A ADULTA QUESTÃO DA LITERATURA INFANTIL EM ANGOLA

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A criança será aquela constituída pelo universo de livros.

Sociedade deve prestar maior atenção às crianças e a sua educação Fotografia: Arquivo

1- O presente artigo surge, em primeiro lugar, danossa vontade de contribuirsignificativamente para o aumento da produção de artigos críticosno domínio da Literatura produzida para Criança; em segundo lugar, da obrigação de apresentarmos a nossa visão crítica, resultante da preocupação que nos tem afligido após a leitura de certas obras destinadas às crianças,colocadas nomercado; e por fim, da necessidade de imparcialidade que deve existir no âmbito da crítica literária, porquanto, a pouca fortuna crítica existente, a respeito desse segmento da Literatura, é produzida pelos cultores desse género.
O título «A Adulta Questão da Literatura Infantil» configura-se como uma chamada de atenção, primeiramente aos articuladores desse tipo de discurso, que nem sempre respeitam as particularidades das crianças e produzem textos inapropriados para este nível etário, catalogando-os como «Literatura Infantil»; aos pais que se dedicam a compra desses livros, sem definir padrões de excelência, compram livros inadequados para os seus filhos; bem como a todo o país, pois, educar a criança de hoje é salvaguardar o futuro, constituindo-se assim, como uma questão que afecta um todo.
Tratando-se dum tema transversal, como fundamentação teórica, buscámos, naturalmente, algumas bases,no domínio da teoria e critica literárias, em obras e artigos publicados por vários estudiosos, maioritariamente estrangeiros, pelo facto de, em Angola, em matéria de crítica literária, a respeito dessa modalidade de escrita, quase nada existir. Buscámos de igual modo, como fontes, alguns artigos relacionados à psicologia, história, linguística e não deixámos de apresentar a nossa visão sobre este fenómeno.

2- A expressão Literatura Infantil, constituída por um substantivo (Literatura) e por um adjectivo (infantil) nem sempre costuma a reunir consenso. Tal discussão deve-se,provavelmente, ao facto de o significado básico ou primário do adjectivo «infantil», derivar do latim infant?lis, remetendo, do ponto de vista ontológico, segundoFIGUEIREDO (1996), para lexemas como «ingénuo» e «inocente», quando, na verdade, para se escrever para criança requer-se uma consciência estética bastante apurada, exigindo-se mesmo algum conhecimento de psicologia infantil. Nesta sede, TAVARES (2010) diz que «o adjectivo infantil, lido pejorativamente, pode fazer pensar numa produção de qualidade inferior ao que normalmente se espera da literatura, o público a que se destina e até mesmo as suas origens e principais características.»No entanto, o seu significado secundário remete-nos, segundo o Dicionário online de Língua Portuguesa,«àquilo que pertence ou que diz respeito à criança». Assim sendo, falar-se de Literatura Infantil, ou de Literatura para Criança torna-se uma questão opcional. Ainda assim, nós optámos a sequência sintagmática «Literatura para Criança» por se nos apresentar como a menos ambígua.
O escritor que se dedica a escrever para criança tem de ser criança no momento da sua produção artística, pois que,as manifestações psíquicas da criança, suas características cognitivas, físicas, linguísticas, emocionais, sociais, entre outras são duma complexidade, que não se pode encarar este fenómeno com simples olhar. A designação «Literatura para Criança» não surge em oposição a uma «grande literatura», nem se configura como uma forma menor de se fazer Literatura; constitui-se, sim, como a representação dum sistema semiótico específico que prevê o estatuto etário do possível leitor, devendo sempre respeitar as suas possibilidades e limites. Aqui reside o carácter dicotómico desse específico fenómeno: arte ou uma ferramenta de auxílio à pedagogia?
Literatura infantil é, antes de tudo, literatura; ou melhor,á arte: fenómenode criatividade que representa omundo,o homem, a vida, através da palavra. Funde ossonhos ea vida prática, o imaginário e o real, os ideaise suaPossível/impossível realização... (COELHO, 2000,p. 9)
Ela é, antes de tudo, «literatura» strictu sensu. Uma literatura com uma função estético-pedagógica que apela frequentemente ao fantástico para poder produzir catarse ao seu destinatário imediato.No entanto, o que impera é a sua dimensãoutilitária que transforma a obra num instrumento pedagógico para o leitor implícito.O escritor aqui não surge como um ser livre e autónomo no plano da criação, está sujeito a regras implícitas.
