A cartografia dos arranjos de representação em ‘A Sul, O Sombreiro’, de Pepetela

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Foucault publicou, em 1966, uma obra intitulada Les mots et les choses. Une archéologie des sciences humaines.

Este gesto de encetar a conquista de Benguela produz imediatamente outras imagens, outros dispositivos, outros mapas e, logo, um outro facto de Poder. Aliás, a empresa leva Cerveira de um extremo a outro da Angola, de acordo com uma ordem arbitrária, subvertendo a ordem paralela que ele próprio tem em mente, conectando-a a lugares mais remotos e heterogéneos: «A armada visitou o antigo fortim, a norte da foz do Cuvo [...] desceu até ao paralelo quinze, chegando ao Cabo Negro e depois veio esquadrinhando a costa para norte, pela foz do Bero, Cuio, Baía Farta, até ancorar na conhecida Baía da Torre, Baía das Vacas ou de Santo António, os mapas designando por nomes diferentes a mesma enseada larga limitada por um cabo em forma de sombreiro.» (pag. 226).

Os espaços multiplicam-se portanto na medida em que Cerveira os percorre, série ilimitada de espaços, de rios, de florestas; os lugares da demanda do Poder parecem sótãos sufocantes e cartograficamente caóticas, ainda que a vertical se confronte com a perpendicular numa estrutura horizontal, englobando-o num rizoma complexo, onde a faixa é recuperada e subvertida pelos mapas «diagramáticos» - ou seja, espaços cuja causa não é transcendente, mas imanente ao seu efeito.

Aliás, como razão forte para este estado cartográfico, a voz autoral já havia mencionado a inutilidade de «[...] procurar os nomes num mapa, pois nem eles [estariam] bem escritos, vindos todos da tradição oral e corrompidos pela péssima audição dos portugueses para as nossas línguas, nem fazem parte da paisagem há muito tempo» (Pepetela,op.cit.: 43).

Quer dizer, Pepetela, que não esconde o seu pouco apreço pelo labor de Cerveira a quem, não nos esqueçamos, apoda de «filho de puta» entende que procurar num mapa os lugar por onde perpassa a sua personagem é «inútil», já que, entre outras coisas, tais lugares já não existiriam.

Deixando agora de remissa os problemas teóricos suscitados por tal afirmação, é necessário insistir no modo como constrói o itinerário de Cerveira, na sua demanda do Poder.

Se for por aqui que teremos que ir, toda uma outra cartografia do Poder se desenha então, espalhando-se pela superfície do romance, cartografia de que Pepetela tirará partido para construir a sua própria microfísica da escrita, mostrando que as suas zonas estratégicas da demanda do Poder usam relações de forças difusas, múltiplas ­ não somente uma superstrutura, mas os diagramas, dos quais, isso sim, seria "inútil" dar nome, por escapulirem sempre, sendo essa aliás a sua condição.

Torna-se assim inevitável ver na odisseia de Cerveira uma alegoria do funcionamento de todo um aparelho de captação do Poder que funciona para o próprio Cerveira de acordo com dispositivos fundados em lógicas cartográficas duplas, que se desterritorializam e se reterritorializam mutuamente: a lógica de Cerveira e a dos jagas.

A dos jagas passa por se apropriar «[...] de novo território» criando um jagado, «até estar cheio de gente.» E «avançavam de novo» (p. 181). Como se vê a demanda do Poder tanto por Cerveira como para os jagas projecta ela mesma uma imagem estrutural, faixa dirigida por linhas «molares»: as linhas verticais organizam um espaço social estriado, normativo, estratos de um saber constituído por formas de pensamento dominantes e impostos ­ à la limite, o totalitarismo de Cerveira ou dos jagas que regulamenta e seleciona tudo o que se pode fazer. Uma vez mais, este mapeamento subsiste no romance: começa no limiar da irrupção de personagens como Battel, Margarida e Carlos Rocha nos territórios de Cerveira e dos jagas.

Vemos então as linhas deambularem por zonas urbanas «[...] a colónia era aquele arremedo de vila chamada Luanda e mais um território ao longo do Kwanza, que quase cabia na palma da mão» (p. 11) e por zonas não-urbanas, território movediço dos jagas, dos benguelas, da Kassama, sendo este «[...] vasto, pouco povoado» com «longas curvas para evitar precipícios acentuados ou rios sem vau. Um estranho se perderia naquela confusão de caminhos cruzados» (p. 186).

Estas linhas não cessam de cruzar os espaços, estruturando os pontos de opressão e de conquista do Poder. No entanto, esta faixa é permanentemente rejeitada em outos mapas de linhas «moleculares», linhas de fuga que prolongam insidiosamente as precedentes, forçando-as a entrar em deriva, atravessando os pontos da hierarquia, evitando "sobas", "cerveiras", "ouvidores" e a igreja, por ziguezaguear por entre grupos heterogéneos, todos eles corrompidos, com ofícios que se revelam representações falsas: «ser sacerdote em África é uma profissão rentável, um simples negócio, nunca uma devoção desinteressada» (p. 9).

