Sapiens, uma breve história da humanidade

Envie este artigo por email

OSAVLDO EUCLIDES (Escritor e professor universitário http://segundaopiniao.jor.br/)

Fotografia: Arquivo

O AUTOR
Yuval Noah Harari é doutor em História pela Universidade de Oxford, especializado em história mundial e professor da Universidade Hebraica de Jerusalém. Sua linha de pesquisa gira em torno de questões abrangentes, tais como: qual a relação entre história e biologia? Existe justiça na história? As pessoas se tornaram mais felizes com o passar do tempo? Em 2012 recebeu o prémio Polonsky por Criatividade e Originalidade em Disciplinas Humanísticas.

A PUBLICAÇÃO
O livro “Sapiens – uma breve história da humanidade”, de autoria de Yuval Noah Harari, pela editora L&PM, em Fevereiro de 2015 (a segunda edição em Agosto). Tem 428 páginas, mais outras tantas de Notas e de um índice remissivo. O livro Sapiens foi lançado originalmente em Israel, em 2011, e já foi publicado em mais quarenta países, um sucesso de vendas.

CIRCUNSTÂNCIAS
O mercado editorial tem sido inundado de publicações do tipo “uma breve história” cobrindo temas de interesse geral, tendo sido um dos primeiros o livro de Stephen Hawking Uma Breve História do Tempo. Desde então, inúmeras obras usaram a mesma abordagem.

A IMPORTÂNCIA DO LIVRO
Harari é um estudioso respeitado de História e consegue ser bastante original na sua abordagem, que é cronológica e cobre desde a pré-história, mas foge dos padrões e aposta em leitores capazes de fazer as conexões mais importantes. O autor consegue ser abrangente (nos assuntos também) e cobrir todo o calendário da actividade humana de uma forma especialmente singular.

O LIVRO
Já nas primeiras páginas, o autor explica a estrutura do livro: três importantes revoluções definiram o curso da história. A Revolução Cognitiva deu início à história, há cerca de setenta mil anos. A Revolução Agrícola acelerou o processo há 12 mil anos. A Revolução Científica, que começou há 500 anos, abre várias possibilidades, inclusive a de por um fim na história.
O livro entra nessas três grandes mudanças, a partir da análise dos fatos que marcaram cada uma e suas inúmeras e profundas implicações. O autor respeita a ordem cronológica, mas eventualmente a desrespeita, para fazer instigantes conexões. Cada uma das três revoluções terminam por marcar claramente uma nova maneira de ver e entender a trajectória humana.
Não se deve esperar um livro de história apenas. O texto passeia pela política, pela economia, pela biologia, pela ética e assim segue adentrando outros inúmeros campos. O autor não se concentra nos eventos (e personagens) mais conhecidos, aqui e ali inova com fatos impressionantes (e pouco conhecidos) para compor o contexto de uma época. A título de exemplo, temas como religião, imperialismo e dinheiro merecem especial atenção e são discutidos de uma perspectiva inédita. Não raro, uma ponta de ironia surge da leitura, e serve para mostrar de forma nítida o que antes escapou a outros autores.