A grande poetisa brasileira, Cecília Meireles (1951), fundadora da primeira biblioteca infantil do Brasil (1934),citada por Ana Maria Pereira Vieira Barbosa (2009), escreve:
«São as crianças que delimitam o conceito comas suas preferências. Costuma-se classificar como Literatura Infantil o que para elas seescreve. Seria mais acertado classificar o que elas lêem com utilidade e prazer… Maisdo que literatura infantil existem “livros para crianças”».(MEIRELES, 1951)
Se eventualmente existir um momento ideal para a iniciação literária, será indubitavelmente o da primeira infância; período ao longo do qual, a criança, com ajuda dos pais, ou de outros intervenientes direitos que devem facilitar o seu desenvolvimento,sem dominar ainda a linguagem verbal, desde que estes criem as devidas condições, pode já começar estabelecer vínculos com o livro. Porém é quase que surreal falar-se disso num país em que os adultos, a grande maioria, nem se quer desenvolveram o hábito pela leitura. Os pais não têm tempo para contar o que se pode designar por «estorinhas de berço» e os avós já não reúnem os netos em quintais para contarem as narrativas folclóricas dos povos angolanos e eventualmente doutros povos.

3- No âmbito da historiografia literária, se nos ativermos ao argumento de Aguiar e Silva, segundo o qual Literatura «é arte verbal» e como tal o fenómeno a que designamos por Literatura Oral é tecnicamente válido, podemos afirmar que a Literatura para Criança não começa no século XVIII,conforme se constata nosmais variados manuais e artigos afins. Se para Cândido (1989, p.112), «Literatura são todas as criações de toque poético, ficcional ou dramático em todos os níveis de uma sociedade; em todos os tipos de cultura, desde o que chamamos de folclore, lenda, chiste, e até as formas mais complexas e difíceis da produção escrita das grandes civilizações», logo as produções orais devem ser levadas em conta.

A Literatura para Crianças urge provavelmente da necessidade de instrução que o ser humano acarreta,desde os tempos mais remotos. Tal facto pode se comprovar, se nos ativermos à classificação apresentada por Heli Chatelain, citado por Duarte B. (s /d, pag. 28), a-propósito da compartimentação e classificação nativa da literatura tradicional angolana, informa-nos que «Mi-sendu são as narrativas do domínio comum, se repetem e ensinam às crianças e se relembram nas reuniões colectivas» em oposição as«Ma-Lunda que são consideradas segredos do estado e os plebeus apenas conhecem pequenos trechos do sagrado tesouro das classes dominantes»(idem:pag.25). Se antes do século XVIII, na Europa e em outras partes do mundo, não havia essa preocupação de estratificação ou adequação do conteúdo literário ao nível etário do leitor, permitindo-se a criança letrada manter contacto com obras com temáticas e conteúdos impróprios, fica evidente que, em África, sempre houve essa necessidade. No entanto, não se pode negar que, é na Europa do século XVIII que este género ganha outros contornos,numa altura em que se começava os primeiros registos gráficos da oratura, estando a sua evolução vinculada «a um processo de transformação na ordem social, que apresenta como ponto central a ascensão da classe burguesa e o estabelecimento do modo burguês de viver como dominante» (PEREIRA s /d). E antes da afirmação social da burguesia, informa-nos ZIBERMAN (1981, p. 15),que «inexistia umaconsideração especial com a infância. Esta faixa etária não era percebidacomo um tempo diferente, nem o mundo da criança como um espaçoseparado. Pequenos e grandes compartilhavam dos mesmos eventos,porém nenhum laço amoroso especial os aproximava.» No entanto, é interessante dizer que tal valorização começa a ganhar corpo a partir dum processo iniciado durante o classicismo francês (XVII) com a publicação esporádica de certas obras que viriam a ser mais tarde, de acordo com que afirmam LAJOLO e ZILBERMAN (1984) «classificadas como literatura para crianças: Fábulas, de La Fontaine, As aventuras de Telêmaco, de Fénelon e os Contos da Mamãe Gansa, de Charles Perrault».Tal abertura, provavelmente, deveu-se a um conjunto de eventos conjugados que ocorreram na Europa no decurso do século XVIII, dentre os quais o iluminismo, a Revolução Francesa e a Revolução Industrial. E nesta sede, é importante destacar os ideais filosóficos do iluminismo (VII e XVIII) que, segundo Ubali (s/d), «questionava a autoridade e a tradição e buscava com entusiasmo estudar as novas ciências», bem como o advento da Revolução Francesa e suas propostas revolucionárias.
