Tráfico negreiro transatlântico: Costas de Angola infestadas de filibusteiros

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É um dos factos relevantes que pode se reter do livrinho intitulado "Escravismo no Brasil", de Mário Maestri, publicação que acaba de ser reimpressa a justo título na sua quarta remessa pela Atual Editora, em São Paulo, na sua coleção "Discutindo a Historia do Brasil".

Confecionado em 113 páginas, este guia estrutura-se numa dezena de capítulos nas quais o autor propõe apresentações sobre o mecanismo organizacional que permitia a chegada ao litoral do vasto Império sul-americano de encadeados Níger, a configuração esclavagista das cidades e dos meios rurais, as diversas formas de resistência à opressão e o conjunto de severos e até cruéis castigos.

Manual autêntico, o livrinho sugere um quadro cronológico que recapitula os principais pontos da evolução do sistema esclavagista de 1570, ano da introdução de mbika na quinzena de capitanias açucareiras até 1888 quando a Gerente Imperial promulga a Lei Áurea, que abole oficialmente a servidão.

Esta parte didática é concluída por um questionário do qual sobressai perguntas sobre os tumbeiros, os cativos ganhadores, as charqueadas e as "casas do tronco".

O guia contém alguns mapas e várias estampas que ilustram especialmente os penosos encaminhamentos caravaneiros em África, "a macabra travessia", o pesado trabalho urbano com transporte de pessoas e das águas, a configuração do espaço de engenhos açucareiros, a mineração diamantífera e "a casa da tortura". Maestri, que se doutorou na Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, confirma, comentando uma das iconografias, que os cativos nas caravanas eram vigiados pelos capangas. Em fila indiana, eles marchavam atados ao pescoço. Para ele, em Angola a corrente, corda, madeira ou bambu com que sujeitavam os prisioneiros chamava-se limbambo.

Qualifica a demorada espera de embarque de "maldito" e dá o exemplo de Luanda e Benguela.

Com efeito, documentos datados de 1756 e 1771 de uma companhia lusitana que traficava ekalangos, indicam que dos 8 854 neutralizados em seus barracões, 6, 2% teria falecido ou fugido.

Pouco mais de 1% não teria podido embarcar devido a enfermidades; tais como as aftalmias e o escorbuto, normalmente causados pela má alimentação.

Reporta que, nos fins do século XVIII, em Angola o alimento para os mbundu consistia eram o em sal, feijão, milho e peixe salgado.

Outra contrariedade no litoral da Colonia de Angola e do Reino do Congo era decorrente dos ataques dos piratas europeus, mas igualmente africanos, visivelmente com intenções de soltura dos destinados à travessia do temível kalunga.

Contra-violência

Isso foi, singularmente, notado entre 1827 e 1830 durante a forte expansão da produção cafeicultora no Brasil.

Os tumbeiros chegados do Rio de Janeiro demoravam em Angola e os corsários lhes levavam as preciosas "Pecas de Índias", os carregamentos e, até mesmo, as naus.

É assim que em 1813 o tumbeiro cubano Rozaria, que se abastecia em Angola, teve seus quase 600 kibaku usurpados por piratas norte-americanos.

Mas, em 1823, a goleta brasileira Feiticeira foi atacada no Soyo, visivelmente por grupos armados antiescravagistas solongos, no momento em que negociava nsumbi para vende-los em Pernambuco, Bahia e Rio de Janeiro.

Em Fevereiro de 1827, a escuna Estrela-do-mar, proveniente do Rio de Janeiro, desapareceu com 213 "maiombes" no embarcadoiro de Malembo, ao norte do rio Zaire.

Expedições brasileiras foram obrigadas a tomar em conta a situação de insegurança no litoral da Colónia e do Reino.

É isso que fizeram o tumbeiro Arsénia que partiu do Rio de Janeiro em Novembro de 1827 para transportar cativos em Molembo e na baia de Cabinda, e o brigue Boa Viagem, que tomou o rumo de Benguela e São Paulo de Loanda um mês depois.

O livrinho "O Escravismo no Brasil", além das suas qualidades didáticas, tem o mérito de confirmar o carácter perigoso do negócio das madeiras de ébano, sobretudo na "Cote de Angola", a maior possessão continental portuguesa em África.

Esta evolução securitária era inevitável, tendo em conta o carácter deste comércio particular cuja dinâmica é movida pela violência e contra violência.

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