Reflexão sobre filosofia da história

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Nesta reflexão sobre a filosofia da história, o objectivo é destacar o valor do conhecimento histórico. Desta maneira, vamos abordar o conhecimento histórico em dois momentos. Começando pela importância da valorização dos testemunhos históricos e da sua narração e terminando com os aspectos relativos ao facto histórico e à veracidade histórica.

Reflexão sobre filosofia da história
Peça de arte africana Fotografia: Arquivo

1.   TESTEMUNHOS HISTÓRICOS
E NARRAÇÃO
A filosofia da história, ou seja, a teoria da história é, no fim de contas, uma teoria geral das realidades humanas. Isto equivale dizer que as realidades humanas podem ser estudadas a partir de várias teorias. Desta maneira, a filosofia da história ocupa-se como tal com o estudo mais geral da “constituição essencial ou a morfologia dos factos históricos”, bem como com a “génese da finalidade de tais acontecimentos, tomados em uma cadeia processual”. Além disso, é importante reter que a filosofia da história é no fim de contas a questão da génese e do fim da própria história. Esta é a perspectiva histórica que há muito prevaleceu. Mas na época contemporânea a noção de filosofia da história tem a ver com a “historicidade” – base da história científica.
Para que se entenda a história como conhecimento em si, é essencial  compreender duas tarefas fundamentais da filosofia da história. Antes de mais, há que reter que a história implica a compreensão dos eventos. Agora independentemente da sua natureza o evento possui relações, intenções, agregações e vínculos. Como ele pode fazer parte de uma categoria específica de acontecimento (político, económico, cultural e militar). No fim de contas, estes aspectos constituem as bases da epistemologia da história e os suportes da constituição e do alcance histórico.
As tarefas da filosofia da história são as seguintes: a) conhecer a estrutura dos factos históricos (o que implica entender que a “razão histórica é narrativa histórica”); b) valorizar o conhecimento histórico (aquele se processa através de um carácter científico e que sempre é o que mais convém a quem faz a valorização). Por isso, a escolha pode recair para o positivismo e idealismo ou para o subjetivismo e objectivismo.
Expostas as duas tarefas da filosofia da história, passemos agora para o conhecimento histórico. Desde já, há que reter que a comunicação se processa de forma oral, escrita e através de inscrições em monumentos. Agora os elementos históricos constituem a “cultura objectiva” – “instrumentos da técnica” e “obras de arte”. Ao mesmo tempo, esses elementos assumem-se como testemunho. Aliás, o passado está patente no vestígio e no testemunho como tal. Em consequência,  a história é composta de textos, monumentos, peças de cerâmica, relevos, etc. Todas essas fontes expressam o “espírito humano” no seu passado.
Assim, para os historiadores, o testemunho representa uma fonte de conhecimento que deve ser considerado como autêntico e também como uma “mera probabilidade”. No entanto, a clareza e a certeza históricas de um testemunho só são garantidas mediante a pesquisa histórica. Por via disso, a “força do testemunho reside na própria testemunha”.
Por isso, quer do ponto de vista de oralidade, quer do ponto de vista da escrita, o testemunho é tudo aquilo que se transmite como verdadeiro e certo. Logo, uma “preposição que enuncia o percebido ou conhecido é o testemunho”. Havendo testemunho, mesmo sem a presença do facto histórico, já estamos diante do conhecimento histórico. Ainda relativamente ao testemunho, há que destacar a existência de dois tipos de testemunhos:
• Testemunho dogmático
 (visão teleológica);
• Testemunho  histórico
(acontecimento).
Desta distinção é possível reter que por via do testemunho histórico podemos chegar aos factos passados. Para o efeito, uma das garantias é o recurso à crítica histórica através da “metodologia do testemunho” (Marc Bloch, 1995, p.21).
Uma das exigências da presente metodologia é assegurar que o testemunho é objecto de trabalho seguro, o que passa pela localização de vestígios e documentos. Desta base sobressaem uma abordagem heurística e uma abordagem crítica, que implicam examinação e entendimento. Desta maneira, a heurística é entendida como a arte de descobrir documentos do passado. Agora do ponto de vista de crítica, há duas formas de crítica: “Crítica externa” e “Crítica interna”.