Charles Perrault (1628 – 1703), escritor parisiense, considerado pai da literatura infantil, foi quem estabeleceu as bases para o género dos contos de fadas que conhecemos hoje. Foi o autor de clássicos como Gato de Botas, Chapeuzinho Vermelho, A Bela Adormecida, Barba Azul e O Pequeno Polegar, que, segundo informa Nelly Coelho, eram «todos originários dos antiquíssimos lais ou dos romances céltico-bretões e de narrativas originais indianas, que, com o tempo, transformações e fusões com os textos de outras fontes, já haviam perdido seus significados originais».
Servindo-se provavelmente das mesmas fontes que Charles Perroult, surgem Jacob Grimm (1785-1863) e Wilhelm Grimm (1786-1859), alemães, também tidos como precursores desse segmento da literatura. Os contos dos Grimm mais conhecidos pelos angolanos, não pela obra escrita, mas pela sua adaptação ao cinema, repetidamente exibida pela Televisão Pública de Angola são: «A bela adormecida», «Os sete anões e a Branca de Neve» e «O chapeuzinho vermelho».
Fica evidente que, muitos dos contos, adaptados pelo francês e pelos irmãos alemães, são os mesmos, apresentandoapenas algumas diferenças. Tal facto deve-se a força da tradição oral e a sua flexibilidade em termos de preservação dos contos. Quer Perroult, quer os Grimm serviram-se dos contos maravilhosos que se iam divulgando de espaço em espaço, de tempo em tempo pela Europa fora, numa altura em que, historicamente,começou a haver uma maior preocupação com o registo de textos de tradição oral.
A Literatura desenvolvida por Perroult, pelos irmãos Grimm e por autorestidos de igual modo como clássicos mundial,como é o caso do dinamarquês Hans Christian Andersen, autor de o «Patinho Feio»,entre outros autores, não podem surgir, de maneira nenhuma, no âmbito da «Classificação Indicativa», a não ser por um equívoco conceptual, como obras para crianças. Para melhor compreensão, faz-se imprescindível que se distinga a literatura para a criança do segmento literatura infanto-jovenil.A expressão Infanto-jovenil, segundo o dicionário online de Língua Portuguesa, refere-se, ao mesmo tempo, ao «período da infância, da adolescência e à juventude». Em vista disso, pela quantidade de informação estético-semântica,a literatura infanto-juvenil será o segmento da literatura que se dedicará especialmente às crianças com um certo domínio da leitura e com capacidade de interpretação desenvolvidas; aos adolescentes e jovens; ao passo que a Literatura para Criança será aquela constituída pelo universo de livros destinados àscrianças,geralmente dos dois aos seis anos, dependendo das suas características psico-físicas, sendo quase sempre constituídas de poucas palavras,podendo possuirimagensou grafias muito coloridas.
Já havia em Perroult alguma preocupação em termos de distinção entre o conteúdo para as crianças e para adultos. O francês editava as narrativas folclóricas, retirando as passagens obscenas de conteúdo incestuoso. Todavia, segundo Coelho (1998), no princípio, o trabalho de adaptação, por Perrault, não foi pensado com intenções de criar uma literatura destinada à criança. Apenas com a publicação dos Contos da mãe gansa (1697), é que eventualmente começou a ter tal preocupação.
4- Em Angola, na fase embrionária desse géneroliterário, enquanto texto escrito definido, os seus autores optaram por um tipo de literatura fabulista, motivada pela «Tradição Oral», porquanto Angola possui um vasto repertório de contos populares do qual os autores buscavam inspiração para a sua produção. Com o fenómeno da aculturação, provocado pelo surgimento do macro-fenómeno globalização, bem como a automatização da indústria cinematográfica que a dada altura começou a adaptar os clássicos da literatura para criança e outros factores não menos importantes como à entrada no pais de obras literárias com o substrato ocidental, começou a haver paulatinamente um desligamento com a tradição oral, que não só afectou esse tipo de produção, como também toda a produção literária dum modo geral. Mudaram-se os tempos, mudaram-se os leitores. Produzir-se para as crianças de hoje torna-se um desafio a todos os níveis. No entanto, tal mutação não se verifica em todos. Há ainda aqueles que continuam a recorrer à oratura para a concretização da sua arte.
Os precursores desse percurso da escrita de «estórias»para criança, segundo Lima (2012) são, «nomeadamente, Dario de Melo, Octaviano Correia, Maria Eugénia Neto, Gabriela Antunes, Rosalina Pombal, Cremilda de Lima e Zaida Dáskalos».
