A angolanidade poética de Alexandre Dáskalos

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O poeta e médico veterinário Alexandre Dáskalos, se fosse vivo, completaria no passado dia 26 de Janeiro 91 anos de idade.

A angolanidade poética de Alexandre Dáskalos
Alexandre Dáskalos

O autor. De seu nome completo Alexandre Mendonça de Oliveira Dáskalos nasceu na cidade do Huambo, na então antiga Nova Lisboa , a 26 de Janeiro de 1924. Foi médico veterinário de profissão e trabalhou como assistente do Laboratório Central de Patologia Veterinária em Nova Lisboa.
Nos anos 40/50 fez parte do círculo da Geração da Mensagem da literatura angolana que evoluiu em Benguela e onde pontificavam os poetas Alda Lara e Aires de Almeida Santos, sem prejuízo de poetisa do seu irmão Sócrates Dáskalos e Alda Lara, (esta, inquieta poetisa, que se questionava que com o andar do tempo vamos ver quem é que faz a verdadeira poesia angolana? Pergunta a que a história já se encarregou de responder de forma bem vincada).
Segundo reza a sua biografia, Alexandre Dáskalos “Desde muito jovem adoptou posições anticolonialistas“ , sendo que, em 1941, funda com A. Almeida Santos e Américo de Carvalho e outros correligionários seus, a Organização Socialista de Angola, numa manifesta postura de ruptura política com o “status quo” traduzido no sistema de dominação colonial. No ano seguinte foram detidos pelas autoridades portuguesas, sob acusação de subversão da ordem colonial. Nestas circunstâncias, foram aprisionados em Benguela, foram depois transferidos para Luanda, gramando nos calabouços de São Paulo, em Luanda. Durante dois anos, de 1942 a 1943, pagaram caro a factura, pela ousadia revolucionária da luta clandestina, em plena época da segunda Guerra Mundial, corrente propulsora que vai marcar o engajamento cultural e político da sua geração, em torno do movimento independentista, que sacudia o 3º Mundo.
Neste mesmo período, talvez como resposta à solidão do cárcere, começou a dedicar-se intensamente à produção poética até 1953. Fez parte do Movimento vamos descobrir Angola”, lançado por Viriato da Cruz em 1948, conforme é ideia geralmente aceite.
Na senda deste ideário de busca das raízes africanas da cultura angolana escreve o poema “Descoberta”. Tem colaboração no jornal do Planalto e na revista “Mensagem”, editada em Lisboa pela Casa dos estudantes do Império, de que foi um dos membros mais activos nos finais dos anos 40 e princípios de 50. Finda a sua formação em medicina veterinária em Portugal, parte de regresso a Angola, sua terra natal, indo trabalhar no Laboratório de medicina veterinária de Nova Lisboa, actual cidade do Huambo, onde efectuou pesquisa cientifica na sua área de formação. Consta na “Antologia de poetas angolanos(CEI 1959), organizada por Carlos Ervedosa, com prefácio de Mário António. Segundo se lê na contra-capa da recente reedição efectuada pela UCCLA do seu livro intitulado “Poemas”, editado pela primeira vez pela CEI em 1961, “Alguns deles foram musicados e traduzidos em diversos idiomas. Teve apenas dois livros publicados: “Poemas”(1961, Colecção Bailundo), de que a família viria a fazer uma segunda edição em 1975, com mais 15 poesias acrescentadas á edição original, e “Poesias”(1961), editado pela CEI precisamente no ano em que viria a falecer”, mais precisamente a 24 de Fevereiro de 1961, aos 36 anos, legando um espólio tão lírico quanto comprometido com a causa angolana.
Angolanidade poética do autor Segundo consta, o termo “Angolanidade” foi introduzido por Fernando Costa Andrade, no seu ensaio “L’Angolanité dans les ouvres de Agostinho Neto et António Jacinto”, publicada pela prestigiada revista “Presence Africaine”, na edição dedicada á Angola, vinda a lume em princípios dos anos 60.A respeito da Angolanidade diz-nos Mário Pinto de Andrade, ao prefaciar o seu livro, intitulado Poesia com armas”:
“A angolanidade não se confunde com a dose de melanina. Angolanidade é a linguagem da historicidade de um povo – o povo angolano.”
Na verdade, como escrevemos nosso segundo livro, tem a ver com a nossa mundividência e a cosmovisão do angolano, sendo o filão espiritual que nos liga aos nossos antepassados e nos projecta para o futuro, face aos ventos do progresso social do país.
O sociólogo e critico literário, Alfredo Margarido, que prefacia o livro de Alexandre Dáskalos escrevia há mais de 50 anos: “a publicação dos poemas de Alexandre Dáskalos reveste-se de grande importância no quadro da poesia angolana. Se, na verdade não são muitos os poetas, angolanos, não deixam eles de afirmar , contudo, uma posição de vincada angolanidade, não só na invocação de uma terra-mãe – que poderia dar um sentido apenas telúrico a esta poesia – mas também na estruturação política do canto. É deveras importante ultrapassar o mero reconhecimento telúrico para podermos compreender, com a amplitude necessária, as incidências das alienações que os poetas sentem.”
Com efeito, os esforços empreendidos no sentido do retorno imaginário e mesmo efectivo à mãe-pátria e às raízes angolanas falam por si nos versos dos poetas da sua geração. Alexandre Dáskalos enquadra-se nesta senda geracional da agitação e contestação da ordem cultural colonial instituída.