Deste modo, a crítica externa permite determinar a origem de um documento. Assim há que ver a sua integridade, o seu “estado original” e sua autencidade. No tocante à crítica interna, o destaque vai para as questões de interpretação e autoridade. Por força disso, foram definidas duas formas de interpretação:
• “Crítica do sentido:
 hermenêutica”;
• “Crítica de autoridade”.
A primeira procura destacar muito mais o “aspecto individual da vida”. A segunda trata de identificar a competência e a sinceridade do autor de um documento.  Entretanto, há que descrever a narração histórica e perceber outras situações. Do ponto de vista da narração histórica, é preciso valorizar o “juízo histórico”, que difere do “juízo de autoridade” que vimos atrás. Desta maneira, para compreender o “juízo histórico” é indispensável antes de mais diferenciar o carácter “lógico” do aspecto “gnosiológico”.
Há que destacar o facto de que a questão lógica se reverte de carácter singular, o que torna o “juízo histórico” algo particular. Assim o que interessa na história não são os conceitos universais. O interesse fundamental da história é o facto individual e suas múltiplas conexões. Outro aspecto é que do ponto de vista histórico, os factos não são estudados de forma isolada ou separada mas na sua relação. Daí que “um facto histórico tem valor quando é conhecido em suas conexões”. Por outra, é preciso considerar que o facto histórico objecto de estudo tem que ser visto em conjunto com a sua liberdade.
Como o conhecimento histórico deriva da conexão dos factos, aqui está implicita e explicita a narração. Esta é a tarefa do historiador, logo história é narração. Uma narração que requer, no entanto, diferenciação. Outro aspecto intrínseco a narração é que ela se processa através de um “passado real: nada se sabe do futuro e o presente é inenarrável”. Convém ter presente também que a narração se expressa por intermédio da conexão de uma pluridade de factos onde a “razão histórica” se afirma, como é natural, como “razão narrativa”.
Deste processo narrativo assente numa base encadeada de factos está patente o “contínuo temporal”. Por força disso, quando se faz a conexão entre um presente e um passado, está-se a processar uma operação cognoscitiva designada por “síntese”. O que se pretende com este tipo de operação é estabelecer uma ligação entre “antecedentes imediatos ou distantes” e “consequentes”. Mas falar sobre “síntese” como operação cognoscitiva não basta. De antemão, é pertinente introduzir a análise como operação congnoscitiva. Tratam-se de duas operações inseparáveis, porquanto são processos de descrição e construção.  
Na esteira do expresso,  Juan Cruz Cruz (1995, p.51) destaca o seguinte:
A história (...) investiga o facto singular, enquanto original e único, inserido nas circunstâncias de espaço e tempo correspondentes: pois determina a ordem dos acontecimentos singulares, ou seja, realiza a síntese de uma pluralidade.
Por força desses traços, é de todo necessário proceder a distinção entre “síntese completa” e “síntese concreta”, na medida em que conhecimento histórico põe a nu conexões “do acontecer de uma maneira concreta”. Outro aspecto não menos importante a reter, de igual maneira, é o facto de que a “síntese histórica” tem que ter carácter projectivo, visto que um objecto do passado pode ser focado de duas maneiras: “absolutamente e conectivamente”. De resto, esta é uma das particularidades do próprio conhecimento histórico. Neste processo têm que estar  presentes, como tal, dois olhares: o retrospectivo e o prospectivo.
Por esta razão, Juan Cruz Cruz (1995, p.55), na sua reflexão a respeito do processo em referência, menciona: “Por isso, o conhecimento histórico é epilogal: para ser compreendido, todo acontecimento requer uma consideração retrospectiva; no acontecimento gravita e se assumem os acontecimentos passados, na medida em que são convertidos em possibilitações. O acontecimento presente é uma totalidade de implicações; e a explicação teórica consiste em expor as possibilidades reais do presente, que foram acontecimentos reais em seu momento.
No contexto em referência, é preciso destacar também que a narração histórica “expressa uma sequência de possibilitação que implica no exércício da liberdade e no uso das faculdades: trata-se de sequência contínua, um contínuo especial, distinto do lógico e do biológico”.

