirinhos e catingueiros.
O livro Opara – Formação Histórica e Social do Submédio São Francisco, de Esmeraldo Lopes, é um livro fundamental para se compreender esta mesma formação. Mostra como se deu o “esfacelamento” das grandes propriedades que, de crise em crise, eram repartidas e vendidas, entrando no jogo interesses os mais diversos, inclusive dos arrendatários e posseiros. Quase no final de seu livro, Esmeraldo Lopes transcreve o depoimento de uma moradora que, em certa medida, me pareceu uma epifania sobre o nome Massangano.

Deste depoimento, destaco alguns fragmentos:
“Em 1930 chegamos aqui, na Fazenda Saco, hoje conhecida pelo nome de COHAB Massangano. O meu pai comprou, pela importância de 8 mil reis, com 123 hectares de terra, não tinha cercado... A roça era dividida em 4 partes pra alugar aos boiadeiros que traziam gado... quando foi em 1982, fomos desapropriados pelo governo que nos deixou sem quase nada... meu pai morreu de desgosto... O governo mandou construir a Cohab 4-5-6 então a Cohab Massangano tem esse nome porque aqui, quando chovia muito, descia água de dois riachos e se ajuntavam e formavam um mar de água, e assim foi dado o nome de Massangano. Meu pai tirou o nome de Saco para o nome Massangano.”

À guisa de conclusão: Qual a origem do  nome Massangano?

Em suma, Massangano é um nome para um lugar determinado, um forte, um engenho, uma fazenda, uma povoação, uma ilha. Mas que também pode se tornar um substantivo comum e até um adjetivo. Encontrei no Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa de 2001 o verbete Maçangana, com esta grafia que, se não o define, também não explica a origem que estamos buscando, como transcrito a seguir.
ana. substantivo feminino Pernambuco informal. Aguardente de cana, cachaça. Etimologia origem obscura, Nei Lopes lembra o topônimo quimbundo Masangana “lugar onde os rios se juntam num só”, através de Maçangana, segundo ele nome de engenho de Pernambuco.8
Neste trabalho procurei elencar situações e condições em que o termo comparece, em cinco séculos de história do registro do nome em português. Padre Francisco P. Cavalcanti me alertou sobre a própria pergunta em si e a ideia de unificação daquilo que ficou dividido “dois rios se juntam num só”. O nome Massangano os une e também os controla, colonizadores portugueses e colonizados. A lenda da origem do nome, como um mal entendido de Paulo Dias de Novaes em Angola “milho senhor” (masa+ngana) leva a uma consideração que explica, de certo modo, esta origem “obscura”. Confronta-se o elemento ordenador “senhor” ou amassador e o elemento a ser ordenado, unificado, tornado massa, o “milho” a ser amassado. Um povo a ser subjugado. Talvez como o massapé ou massapê, se pensarmos em massa+pé, como a propriedade aderente da terra, ao nela se pisar. Uma terra escura, excelente para o cultivo da cana-de-açúcar, que marcou a monocultura no estado.
A depender do contexto, numa junção de similaridade e contiguidade, vemos o quanto isso pode clarear ou destruir significados pré-concebidos. Afinal, o que o nome Massangano significou no início da dominação portuguesa e o que significa hoje, em peregrinações, poemas e congadas? O que significou para ser nome de um engenho?
Ou sinônimo de cachaça? Ou nome de Ilha?
Se, por um lado, revela a história do ponto de vista do vencedor em seus registros, também revela o oposto. Sincronicamente pode nos fazer refletir sobre desigualdades e suas reais motivações, aprofundando nossos olhares para as representações, palavras ou não, que estão à nossa volta.

Petrolina, 16 de Abril de 2015


Elisabet Gonçalves Moreira / Fotos: Carlos Lousada

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