O Prémio literário «Jardim do Livro Infantil», o Concurso Caxinde do Conto infantil, o Prémio literário «Quem me dera ser onda» O Prémio literário «dezasseis de Junho», bem como a atribuição do Prémio Nacional de Cultura, que raramente será entregue aos cultores desse género por diversos motivos, são os incentivos que os escritores desse segmento da literatura têm para continuarem a manter viva as chamas desse género.
Cremilda de Lima, vencedora do Prémio Nacional de Cultura e Arte 2016, Categoria Literatura, destaca-se da plêiade de escritores que se dedicam a escrever esse tipo de literatura, não só pela continuidade e pela persistência, como também pela qualidade e pelo compromisso para com este género, menosprezado, segundo a maioria dos seus autores. Maria Cremilda Martins Fernandes Alves de Lima nasceu em Luanda, a 25 de Março de 1940. Tem publicada várias obras, dentre as quais destacam-se “O balão vermelho”, “Mussulo uma Ilha Encantada”, “A kianda e o barquinho de Fuxi”, “O Maboque Mágico e Outras Estórias”, ”A múcua que baloiçava ao vento” e o ”O tambarino dourado”, “Baia das pipas” e um Cd de conto infantil Angolano.
De igual modo, nesta senda de excelência, não podemos deixar de destacar os contributos de Maria Celestina Fernandes, embora nem sempre fiel ao género, e nem se lhe deve obrigar a sê-lo,a escritoraé uma das vozes mais autoriza no que toca esse género e tem participado de algumas conferências internacionais.Tempublicadoas obras«A borboleta cor de ouro», UEA, 1990; «Kalimba», INALD, 1992; «A árvore dos gingongos», Edições Margem. 1993; «A rainha tartaruga», INALD, 1997;«A filha do soba», Nzila, 2001; «O presente», Chá de Caxinde, 2002; «A estrela que sorri», UEA, 2005.«É preciso prevenir», UEA, 2006;«As três aventureiras no parque e a joaninha», UEA, 2006;«União Arco-Íris», INALD, 2006;Colectânea de contos, INALD, 2006; Retalhos da vida, INALD, 1992; Poemas, UEA, 1995; «O meu canto», UEA, 2004; «Os panos brancos», UEA, 2004;«A Muxiluanda», Chá de Caxinde, 2008. No entanto, apesar dessa ambivalência, é na Literatura para a Criança em que a escritora, que nasceu na província da Huila, se destaca, tendo mesmo vencido o Prémio Literário Jardim do Livro Infantil, 2010; o Prémio Caxinde do Conto Infantil, 2012 e o Prémio Excelência Literária (Troféu Corujão das Letras), 2015.
A partir de 2000 surgiram novos autores no limitado mundo da literatura infantil e contam com algumas das obras assinaladas, são eles Yola Castro ("A Borboleta Colorida" -2000, "O Menino Pescador-2006"), Jonh Bela ("A Canção Mágica" - 2001, "Nzambi o Rei Sou Eu" - 2008), Ondjaki ("Yanari a Menina das Cinco Tranças- 2002"), Kanguimbo Ananás ("O Avô Sabalo-2006"; Soba Kangeiya e a Palavra -2010), Sendi Baptista (Cori: A tartaruga em Perigo- 2015).
Dentre os novíssimos, vamos destacar «O Nosso Natal»de Rosa Soarescom ilustrações de Inês Melina., publicado em Dezembro desse ano.O livro narra as aventuras dos gémeos Kiesse e Kiamyque embarcam no que se pode designar por odisseia natalícia, nodecurso da qual aprendem que o amor, a honestidade e a solidariedade devem ser praticados no dia-a-dia e não apenas em época de Natal. Rosa, seguramente, tendo noção do carácterpedagógico desse segmento da literatura, traz uma obra com o condão de despertar a consciência das crianças e ensiná-las a aplicar práticas solidárias, de respeito e de amor ao próximo todos os dias. Segundo informa Fernandes (2008) «dentro do universo literário, a poesia infantil tem sido muito pouco cultivada. Apenas Manuel Rui e Maria Celestina Fernandes têm livros inteiramente dedicados à poesia infantil, "O Assalto" - 1979 e "A Estrela que Sorri - (2005, UEA)». De lá para cá, torna-se importante realçar que mais outros casos raros de publicação de obras de poesia para criança foram publicados, dentre as quais vamos destacar a obra «Galáxia de Sorrisos» de Denise Kangandala, com ilustração de Abraão Ebo, publicada em 2012.