BONS MOMENTOS
— Após a Revolução Cognitiva, a fofoca ajudou o Homo Sapiens a formar bandos maiores e mais estáveis. Mas até a fofoca tem seus limites. Pesquisas sociológicas demonstraram que o tamanho máximo “natural” de um grupo unido por fofoca é de cerca de 150 indivíduos. A maioria das pessoas não consegue nem conhecer intimamente, nem fofocar efectivamente sobre mais de 150 seres humanos. Ainda hoje, um limite crítico nas organizações humanas fica próximo desse número mágico.
— Toda cooperação humana em grande escala – seja um Estado moderno, uma igreja medieval, uma cidade antiga ou uma tribo arcaica – se baseia em mitos compartilhados que só existem na imaginação colectiva das pessoas…as igrejas se baseiam em mitos religiosos partilhados…os Estados se baseiam em mitos nacionais partilhados…nenhuma dessas coisas existem fora das histórias que as pessoas inventam e contam umas às outras. Não há deuses no universo, nem nações, nem dinheiro, nem direitos humanos, nem leis, nem justiça fora da imaginação colectiva dos seres humanos.
— As pessoas sabiam onde o Sol estava e esperavam ansiosas por presságios da estação chuvosa e da época de colheita, mas não sabiam que horas eram e dificilmente se importavam em saber em que ano estavam. Se um viajante perdido no tempo aparecesse em uma aldeia medieval e perguntasse a um transeunte “Em que ano estamos?”, o aldeão ficaria tão perplexo diante da pergunta quanto diante da roupa ridícula do estranho.
— À medida que os humanos usam sua capacidade para conter as forças da natureza e submeter o ecossistema a suas necessidades e seus caprichos, podem causar cada vez mais efeitos colaterais imprevistos e perigosos. É provável que estes só possam ser controlados por meio de manipulações ainda mais drásticas do ecossistema, o que resultaria em caos ainda maior.
— Então, nossos ancestrais medievais eram felizes porque encontravam sentido na vida em ilusões colectivas sobre a vida após a morte? Sim. Contanto que ninguém destruísse suas fantasias, por que não? Até onde sabemos, de um ponto de vista puramente científico, a vida humana não tem sentido algum. Os humanos são o resultado de processos evolutivos cegos que actuam sem propósito ou objectivo… qualquer significado que as pessoas atribuem à própria vida é apenas uma ilusão.
— Se a felicidade se baseia em ter sensações agradáveis, para sermos mais felizes precisamos reformular nosso sistema bioquímico. Se a felicidade se baseia em sentir que a vida tem sentido, para sermos mais felizes, precisamos nos iludir de maneira mais eficaz. Existe uma terceira alternativa?
— O acordo entre Estados, mercados e indivíduos é perturbador. O Estado e o mercado discordam quanto a seus direitos e obrigações mútuos, e os indivíduos reclamam que ambos demandam muito e provêem pouco. Em muitos casos, os indivíduos são explorados pelos mercados, e os Estados empregam seus exércitos, forças policiais e burocracias para perseguir indivíduos em vez de defendê-los. Mas é inacreditável que esse acordo funcione — ainda que de maneira imperfeita —, pois infringe inúmeras gerações de pactos sociais humanos. Milhões de anos de evolução nos projectaram para viver e pensar como membros de uma comunidade; em apenas dois séculos, nos tornamos indivíduos alienados. Nada atesta melhor o poder incrível da cultura.
CURTAS
— Você nunca convencerá um macaco a lhe dar uma banana prometendo a ele bananas ilimitadas após a morte, no céu dos macacos.
— Nossos ancestrais eliminaram os Neandertais. Eles eram similares demais para se ignorar, mas diferentes demais para se tolerar.
— Os zoólogos identificaram nos macacos um grito que significa “Cuidado! Uma Águia!”. Um grito um pouco diferente alerta “Cuidado! Um leão!”.
— Nossa linguagem evoluiu como uma forma de fofoca.
— Um grande número de estranhos pode cooperar de maneira eficaz se acreditar nos mesmos mitos.
— Os homens mostravam igual preocupação por todas as crianças, uma vez que nenhum sabia ao certo quais eram definitivamente seus filhos.
— A rede global de comércio de nossos dias se baseia em nossa confiança em entidades fictícias tais como o dólar, o Federal Reserve Bank e as marcas registadas das corporações.
— Gostamos de ver os menos favorecidos vencerem, Mas não há justiça na história.
— O rei da Inglaterra podia enriquecer, mas só roubando o rei da França. O bolo podia ser repartido de muitas formas diferentes, mas nunca ficava maior.
— Um império incapaz de receber um golpe e continuar de pé não é um império de verdade.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos