A cartografia dos arranjos de representação em ‘A Sul, O Sombreiro’, de Pepetela

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Foucault publicou, em 1966, uma obra intitulada Les mots et les choses. Une archéologie des sciences humaines.

Il double l'histoire avec un avenir» (Deleuze, op. cit.: 43). Situado no espaço estratégico das funções e das matérias informais, o diagrama, enquanto «multiplicidade espácio-temporal», exibe um quadriculado de todos os campos sociais, formando, com o arquivo, um nó de poder-saber: se Foucault afirma o primado do Poder, é porque pensar (ou representar) se efetua a partir de um exterior, ou seja a partir da falha entre ver e falar.

O terceiro tipo de linhas-de-força (as da subjetividade) designa a contrario o interior, a interioridade formada pela marca do pensamento, a partir do seu exterior. Estas diferentes formas de subjetividade, baseadas em diferentes marcas do pensar, atravessam o tempo, esse sujeito que delimita o exterior.

Deste modo, a topologia geral do pensamento, que Deleuze traça na obra de Foucault, se encerra com a marca vincada (ou flecção) do sujeito como espaço exterior, espaço co extensivo aos arquivos do saber e aos diagramas do Poder (estratégicos).

Antes de avançarmos para Pepetela convém ainda determo-nos mais um pouco no conceito de «mapa» de acordo com Deleuze (e Guattari), pois a leitura que faremos de A Sul, o Sombreiro passará necessariamente, e como se depreende aliás pelo título, por esta noção. Se Deleuze e Guattari, no curso de Mille plateaux [port. Mil Planaltos], enfatizam o que designam «regimes de signos» de lógicas diferentes ­ percorrendo a sua época, mas também os seus temas e objetivos, a sua relação com o discurso hegemónico e com o Poder, etc. ­ regimes de signos sempre singulares, pode-se inferir que tais regimes de signos, na medida em que reconfiguram o real nas suas mais variadas dimensões, têm um valor representativo, que é o mesmo que dizer que se está perante regimes de signos cujo valor de representação funcionará de acordo com uma lógica cartográfica.

A estes signos, que Deleuze torna operacionais para reagenciar a filosofia de Foucault, proponho, para os propósitos que tenho em mente, a designação «signos-mapas». Estes terão a particularidade de serem plurais nas suas modalidades de representar, vale dizer de funcionar de acordo com lógicas representativas elas mesmas múltiplas, e transversais a épocas sucessivas de representação.

Esta hipótese funda-se na possibilidade de reler a História como uma justaposição de diferentes lógicas representativas de signos ­ ora dominantes ora dominados, ora maiores ora menores, neste ou aquele século, etc. ­, podendo ser miméticas e exprimir o território numa relação de simbolização imediata e de figuração; mas institui igualmente uma relação não-mimética com o espaço, expulsando o território para o seu exterior, entrando num processo de desterritorialização.

O mapa, de facto, não afasta apenas a representação de um espaço real, mas também múltiplos espaços virtuais, rizomas de trajetos a inventar enquanto os percorremos; o mapa é figura também já em desfiguração, mesclando presença e ausência, de acordo com a lógica da abstração, palavra que não designa, para Deleuze e Guatarri, apenas um regime de signos, «anti-representativo», mas vários tipos de linhas e superfícies ­ embora, à la limite, qualquer arte é abstracta.

O prisma do olho cartográfico projetado sobre a história das representações, e em particular, em avatares contemporâneos, deixa-nos com uma questão entre as mãos: que práticas cartográficas serão as do século XXI africano? Quais serão, sobretudo, os interesses, o carácter operatório de «signos-mapas» para experimentar os dispositivos de representações contemporâneas em África? É aqui que, a nosso ver, entra a literatura e a obra A Sul, o Sombreiro de Pepetela.

Trata-se de uma proposta de leitura inspirada no golpe de vista cartográfico da filosofia de Deleuze, em que o conceito cardinal de mapa se manifesta como um dispositivo redesenhado sob forma de uma rede de linhas múltiplas e diferentes entre si na substância. A cartografia de A Sul, o Sombreiro consiste então em analisar esse texto e os seus efeitos, colhendo os seus elementos, de acordo uma configuração espacial; espacial, mas também temporal, porquanto um mapa não é apenas a projecção de um espaço numa superfície, uma vez que prevê também uma infinidade de percursos, de trajetos virtuais.

