Será o ano de 1439 a data da fundação do antigo Kôngo?

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Será o ano de 1439 a data da fundação do antigo Kôngo?

Será o ano de 1439 a data da fundação do antigo Kôngo?
Será o ano de 1439 a data da fundação do antigo Kôngo?

Introdução
Há coisa que não posso deixar passar. É o caso da publicação no Jornal de Angola de 05 de Setembro de 2014, na rubrica Cultura, estipulando o ano de 1439 como uma confirmação de arqueólogos como a data da fundação do Kôngo. Desde já, permitem-me informar que não sou arqueólogo. Mas tenho a certeza que sou um bom historiador pela seriedade que levo nesta matéria. Contudo, percebo as teorias arqueológicas que reforçam a profissão de historiador. Permitem-me repetir dizer que sou um bom historiador pela seriedade, e é por isso que escrevo esta réplica à informação passada pelo órgão oficial de Angola.

Contra-argumento
É prematuro ainda avançar qualquer data de fundação do Kôngo. Os estudiosos aturados neste tema sabem da possibilidade de várias fundações, pelo menos três ou quatro. A última fundação poderá datar entre os séculos IX e X da nossa era, e ela é amplamente confirmada pela cerâmica e as instituições que o europeu encontrou no Kôngo.
A primeira fundação, que deve ser procurada na Madîmba ma Kôngo, é atestada pela própria Tradição Oral. A linguística indica a penetração dos Bantu e Njila a partir da bacia inferior de Inkisi e Kwângu para o actual território de Mbânz’a Kôngo. De acordo com vários especialistas, antropólogos e historiadores, há evidência – do ponto de vista da antropologia física das morfologias da cultura material – de uma origem Sudeste. O recente livro de Jan Vansina aporta essa evidência. Com relação às datas, a arqueologia e a linguística apontam dois séculos VII e IX.
Trata-se da penúltima (senão a última confundida com a anterior).
Mas antes destas duas origens amplamente atestadas, há uma ou duas outras origens que estão presentes na Tradição oral. Dois povos ter-se-ão confrontados em Mbânz’a Kôngo: um veio do Norte e outro (que já ocupava as terras de Mbânz’a Kôngo) veio do Sul. Os oriundos do Sul seriam os Ambûndu; os oriundos de Norte seriam povos derivados dos Teke. Até à data de hoje, não se sabe datá-las, essas duas origens. Nós tentamos fazê-lo: (i) a tese de Raphael Batsîkama (1971) é interessante, mas tentamos revê-la (Batsîkama, 2011). Os novos métodos de datação a partir das pinturas rupestres (as tonalidades pretas/cor preta obtida a partir do carbono vegetal e outras substâncias biológicas) pode de facto indicar a data da sua fabricação.
Com essa metodologia, cita-se o século I e II da nossa Era em quatro estações diferentes. As novas pesquisas esclarecem a questão da origem meridional – que certamente é a mais antiga, na memória kôngo: kuna Mbângala (Batsîkama, 2010) –. Por um lado, os proto-Njila já ocupavam a margem direita do Kwânza, onde este rio curva para o Sul ,até a bacia de Inkisi e a de Kwângu. Por outro, a arquitectura circular das moradias e recintos na parte meridional de Angola (nos Umbûndu, Herero, etc.)
caracterizam o Kôngo que os primeiros exploradores viram. As descrições antropológicas feitas pelos exploradores entre 1491 e 1710 já não são verificáveis entre os Kôngo de hoje. É preciso ir à Huíla, Namibe, Kwandu-Kubangu e mesmo Cunene para encontrar uma impressionante semelhança. A questão de datação já interessou vários estudiosos dos anos 1941 até 1986: somente depois das escavações devidamente criticadas é que seráo encontradas as datas aproximadas.
Mas até hoje pensa-se nos séculos VIII a VI antes do Cristo.
Agora, fiquei deslocado quando vi a data de 1439. Coloquei-me várias perguntas sem encontrar sérias respostas:
(1) será um objecto ou conjunto de objectos verificados em várias estações que evidenciam esta data? A presumível resposta é negativa: para datar a fundação do Kôngo, será interessante considerar a região de Madîmba ma Kôngo, o actual Mbânz’a Kôngo e a região de Noki. Ainda que sejam várias as escavações de Mbânz’a Kôngo a evidenciar essa data, é nitidamente prematuro pensar em 1439 como data da fundação; (2) de que fundação se trataria? Salvos os objectos encontrados em Kulumbûmbi e na zona da árvore Yala Nkuwu, os restos de objectos não poderiam devidamente indiciar a última fundação.
Duas razões sustentam isso: (i) a zona que começaria do edifício do Governo provincial e a fortaleza até ao supermercado Nosso Super, e da Rádio Provincial do Zaire até o bairro Álvaro Mbuta (além aeroporto), era o local onde se rezava aos ancestrais (mazûmbu), e não foi por acaso que se construiu a Sé Catedral exactamente onde estariam os restos mortais dos primeiros Ñtôtela (o primeiro seria enterrado debaixo de Yala Nkuwu, diz a lenda); (ii) desconhece-se ainda o plano habitacional ou urbanístico da fundação: locais habitados, locais frequentados ou ocupados, etc. Os objectos pertencendo às populações visitantes (locais frequentados) não poderão indicar a fundação, ao passo que os objectos dos ocupantes poderão proporcionar as datas. Só que, em ambos os casos, a Tradição apresenta um modelo da ocupação territorial: Nsûndi tufila ntu, Mbâmba tulâmbundila malu. E, seguindo este modelo e confrontando com as descrições da cidade que construiu Dom Afonso I Mvêmb’a Ñzînga, percebemos que as dimensões territoriais do “Centro Histórico de Mbânz’a Kôngo” precisa ainda de ser reapreciado (embora seja minimamente correcto).
Quando consideramos todos estes pontos, a curiosidade leva-nos a perguntar (pelo menos aos que deram essa data como sendo da fundação do Kôngo), em que base esta data foi avançada?
Será que os dados foram pormenorizadamente recolhidos e devidamente seleccionados, analisados e comparados?
Pelo tempo, podemos perceber as precipitações.
Ainda vai ser necessário fazer ciência, para fornecer um parecer técnico interessante para que os políticos discutam a classificação e a gestão dos bens classificados.
Há outra preocupação: o antigo Kôngo não pode ser o “reino mais antigo” de Angola. As escavações de Sanga, por exemplo, levam-nos a pensar na existência das Lûnda, já no século XI da nossa Era. Feti/Osi indiciam uma grande centralidade populacional sob controlo político e militar forte já nos séculos IX e XII. Alguns trabalhos fragmentários existem e evidenciam isso.
O Kôngo pode ser o país mais organizado e territorialmente imenso, mas não concordamos que seja o país/reino pré-lusitano mais antigo.

