Uma crítica a professores e investigadores

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Selo Njinga a Mbande

Comungando com a historiadora Alexandra Aparício, Rosa Cruz e Silva não deixou passar a ausência considerável da massa humana angolana versada nas matérias de História, Antropologia, Linguística e Sociologia, que quase não tem intervindo com tenacidade desejável e procurar propor novos rumos de investigação da História Angolana e suas consequente interpretação e actualização. "Foi notável a falta de participação de historiadores angolanos. O nosso país precisa de reafirmar a sua vontade histórica e exigir o respeito que nos é devido, porque a trajectória deste território remonta há muitos anos antes de se estabelecer as relações com a Europa, e isso requer a participação empenhada de todos", reforçou

Centenário de Aimé Césaire

A ideologia africanista do poeta da Martinica foi outra palavra de ordem do seminário, principalmente no dia 14, em que se ouviu Marc Césiare ­ filho de Aimé Césaire ­, que propôs uma actualização dos ideais de Njinga e Aimé Césaire. Mas foi Inocência Mata quem aprofundou a temática.

Esta destacou que por negritude combativa podemos destacar como a aliança proposta por Césaire entre a manifestação cultural e política e a luta contra a hegemonia eurocêntrica. A especialista advoga que, numa das suas últimas entrevistas, Césaire defendia que "enquanto haver negros sobre a terra, a negritude viverá", e continuou dizendo que "sou um grande admirador do latinos e mais ainda dos gregos, mas sei também que há os egípcios e que os gregos e os romanos devem muito ao Egipto, à Etiópia: à África."

Inocência Mata lembrou Cheikh Anta Diop e Joseph Ki-Zerbo para justificar que o combate deste poeta fora também contra o eurocentrismo, hoje um tema tão caro e refeito por estudiosos africanistas como Samir Amin.

Ainda destacou que a dialéctica de Césaire ficou marcada por sedimentar o conceito de "cultura colonial", que ele próprio define "como não sendo a cultura do colonizador nem do colonizado, mas sim um construto ideológico que oprime ambos, colonizador e colonizado".

O Arquivo Histórico Ultramarino de Portugal

Pelo rico espólio que possui sobre as relações entre Portugal e África lusófona durante o período da expansão, a participação do Instituto Ultramarino de Portugal foi fundamental para abrir possibilidades de cooperação sobre futuras investigações a documentos da administração pública colonial que poderão trazer um retrato mais acertado e consequentemente novas perspectivas de alguns episódios basilares da História de Angola.

Carlos Almeida, historiador português, frisou a importância particular desta experiencia e enumerou várias razões: "este seminário é sobretudo relevante para os historiadores porque a história aqui é presente, e verificamos sempre ­ diante da realidade ­ as deduções muitas vezes feitas a partir de manuscritos da época, como também o motivo de partilha de conhecimento e confronto geral às fontes que até então quase nunca eram questionadas. Também pelo debate ter sido extensivo aos estudantes e reconhecer esta história de Njinga como parte da identidade actual dos angolanos é um recurso para a construção antropológica do homem angolano."

Por outro lado, o historiador asseverou ser uma documentação de enorme riqueza e que os investigadores angolanos podem consultar para confrontar fontes e estudar seguramente o passado como forma de garantir uma formação estável do futuro, e cita como exemplo uma recente exposição que aconteceu neste fim de ano em Lisboa sobre documentos do Gabinete do Urbanismo Colonial, onde consta quase toda a informação da construção arquitectónica das colónias, com grande ênfase para Angola.

Homenagem na UNESCO em Paris

Os 350 anos da morte da rainha Njinga foram assinalados dia 17, terça-feira à noite, em Paris na sede da UNESCO. Os palestrantes foram o embaixador de Angola junto da UNESCO, Sita José, a Directora geral da Unesco, Irina Bokova, a ministra francesa George Pau Langevin e o secretário de Estado angolano da cultura, Cornélio Caley.

A UNESCO enquadrou esta homanagem no projeto "Mulheres na História de África", que destaca uma selecção de figuras femininas históricas do continente ou de ascendência africana. Esta selecção de figuras históricas mostra que, historicamente, as mulheres têm se destacado na história do continente em áreas tão diversas como a política (Gisèle Rabesahala), diplomacia e resistência à colonização (Nzinga Mbandi), o defesa dos direitos das mulheres (Funmilayo Ransome- Kuti) ou ambientais (Wangari Maathai) .

Lê-se no sítio da UNESCO que através desta iniciativa, enfatizando a educação, a formação académica e as principais conquistas dessas mulheres excepcionais, a UNESCO deseja destacar a sua herança e convocar mais pesquisas sobre o papel das mulheres na história africana.

A Delegação Permanente de Angola junto da UNESCO havia solicitado que a homenagem em 2013 se relacionasse com a celebração do 350 º aniversário da morte da rainha Njinga a Mbande Ngola Kiluage (reino de Matamba ­ Ngongo), figuraemblemática da luta contra a escravidão e das mulheres no poder em África (1583-1663).

No século XVI na África, a rainha Njinga era uma mulher educada, culta , que Falava a sua língua nativa, bem como a portuguesa. Hábil diplomata , ela negociou com os holandeses e portugueses, para manter a paz e a integridade territorial do seu reino.

Prestar homenagem à Rainha de Angola é render homenagem a todas as mulheres africanas. É mostrar a importância da educação e da cultura para o diálogo entre os povos e civilizações, reabrir as páginas da História Geral África e destacar o papel das mulheres neste continente.

A história tem em Njinga a Mbandi a imagem de uma mulher com poder, forte, independente, que permanece na memória dos africanos e da diáspora, uma figura-chave na luta contra a escravidão e resistência contra a ocupação. No imaginário popular, sempre será "aquela que nunca foi derrotada".

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