306º aniversário da morte de Kimpa Vita. Novo romance histórico publicado em Paris

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A capital francesa registou, há dias, o lançamento de mais uma obra literária sobre a célebre heroína africana, trabalho do médico congolês, da margem esquerda, Magloire Mpembi Nkosi, patenteada nas edições Anibwe. A apresentação deste livro enquadrou-se, na comemoração da efeméride marcando a morte na fogueira, vítima da Inquisição, no dia 2 de Julho de 1706, em Evolulu, nos arredores de Mbanza Kongo, atual capital da Província angolana do Zaire.

Selado em 286 páginas, "Kimpa Vita, a ilha de Ne Kongo", retoma, numa reconstituição perto da realidade histórica, com a cobertura da capa propondo um novo pseudo - retrato da "Apóstata", a invulgar história da jovem cristã que sacudiu o Reino, no início do seculo XVIII.

O autor teve três trunfos maiores na redação da sua epopeia, as suas ligações linguísticas e antropológicas kongo, a sua fé católica e a sua sólida formação de neuro-psico-patologista.

Começa a sua narração restituindo as condições políticas, sociais e religiosas do surgimento da "Iniciada de Marimba do Kongo", como líder sagrada.

Mpembi confirma a verdadeira trama do surgimento deste cisma, constituída pelo conjunto de efeitos contraproducentes da desenfreada organização do tráfico de escravos na Federação.

Com efeito, o negócio de madeira de ébano kongo provocou, associado à severa derrota de Ambuíla, em Outubro de 1665, uma crise política grave que acabou, quase, com o equilíbrio federativo.

A terra kongo enfrentava rivalidades políticas internas permanentes, fome, epidemia, etc. Assim, o "País da Pantera" não será, doravante, o mesmo.

Dona Beatriz imploraria, então, a restauração do Reino com o seu famoso grito de Yari, Yari (kiadi), (misericórdia) e dotou-se dos meios para o seu projeto, liderando o movimento dos Antoninos, do nome de Santo António (Santo da Fertilidade e da Abundância), reincarnado nela.

LINHAS TEÓLOGICAS

É desencadeada uma verdadeira ação de inculturação estruturante, que se consubstanciou na tradução das preces em kikongo, na inserção de vários suportes organológicos e coreografias tradicionais, na afirmação do princípio do destino reservado, por excelência, no céu, aos africanos, e que aí haviam já santos negros, a inversão para o Planalto de Pembacassi da terra natal do Cristo e a sua origem melanoderme.

Cristã plenamente convicta, a chefe de fila dos Ntoni decidiu, ela própria, como a Virgem Maria, ter um ilho que devia ser uma réplica negra de Jesus Cristo. O tenor da Salve Regina a firmava que a mbanza de Nimi a Lukeni era a nova Terra Prometida, sítio, por excelência, de indulgência, preeminência espiritual, afeto ao próximo, generosidade, solidariedade, etc.

Por isso, ela institui, para todos os seus fiéis, o uso à volta da cabeça da casca da árvore nsanda (Ficus psicolaga), símbolo de abertura e boas vindas na neo-comunidade religiosa.

A Nova Messias introduziu, igualmente, vários ritos típicos das crenças africanas (a prática da medicina tradicional, a entrada em transes, a vivência em promiscuidade, a veneração da sua pessoa e outros).

O colaborador do Instituto de Investigação "Saúde e Sociedade" da Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, assenta, também, no seu romance, a viva controvérsia entre os padres italianos Bernardo da Gallo e Lorenzo di Lucca e a jovem profetiza sobre o generalizado sincretismo que se notava, no Reino e nas regiões adjacentes, na utilização das emblemáticas cruzes (kulunsi), nos nkisi do país dos Nzinga.

O romancista de Kinshasa, manifestamente influenciado pela firme reapropriação da figura da "Herética" pela corajosa Igreja congolesa, que elevou um monumento em sua homenagem na sintomática localidade de Kisantu, no Baixo- Congo, levanta, paralelemente, a insistente questão colocada por Da Gallo, prelado do século XVII, sobre a pouca seriedade da conduta da ação neocristã de uma mulher.

Insiste sobre as novas linhas teológicas que a "Enviada de Deus" traçou e considera-a, tendo em conta a forte influência stressante das condições históricas do Reino nos séculos XVII, como um produto variante da primeira evangelização que foi aí imposta.

Ela encarna, portanto, o culminar de mais de um século de conversões, doutrinação, edificação de igrejas e publicação de versões em kikongo das Santas Escritas e generalização do estudo bíblico.

Como milhares dos seus compatriotas, a "Lukadilu lua Nzambi" foi seduzida pela coincidência dos humanismos kongo e cristão. Mpembi Nkosi usa do quadro literário, que ele cria, para exaltar a figura da Martirizada do cacimbo de 1706, como uma das precursoras do desenvolvimento e a firmação da Igreja africana.

O médico, com este re-exame histórico da gesta trágica de Dona Beatriz do Kongo, sublinha, em filigrana, a força e a incontornabilidade da diversidade das culturas do mundo.

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