2. HISTORICIDADE
E LEIS HISTÓRICAS
É preciso notar que cada facto histórico se insere no seu ambiente concreto, cabendo ao historiador proceder a sua reconstituição à luz do passado. Ainda assim, por força da acumulação de testemunhos, a possibilidade de tornar o “conhecimento [mais claro] aumenta, o que, por sua vez, favorece em termos de “convergência até a realidade passada”.
Em boa verdade, a história é o conjunto dos factos humanos interligados, os quais podem ser narrados. Esta realidade em concatenação é a historicidade. É a historicidade ligada ao ofício do historiador. Entretanto, o lado científico da história tem a ver com o seu aspecto crítico e não com o aspecto casual. A história não tem nada a ver com a experiência quotidiana. Ela funda-se e “elabora seu conhecimento em função de um método sistemático e rigoroso”. À margem destas questões relativas ao método, é importante atender que há factores que intervêem na “elaboração técnica do curso histórico”.
 Em primeiro lugar, há que destacar a formação e educação do historiador. Assim, o conhecimento, que é algo relativo, é influenciado por vários aspectos que o tornam de certo modo dependente. Em segundo lugar, na história também se fazem sentir os “conceitos reflexos ou próprios” de um historiador. Nesta senda também devemos ter em consideração os subjectivismos do historiador e das testemunhas, porquanto esses aspectos interferem na determinação dos factos. Além disso, há aspectos que potenciam e favorecem o conhecimento histórico. Um é o interesse e a simpatia pelo passado. A vontade de conhecer e valorizar o passado facilita o processo do conhecimento histórico. Como há outros.
Outro assunto a considerar é a forma como o conhecimento histórico se forma. Por via de hipóteses que se formulam e de respostas que se obtêm, o “conhecimento histórico nasce e cresce pouco a pouco”. Ainda do ponto de vista da historiografia, a “compreensão histórica” não é a “reprodução do objecto”, mas sim a sua “composição”. Só nestas condições se obtém uma “síntese de entendimento” e se alcança a significação.
Outro assunto que não pode passar despercebido é que o método histórico permite comunicabilidade, universabilidade e ele está aberto a todos. Só nestas condições o passado histórico pode ser investigado em permanência.
Relativamente às leis históricas, a primeira constatação é que não há “um modelo absoluto ou apriorístico da história” porquanto tudo depende da liberdade humana. Mas esta liberdade só é observável por via dos factos histórios. Ainda neste domínio, outro assunto que desperta atenção é a periodização da história. O modo como se tem feito a periodização remete a história para ser entendida como um processo que pode suceder de dois modos:
1. Rectilíneo;
2. Circular.
Outra matéria não menos interessante, no contexto em análise, tem a ver com o sentido que se confere a história. Nesta óptica destaca-se “que é impossível conhecer cientificamente uma lei histórica universal que seja a razão suficiente das fases e vicissitudes históricas de todos os povos, no passado, no presente e no provir” (Juan Cruz, 1995, p. 88). Em paralelo, é preciso considerar que a “verdade da história funda-se no sólido fundamento da realidade do pretérito. E é isto que dá vida ao objecto da história onde também se encontra patente o facto contigente. Aqui também há espaço para entender que o “objecto da história não é o passado como tal: nem todo o pretérito tem história ou é “históriavel”.
Assim há que valorizar os factores influentes e de cuja dimensão social influenciam os processos históricos. Apesar disso, há espaço para considerar a “individualidade histórica” dentro de um contexto e com todas suas conexões. Alías, na vida prática, quer na modernidade quer na contemporaneidade, nós encontramos muitos exemplos que atestam a importância e o papel da “individualidade histórica”. Na história particular de cada país há várias individualidades históricas. Estas personalidades históricas foram os motores das mudanças e eles fizeram história. Logo fica díficil tecer considerações sobre o percurso histórico de um país em concreto sem que se faça menção ao papel que eles desempenharam nos seus contextos históricos.
As matérias sobre o conhecimento histórico não se resumem, no entanto, sómente a estes assuntos. Há outras que vão desde a estrutura do facto histórico à génese e ao fim da história.

CONCLUSÕES
Depois desta incursão, podemos sublinhar que a filosofia da história é uma ferramenta de trabalho e de conhecimento que nenhum historiador (ou candidato a historiador) deve prescindir. Ela fornece teorias e instrumentos da lavoura histórica os quais enriquecem o cabedal de um historiador e criam um vasto horizonte .  
A filosofia da história é um campo muito alargado. Ela surgiu no ambiente das luzes no século XVIII. E ela se foi configurando ao longo dos tempos com outras e variadas contribuições de diferentes pensadores. Desta maneira, e neste ponto, convém sempre abordar a questão na perspectiva de filosofias e teorias da história, na medida em que nos séculos XIX e XX surgiram outras interpretações e contribuições.
Os pensadores mais destacados neste domínio começam com Kant, passam por Hegel, Comte, Spengler, Marx,  Toynbee, sem esquecer outros tantos. Estamos em crer que no século XXI surgiram outras contribuições, as quais enriquecerão a filosofia da história.

 MIGUEL JÚNIOR

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