Como os segmentos territoriais desenhados por Cerveira se acham desprovidos de órgãos da codificação do Poder, por cada território que Cerveira conquista, peças de mapas se sobrepõem, mapas extensivos e intensivos, provocando a coexistência do caos geral com o desejo particular de ordem de Cerveira.

Lacan diz que o desejo é injusto, pois impulsiona o sujeito numa demanda permanente, de um objecto a outro, cativo de uma lógica metonímica sem fim.

Deste modo Cerveira erra de um território para outro, por entre os seus dispositivos (dispositivos do Poder), preso num processo-processus ilimitado. Num espaço sem forma e sem centro, paradoxal pelas suas ligações impossíveis, os regimes de signosmapas deste romance de Pepetela combinam-se de modo ilimitado, deslocados e depois imobilizados pelo vazio deixado pelo território conquistado, porquanto cada trajeto percorrido por Cerveira alterna os mapas, modifica os diagramas, baralhando as representações do Poder.

Tudo isso porque cada passo e tarefa a que Cerveira se incumbe afetam o futuro de todo o rizoma. Por isso, cada plano e cada imagem são apenas efeitos aparentados a efeito ótico, efémero, do próprio Cerveira. A escrita de Pepetela não é, neste ponto de vista, nem uma escrita da memória, nem uma escrita do intemporal: é uma escrita do esquecimento, que por o ser se define como uma escrita do vindouro, das passagens, das viagens redesenhadas por movimentações do tempo.

Jorge Luís Borges, em «El jardín de senderos que se bifurcan» (cf. Ficciones), dá a ler uma intriga extremamente linear: em tempo de guerra, um homem (um espião), para transmitir uma informação que se encontra num determinado nome (nome de uma cidade), vê-se forçado a assassinar uma pessoa com esse mesmo nome, na esperança de chamar a atenção do seu superior, a fim de decifrar essa «mensagem codificada».

Uma linha, cronológica, molar, dura, organiza, portanto, o relato do narrador, encadeando os factos, tais como num romance policial, para formar a trama de uma estrutura ­ ou de um destino ­ que parece infletir sobre ele próprio (o chefe decifra o enigma, o homem que matou é condenado à morte).

Há todavia um ponto onde esta linha cruza com uma outra (ou, melhor, com uma variedade de outras linhas): é o ponto preciso onde o destino e o acaso se encontram, ponto onde se abrem as múltiplas dimensões do virtual.

Terão sido estas linhas que farão balançar a estrutura cronológica da narrativa, designadamente por ironia da situação ­ o homem a assassinar, escolhido arbitrariamente na abertura de uma lista telefónica, nada é mais do que um romancista sinólogo avô do narrador, que lhe revelara, antes do golpe fatal, o que este nunca compreendeu sobre o extraordinário romance do seu ancestral.

Esta ironia do destino projeta-nos para outros mapas, em linhas transversais, mapas de um tempo em que a representação espacial figura um jardim em trilhos que se bifurcam continuamente, abarcando a linha cronológica, molar, da narração.

Deste modo, o romance de Ts'ui Pên, romance-rizoma de numerosas bifurcações, pois cada ponto da intriga se subdivide e se ramifica em múltiplos destinos possíveis, é um livro que se funda virtual, vale dizer numa cartografia ilimitada de todos os acontecimentos «incompossíveis», em que a sórdida realidade dos factos, o gesto mortífero do narrador, se abate e se perde com melancolia e insignificância na relatividade do tempo.

O romance de Pepetela, A Sul. O Sombreiro, constrói-se basicamente na demanda do Poder por parte de Cerveira e, paralelamente, na sua exclusão do Poder. Portanto, funda-se na «incompossibilidade», como diria Deleuze, de dois mapas: um estrutural e vertical, uma «faixa»; outra rizomática, que abrange regimes de signos-mapas «anormais» de linhas de fuga e errâncias.

Por entre os dois regimes de signos-mapas que produzem um vaivém e uma auto contradição romanesca, o romance circula entre fluxos de desterritorialização e reterritorialização contínua, cujo motor já não é Cerveira, mas a imensidão de Angola, que num certo passo do romance era mais ou menos assim referido pela voz de3 Battel: «Passamos o sítio de um fortim destruído no morro perto do rio Cuvo, chamado Benguela.

Era o nome do povo que ali vivia, muito guerreiro. [...] Continuamos para lá dos doze graus [...] abaixo do equador. Aqui estamos s cerca nove graus e a grande São Salvador do Kongo próximo dos seis graus. Para terem uma ideia» (p. 45).

Mas as frases do romance que mostram que Cerveira, não obstante algumas conquistas territoriais, se encontra, afinal, apenas imobilizado num espaço listrado e arquiorgânico, um continuum espacial formado pelo desígnio de codificação (base de qualquer arquitectura do Poder de índole europeia e ocidental) são as que afirmam haver conquistadores ainda vivos «[...] excepções da regra que levava a chamar ao reino de Angola o cemitério dos brancos» (p. 77). Para além de Cerveira, temos Battel, temos Carlos Rocha. Mas Cerveira é o ponto-base deste espaço, siderado, desta espécie de jardim de caminhos que se bifurcam.

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