Mais adiante Margarido prossegue, destacando que o poeta “compreendeu bem cedo a sua posição neste quadro(...) Fica anunciada a viragem mais significativa operada no trânsito dos problemas humanos de Angola, que pressupõem não apenas uma negritude, mas, acima de tudo, uma angolanidade(haja em Dáskalos uma ‘angolanidade’ bem referenciada”, sendo que “a articulação das duas forças (o homem e o mundo) determinam a coerência da sua angolanidade, ma medida em que entendemos a sua luta contra a alienação.”
Aquele estudioso das letras africanas em português refere que “ na medida em que, nenhum momento, mesmo nos mais abandonados líricos, Alexandre Dáskalos deixa reflectir a verdade angustiada da sua situação, da situação do homem, no fim de contas, insistindo que “É por isso que a sua voz é das mais autênticas dentro do sentido de uma descoberta de Angola que viria a exigir uma angolanidade mais do que poética, política e, como, consequência fatal revolucionária”.
Ele argumenta que o poeta “sabia que estava num grupo de pioneiros e, por isso, procurou, em primeiro lugar, o material para os versos. Daí que , muitas vezes, haja qualquer coisa de monolítico, de informe até, na sua poesia”, observando contudo, que “ Mas esse monólito está em verdade, radicado na terra angolana e as palavras dirigem-se sempre ao centro de tal verdade, a primeira e única que lhe interessa e faz dele um dos grandes poetas da angolanidade revolucionária que efectivamente.
Rigorosamente falando, a angolanidade atravessa a poética de Alexandre Dáskalos, mesmo quando ela não se mostra interventiva, até pelos lugares, sentidos e recursos a que faz apelo, até no plano da sua concepção(poética) do mundo, bem como os signos Mãe, Escravos, Angola, escravatura e contrato, expressa ou tacitamente.
Alias, já o seu poeta patrício, benguelense de gema, Ernesto Lara Filho dizia que explicitamente ou implicitamente no seus poemas.” Alexandre Dáskalos insere-se nesta senda, na sua poética está sempre presente a matriz da cultura angolana, a angolanidade, apesar doutros “aportes” que lhe vinham do contacto com o mundo. Ele definindo-se homem, assumir-se somo poeta na sua verdadeira dimensão humana.
O projecto estético do poeta No poema “Condição humana”, onde pinta o verdadeiro quadro alegórico, escreve: “não fiquemos/abaixo dos olhos da manhã: às pupilas deram sonho,/ na cor e fantasia”, insistindo a pintar a sua tela: “A mesma cor/ou outra cor/ /que importa”- a interrogativa, para depois responder, sugerindo por via do soneto a sua cosmovisão: “O mundo/ canta bem fundo/em todo o coração: A voz singela/ da natureza, da criação…”E a a alusão á mãe pátria Angola, o que nos termos da época não deixa de ser significativo: “ a terramãe tem dispersão/ e a unidade/ sai do seu ventre;” O apelo à união entre os nativos é saliente, em busca do alimento espiritual e não só: “ E o seu ventre ( que parturejou) come das bocas e dá às bocas/ o mesmo pão…”, que alimenta o nós colectivo, o seu interlocutor/ destinatário, o leitor ideal – o leitor angolano, apesar dos fortes índices de analfabetismo e iliteracia.
Poesia de profundo pendor épico, capta-se as virtualidades no povo como som e sentido da sua versificação, ainda que de forma implícita, como no poema “Buscando o rumo”: na planície vejo pegadas: um povo em êxodo ali passou”; poesia premonitória esta, a antever o êxodo rural em extensão pelo país adentro.
“sobre os meus ombros/ o sol,/ sob
o meu olhar// o firmamento sem fim do sofrimento” atente-se a hipérbole, que depois a personificação: “(…sofrimento) / que o silêncio do ar parado sequestrou.” “onde a tua glória, Sol?”- a interrogativa e mais uma vez o sol, deste másculo o S.  E o desejo evasionista: “ A minha libertação deserta/ e o esteio da minha caminhada/ gravado neste chão também ficou… depois a insistência nos versos seguidos de interrogações que, objectivamente, suscitam dúvidas quanto ao presente vivido e profundamente sentido pelo sujeito de enunciação do discurso, o “eu”, depois a apóstrofe. A exclamação que substitui as perguntas pela negativa: “Não!/ Eu amo a vida!/ E NÃO,/ o próprio sol me dita”- insiste qual negação da negação! Sugerindo a personificação do rei abrasador: “ o próprio sol me dita/ o seu rumo”. Sempre optimista o eu enunciado projecta a sua lavra: “ E vai e avança e caminha”, obtendo um feito ritmado com a repetição da conjunção copulativa “e”/ lançando (assim)/ as sementes do futuro”, deixando escapar a negrura da noite, escura e cavernosa: “quando o sol que pela noite se perdeu”, renasce: “despontou ao abrir da madrugada”, reiniciando o ciclo vital de um novo dia. …
O dia da esperança, quiçá, o dia liberdade: “ vida banhada em sol é que dá vida”. Daí não será de esquecer a recorrência aos signos sucessivos: semente, flor  e fruto. Pags. 44 , por exemplo.  
Ao fim e ao resto, sementes germinantes que dão os seus frutos, tanto nos planos do conteúdo como no da expressão, que cabe ao leitor colher e degustar, desde que não sejam amargos, as agruras do contexto que deu lugar a esta poesia de um forte lirismo, mas também de denúncia e marcadamente de protesto.


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