Acreditamos ser paradoxal, falar-se de Internacionalização da nossa literatura para criança, ou infanto-juvenil, quando ela, apesar de alguma idade, não atingiu ainda uma dimensão nacional. Pese embora os próprios escritores desprendam algum esforço,para poderem ver publicadas as suas obras fora do espaço geográfico Luanda, grande parte desses livros fica na capital, nas mãos das crianças das Ingombotas, Maianga, Talatona, Patriota, Kilamba, Sequele e nas demais regiões urbanas; outros ficam nas livrarias, a serem consumidos pela poeira, restando um ou outro livro para alguns meninos das várias periferias que existem por aqui.Mas ainda assim, torna-se importante, nesta sede de tentativa de internacionalização, destacar as obras «A colher e o génio do canavial», de Cremilda de Lima, que foi traduzido para sérvio e apresentado na 56ª edição da Feira do Livro de Belgrado em 2011; os livros «Junito, Vovô Jujú e o arco-íris» da escritora Paula Russa e «As duas amigas» de Cássia do Carmo, traduzidos para hebraico e apresentados em Israel, sendo que também foram traduzidos para a língua inglesa.No entanto, os maiores destaques vão para José Eduardo Agualusa com «O Filho do Vento (2006)» e «Nweti e o Mar: exercícios para sonhar sereias» (2012); Ondjaki, com «Ynari - a menina das cinco tranças» (2010) e «O Leão e o Coelho Saltitão» (2009) e Zetho Cunha Gonçalves com «Debaixo do Arco-Íris não passa Ninguém» (2006) e «A Vassoura do Ar Encantado» (2012) – com o mesmo viés dos precursores, sempre inspirando-se na tradição oral tem conquistado fundamentalmente o mercadobrasileiro e português. Tal facto advém de diversas razões, dentre as quais, pode-se-lhes acusar a qualidade que lhes é reconhecida e o facto de residirem na diáspora há algum tempo.
Não sendo o nosso país um campo fértil no domínio da crítica literária, muitas obras, por desconhecimento do conhecimento, ou por despreocupação teórica, foram e são enquadradas no restrito campo da literatura para Criança. Parte desse acervo de livros apresentados como Literatura para criança denotam sérios problemas taxonómico-conceptual.Exemplo dissoseriam as obras «E na Floresta os Bichos Falaram», Prémio de Honra da Comissão Cultural da então RDA para a UNESCO (1977) - Leipzig e recentemente reeditada nos 11 clássicos da Literatura para Crianças, da escritora angolana Maria Eugénia. Uma obra com uma linguagem, nos dias de hoje, super elevada, que levaria até mesmo um leitor adulto a consultar o dicionário algumas vezes e a parar para interpretar algumas metáforas, com todo o relativismo que se lhe deve atribuir, herméticas. «Conciliábulo, embrenhado, cataclismo, labaredas» são algumas das muitas palavras rebuscadas que podem ser encontradas numa obra que faz parte da «1ª colecção dos 11 clássicos da Literatura Infantil».Estruturas complexas como «O seio da terra era agitado por grandes convulsões; ela fendia-se ao peso dos grandes glaciares, formando-se depressões enormes que os mares e oceanos viriam a ocupar» não estão ao nível do leitor comum.
Não fica de fora desse leque de mau enquadramento a obra "A Minha Baratinha", da escritora Ngonguita Diogo que em 24 páginas «retrata as repercussões negativas da problemática dos danos causados à saúde pelos insectos domésticos, que reclamam o seu direito de viver entre os humanos.» No entanto, apresenta-nos um enredo forte que nos remete a convivência sadia entre um menino de nome Geovanni e uma barata. O menino consegue interagir por via da fala e do toque com o insecto nefasto e cuida-o como se dum animal de estimação se tratasse. A sua mãe coloca no lixo a caixa de fósforo,dentro da qual este preserva a sua baratinha e o miúdo põe-se a chorar amargamente ao chegar da escola e verificar o sucedido. No entanto a sua felicidade retorna ao descobrir que a mãe condescendeu e deixou ficar a sua caixinha na cabeceira. Eis que chega o técnico de desinfestação e começa com o que se pode designar por «Tortura Psicológica» com o menino.O problema surge quando se coloca uma barata como um insecto de estimação e se termina a narrativa de forma psico-dramática. Coloca-se aqui uma questão: Não devem as obras para criança terminar com um final feliz?