O produto desta leitura consistirá no modo como em A Sul, o Sombreiro se traça mapas que são plurais, moduláveis, complementares e, por vezes, contraditórios. Assim, a sua leitura cartológica colocará em evidência os diferentes modos de representação, que podem coexistir, de modo latente, nessa obra de Pepetela.

A Sul, o Sombreiro abre de forma estonteante: «Manuel Cerveira Pereira, o conquistador de Benguela, é um filho de puta. O maior filho de puta que pisou esta miserável terra. Pisou no sentido figurado e no próprio, pisou, esmagou, dilacerou, conspurcou, rasgou, retalhou».

Nesta abertura é clara que a voz autoral tem em mente uma certa representação de justiça e do que nela existe de subentendido: a lei. Globalmente, esta representação organiza-se de acordo com as mesmas linhas de força que aquelas que determinam as relações de poder na escrita de Pepetela: «conflitos de ideias» (Laban, 1991: 774).

Subjacente a esses «conflitos de ideias», temos verticalidade e estrutura - dois termos que caracterizam esta representação conflitual designadora da representação que Pepetela faz da justiça. Este tipo de representação conhecerá em, A Sul, o Sombreiro, a mesma progressão conflitual.

Com efeito, a verticalidade é o modelo espacial de hierarquia com que Pepetela obsequeia o funcionamento do aparelho do Poder; ora este eixo vertical encontra-se presente no romance, e vemo-lo, por exemplo, nas «botas de montar» de Cerveira Pereira, «signo da sua condição de cavaleiro» (Pepetela, 2011: 17) e ainda no lugar onde prefere dormir, ou seja numa «fortaleza, entre os seus soldados, ao abrigo dos canhões». (Idem, 18).

Bem entendido, esta verticalidade tem como ponto de fuga, a demanda do Poder. No que se refere ao termo estrutura, ela envia para um sistema delimitado, finito, em que os elementos se posicionam um em função do outro ­ um "território", no vocabulário de Deleuze e Guattari.

E, sem dúvida, Pepetela faz dele uma representação estrutural da demanda do Poder, como testemunha a forma triangular que ele imprime à configuração espacial do primeiro gesto de Cerveira quando se sentiu apossado de Poder:

«Depois de se tornar capitão-mor e governador em exercício, avançara contra o soba Kafuxi, um dos mais fortes e temidos nas cercanisas de Kambambo, onde estavam as minas de prata.

Derrotou-o em batalhas sucessivas. Com essa vitória, não só se aproximou das montanhas de prata, como fez milhares de escravos. E, importante consequência, mereceu o respeito do grande N'gola Kiluangi. [...] Agora os homens do governador construíram a fortaleza em Kambambe». (Pepetela, ibidem: 19).

Na cartografia de Cerveira, existem duas partes opostas: ele próprio no ponto do triângulo, os escravos e os territórios conquistados e a conquistar. Na cartografia geral da obra, é estrutural ainda a o ódio de estimação que o narrador «sacerdote, de rito católico» diz nutrir por Cerveira.

Um primeiro regime de signos-mapas se revela portanto, organizando o espaço do romance numa lógica de representação vertical e estrutural.

É exatamente por isso que, para precisar as coisas, se retoma um outro termo usado por Deleuze e Guattari, o termo «decalque». De facto, o decalque constitui um tipo-limite de mapa, porquanto é estruturado, ordenado de acordo com uma lei que lhe é transcendente.

De qualquer modo, a esta primeira lógica cartográfica, que «territorializa» o Poder, sobrepõe-se rapidamente (veja-se o título do romance) um outro modelo, que a «desterritorializa»: a do rizoma, como agenciamento de diagramas, quer dizer, de redes fixas e móveis de linhas transversais e diagonais, que, embora não estruturem os elementos, por entre eles perpassam.

Quando Manuel Cerveira Pereira retornou a Luanda, «em Setembro de 1615 [...] mandou chamar [o alferes Malaquias, para o informar que, como governador de Angola, o incluía na luta de soldados que levaria consigo na devida altura para o outro lado do Kwanza a conquista de Benguela» (pag. 213).

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