Aconselhamentos
Face à situação, propomos o seguinte:
(1) Delimitar metodologia do trabalho em três fases:
• Formulação da candidatura, obedecendo às metodologias exigentes, sem nada concluir das recolhas/escavações e evitar falácias e demagogias para cativar a atenção de quem quer seja; reunir todos os académicos e especialistas (historiadores, antropólogos e sociólogos) nesta zona para ouvi-los e criar uma plataforma para eles discutirem e comparar os dados;
• Criar condições técnico-científicas locais (laboratórios; formação de técnicos de laboratório; uma Faculdade onde haverá curso de História com especialização em Arqueologia e Museu que responda às demandas locais; etc.) que se responsabilizará por desenvolver as análises e mais pesquisas sobre Mbânz’a Kôngo;
• Criar centralidades, hotéis e infra- estruturas que permitam que a juventude tenha ocupação, e que o turismo cultural renda melhor, etc.
(2) Mapear a gestão e a rentabilização de “Centro Histórico de Mbânz’a Kôngo” como sequência à candidatura, evitando os atropelos para o desenvolvimento interno.
(3) Criar um plano estratégico entre o “Centro Histórico de Mbânz’a Kôngo” e a Presença Kôngo na Diáspora, que envolverá universidades, centros de pesquisas, relações entre cidade de Mbânz’a Kôngo e outras (São Paulo; Luisiana, Lisboa, Amesterdão, Havana, Florença, Roma, etc.) no intercâmbio cultural, socioeconómico, etc.).

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