"A Bicha e a Fila"

Envie este artigo por email

"A Bicha e a Fila", o novo romance de Manuel Rui, escrito em co-autoria com o brasileiro Marco Guimarães, foi apresentado em Luanda, a 3 de Abril, no auditório Pepetela do Centro Cultural Português (CCP). O livro conta com a chancela editorial da União dos Escritores Angolanos.

Romance de Manuel Rui e Marco Guimarães
Fotografia: Paulino Damião

A anfitriã, Teresa Mateus, directora do CCP, protagonizou com Manuel Rui uma performance dramático-declamatória baseada no poema inédito "Face a face", escrito por MR ainda ao tempo em que, na década de 1970, estava sob residência vigiada pela PIDE em Coimbra, Portugal. "A minha homenagem ao mestre, poeta, escritor, ao homem e amigo, que declinou honrarias e pedestais para manter intacta a liberdade de olhar o mundo em toda a sua nudez, sem nunca descurar a sua pureza", diria Teresa Mateus. A ideia de escrever "A Bicha e a Fila" a quatro mãos, segundo Manuel Rui, nasceu de um encontro com Marco Guimarães no Brasil e se foi consolidando com cada um deles a escrever capítulos alternados. MR fez outra revelação: o personagem doutor Miguel teve como modelo real o médico angolano, já falecido, Carlos Alberto Mac-Mahon.

"O livro não é muito de humor, é mais chaplinesco. A comédia cruza sempre com a tragédia. [...] Quando há tragédia a gente pode dançar, chorar e rir ao mesmo tempo", explicou o coautor, para quem "bicha" significa um conjunto de pessoas "posicionadas por ordem de chegada com vista a obtenção de um resultado".

Esse conceito semântico angolano de "bicha", referiu, é totalmente diferente do conceito brasileiro de "fila", que "é mais abrangente", pois pode aludir, por exemplo, às cadeiras alinhadas de uma sala de cinema.
Mais de uma vez MR fez alusão ao contexto histórico e sociológico das bichas em Angola, surgidas num tempo em que "nós importávamos esquizofrenias de Leste, que felizmente se desgastaram".

Concretamente, explicou que "as bichas surgiram num contexto de absoluta falta de quadros, meios, indústria e num clima de guerra, em que era preciso resolver os problemas da comida e de sustento das pessoas que estavam aqui em Luanda, principalmente".
Indo mais longe, sublinhou: "A juventude não se vai lembrar que houve uma altura em que nós, o MPLA, estávamos cercados por todos os lados. O Ocidente, esta Europa toda de que se fala agora, os EUA e inclusive a China, eram todos contra nós. Estávamos reduzidos a um contexto de derrota e conseguimos ganhar".

O acto de lançamento de "A Bicha e a Fila" acabou por ser uma ocasião de celebração das palavras, que, quando ditas por Manuel Rui, ganham novas cintilações. No fim, ficou a promessa de Carmo Neto, de que o livro "A Caixa", de MR, completamente esgotado no mercado, está na bicha das obras a serem reeditadas pela UEA.
As lojas do povo e as filas dos prazeres Carmo Neto, secretário-geral da UEA, encarregou-se da apresentação, entremeando a sua dissertação com a leitura de trechos da obra.

"Miguel e Manuel escrevem "A bicha e a Fila e o bicheiro", a distâncias intercontinentais: Angola, Brasil, Portugal e França. A acção vai evoluindo com as tecnologias de informação e comunicação: datilografam, escreviam em máquinas Remington ou Olivetti, método preferido por Manuel. O aparelho, de antiquário, dava ao Manuel uma verdadeira fruição da escrita ­ a ele, que era "um doente por velharias". As cartas para elaboração dos textos do romance eram enviadas por correio, de avião, pelo amigo tripulante Ari, mais tarde por fax e, finalmente por correio eletrónico. Já o Miguel tinha melhores condições de trabalho, usufruía do DDI (ligações telefónicas directas), telefone computador e tinha uma professora particular de informática, Yara, que veio a ser sua namorada.