Percebe-se que houve alguma pressa em terminar a diegese, facto denunciado pela mudança drástica que se opera sem uma sequência de narrativa implícita entre a página 22 e 23. Outrossim, acreditamos que a obra literária pode ser um dos principais instrumentos na luta dos resgates de valores cívicos e culturais, por isso achamos fastidioso colocar-se imagens do Barcelona na ilustração, quando se tem um número considerável de equipas de futebol. Estaríamos a ajudar a criança a respeitar os símbolos nacionais?
Ao lermos «Regina», obra de Fátima Fernandes, com ilustração de Altino Chindele, pese embora seja a protagonista uma criança de quatro anos a caminhar para os cinco; no âmbito da recepção literária, verificamos que os resultados poderão ser adversos ao principal desígnio da Literatura para Criança (educar), na medida em que a obra configura-se mais como um livro que se destina a educar os pais na complexa relaçãoque desenvolvem com os seus filhos, sendo o leitor implícito a criança. «Regina» nasce duma conversa mantida entre a autora e a sua filha, enquanto se dirigiam à creche. Segundo a autora, a conversa girava em torno do conceito de «rebeldia». E é essa «rebeldia», natural nessa fase etária, decorrentes de factores psico-naturais como a dificuldade de interiorizar as regras de socialização da conduta, o egocentrismo, a incapacidade em aceitar as críticas, a inconsistência nas suas actividades, a espontaneidade que a leva a actuar e a falar sem pensar entre outros factores, que compõe os traços psicológicos da personagem Regina. Poderá não ser o melhor exemplo para as outras crianças, na medida em que, nas palavras de Aristóteles, a capacidade de «imitar é congénita ao homem (e nisso se difere dos outros animais, por imitação aprende as primeiras noções) e os homens comprazem-se no imitado», apresentando-se assim, as crianças, como os seres mais vulneráveis, pela sua incapacidade em distinguir o bem e o mal. Lê-se em Regina:
«- Regina, acorda, vamos a escola!»
«- Oh mãe, estás a estragar o meu sono de beleza!»
O diálogo supracitado aparece na página nove e vem acompanhado de imagens: Regina, cheia de sono, acaba de dar as costas à mãe que simplesmente ergue os braços, mostrando as palmas da mão, com o queijo caído, como que a dizer em gestos «o que faço com essa menina?», demonstrando bastante pacifismo para com a pequena. No entanto, a mãe (pag.10), sente-se comprometida quando a filha lhe dá uma lição de boas maneiras, ensinando-lhe que não se deve gritar com as crianças. Não está em questão nesse estudo a qualidade da obra. É uma obra de qualidade, mas colocamos reticências se poderá servir de «melhor amigo para criança».
Ainda nesta sede, Fernandes (2008), sobre a questão da linguagem utilizada, em "A Caixa", de Manuel Rui, o primeiro livro supostamente para crianças, escrito após a independência, informa que«sem atender às regras gramaticais da língua portuguesa, houve algum cepticismo por parte de pessoas ligadas ao ensino, questionando se seria aconselhável escrever daquele modo para as crianças que estavam em fase de aprendizado da língua portuguesa, a língua oficial adoptada para o ensino».Pacoal Machombe José, ao concluir o seu trabalho intitulado «Análise do Romance Quem Me dera ser Onda» informa:
Ao longo da análise em torno da crítica social em «Quem me dera ser onda» verificamos que aparentemente era uma história infantil, porque as personagens principais eram duas crianças e um animal - um porco. JOSÉ (s/d)
Pergunta-se-lhe: O que faz de uma obra Literatura para Criança?
5- Em suma,é importante referir, que os problemas que ora expomos aqui, a respeito de algumas obras, aqui apresentadas, não se tratamsobre o que é literatura e o que não é literatura. E sim sobre taxonomia e sobre aralação entre a obra e o estatuto etário do leitor. Porque quando se trata de escrever para criança o discurso tem de ser o mais cauteloso possível em termos de linguagem e conteúdos. Outrossim, a obra deve ser acompanhada de ilustrações pitorescas e o conteúdo deve ser condensado. É importante, parafraseando Jorge Macedo (1989),que os escritores percebam a diferença entre «escrever sobre criança e escrever para criança» e a Literatura para a Criança não pode ser o subterfúgio de escritores que não se realizaram na poesia e em outros géneros para adultos.
HÉLDER SIMBAD

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