Manuel Rui, figura incontornável das letras angolanas, (...) autor do Hino Nacional de Angola (...). Ensaísta, cronista, dramaturgo, poeta, escritor e crítico literário, habitua-nos, nas suas obras, à ironia, comédia e humor sobre o que ocorreu após a independência de Angola.
(...) De nacionalidade brasileira e portuguesa, Marco Guimarães é pósgraduado em Medicina e tem formação em várias áreas: Astronomia, Física, Fisioterapia e Veterinária. Cronista, escritor, professor universitário. Escreveu o seu primeiro romance, "De escritores, fantasmas e mortos", sob o pseudónimo de Paul Lodd. O seu segundo romance, "Meu pseudónimo e eu", foi nomeado como um dos 20 finalistas do Prémio Portugal Telecom de Literatura, 2012. (...)

No romance "A Bicha e a Fila", os escritores revelam Angola dos meados da década de 70 e anos 80.
Nessa época, as bichas em Angola eram efectuadas em frente das lojas do povo, supermercados, depósitos de pão, peixaria, talhos, e em hospitais, para marcar uma consulta. As bichas eram a salvação de rendimentos económicos para a maioria da população da cidade de Angola e no país Angola, enfrentava-se muita confusão, faz sentido, admitir que a bicha ao mesmo tempo que dava alguma ordem aos utentes em delírio que esperavam para ser atendidos, trazia também grande ansiedade, pois muitas vezes acontecia que os funcionários vinham anunciar, depois de os beneficiários terem esperado muito tempo, na bicha para aquisição dos bens alimentares, vestuários e/ou electrodomésticos, que já não havia alimentos, que já tinha acabado tudo!...

Havia também os bicheiros, indivíduos que ocupavam, em vez de outros, o respectivo lugar nas bichas, e vendiam os lugares, faziam uma fortuna com o negócio. (...) O sector informal da economia tornou-se, mais do que nunca, um espaço de sobrevivência para a grande maioria da população. Os negociantes compravam vários cartões, adquiriam várias grades de cervejas estrangeiras, vendiam e adquiriam um bilhete de passagem para o estrangeiro, preferencialmente Portugal, para depois passarem dali a outros países europeus ou no continente americano.

Em Portugal ou América, sobretudo o Brasil onde encontravam a fila dos prazeres, em três categorias: fila dos prazeres absolutos, que é aquela em que espera com satisfação, para admirar uma obra de arte; fila dos prazeres relativos, relacionada com a espera no motel, onde se correm riscos em prazeres masoquistas; as filas neutras: essa, Miguel relaciona-as com a fila que a sua filha enfrentará em Lisboa, para conseguir receber o título de pós-graduação; as filas das crianças miseráveis, relacionadas com as crianças que passam fome. No entrelaçar do cenário, neste romance os autores descrevem e relacionam que as filas mais decentes eram as filas da Comunhão, para receber a Hóstia.

A narrativa concretiza-se, como ficção extremamente bem realizada, a reprodução de um momento cultural de incontestável importância para o desenvolvimento da história de Angola. Manuel Rui inspirando-se na sociedade que vivia uma situação de adaptação com a vida, cria uma riqueza inconfundível nas suas obras, faz ponte de uma trajectória, pelo meio, de uma linguagem singela, típica da nova literatura africana e um sentido de humor refinado, muito eficaz, que leva o leitor de um sorriso permanente até à risada inconveniente, cinjamo-nos os exemplos -, "bicha, bicheiro, fila e bicho para vocês, brasileiros, bicha é o que aposentou o apêndice frontal (pénis) e passou a usar a parte traseira (ânus), nas trepadas, não é mesmo? (...) Bicha no Brasil é o paneleiro para nós em Portugal, e tu bem o sabes. (...) Fernando, deixa o Lino prosear um pouco sobre os paneleiros portugueses ou bichas brasileiras." (Rui e Guimarães, 2013: p. 25)."As suas obras suscitam grande interesse do público leitor, entretanto, aborda a trama em análise sintetizada e sociológica o retrato realista da urbe brasileira, portuguesa especificamente angolana, feita de ironia e sátira, mas uma ironia subtil." Com esta subtileza sarcástica de M. Rui terminou a apresentação de Carmo Neto.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos