A Convenção e o leitor d´A Lagoa Encantada

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Como se prevê o leitor-modelo n´A Lagoa Encantada?

Celestina Fernandes

A questão que dá título a este texto não pode ser respondida sem antes sabermos que se trata de uma obra literária infantil.
Nada mais justo e adequado do que analisar uma obra, começando pela pertinência do seu título. Com isto concorda Eco (1984:10), que afirma que um título constitui desde logo uma chave interpretativa; e tal como na sua explicação, não podemos fugir ao poder de sugestão emanado do título da obra que nos chega já premiada.
A Lagoa Misteriosa da nossa já consagrada Maria Celestina Fernandes é um título que tem muito da nossa ficção e aponta já para o enredo.

Embora o nosso leitor já esteja habituado a narrativas como esta, que remetem para lendas e contos da nossa tradição oral, como confirma, na obra Sunguilando de Óscar Ribas, o conto O Peixarrão ou ainda a lenda da Lagoa do Feitiço, situada no município de Dange-Quitexe, a autora afirma, no paratexto, que "é uma história fantasiosa, inspirada numa visita à cidade marroquina de Marráquexe ­ cuja beleza singular me encantou verdadeiramente ­ e um mito que gira em torno de uma lagoa angolana" (pág.4). Talvez essa seja também a justificação para o facto da obra lembrar ao leitor a História de Beder, Príncipe da Pérsia e de Giauhare, Princesa do Reino de Samandal das Mil e Uma Noites, sem esquecer a tão evidente história A Bela Adormecida; nisso a obra tem a sua transcendência textual, ainda que nisso perca um pouco de nosso pelo espaço onde decorre a acção, que define as características físicas dos personagens, como se representa nas ilustrações. "Ela respirava normalmente e mantinha-se bela e serena, parecia a Bela Adormecida." (pág.42)

Importa, para se confirmar que de literatura infantil se trata, aplicarmos o conceito de Cagneti (1996:7), segundo o qual literatura infantil é "a arte ou fenómeno de criatividade que representa o mundo, o homem, a vida, através da palavra e funde os sonhos e a vida prática, o imaginário e o real, os ideais e a sua possível/impossível realização", que é permitido pelo universo ficcional. Para Coelho (1991), a criança dos 3 aos 6 anos está na fase mágica, interessando-se pelo "faz de conta" e a expectativa de tudo se resolver por simples toques mágicos. É o tempo do interesse por histórias maravilhosas.

Assim percebemos, na página 22, um recurso já muito conhecido na nossa literatura de tradição oral para o toque de mágica: "Três kalubungo, três kalubungo"
Ora, o texto desta obra não permite construir o significado do texto em conformidade com a convenção de congruência dos factos, isto é, a convenção F, referida por Schmidt (1982:49-50, apud Aguiar e Silva 2008:90). É de crer que quem lê ou ouve este conto é levado para o universo ficcional, o que pressupõe estarmos diante da convenção E, que nos permite suspender, voluntariamente, a capacidade de incredulidade, pois por meio dela se manifesta o universo ficcional. Esta última convenção é de tal modo própria do texto literário, que o torna diverso do texto não literário. Assim confirmamos quando lemos o terceiro parágrafo da página 5:
"Na lagoa misteriosa só podiam entrar os reis e apenas durante a fase da lua nova. Era uma regra que vinha passando de gerações para gerações.

Às outras pessoas nem sequer era permitido passar muito perto e, caso se atrevessem a mergulhar nela, eram amaldiçoadas e desapareciam."
Se nos questionássemos se A Lagoa Misteriosa de Maria Celestina Fernandes é uma obra literária ou não, certamente, não se adequaria à justiça da grandeza do no-me da autora, que até é, sobejamente, um dos mais sonantes da literatura infantil feita no nosso país.
Podemos afirmar, como explica Reis (2008:169), que o texto desta obra é o resultado articulado, coerentemente estruturado da enunciação da linguagem literária, com características como: ficcionalidade, coerência, pluristatificação e intertextualidade, como foi possível verificar acima.

É imperativo levar em conta o leitormodelo, como aponta Eco (1983:67), que neste caso, por se tratar de literatura infantil, é a criança ouvinte-modelo. Isso impõe um nível de língua que lhe permita compreender o texto, visto que é a fase de iniciação à comunicação literária; e se a linguagem comum for "o inventário léxico e fraseológico referente aos conceitos conhecidos, em princípio, por todos e cada um dos membros de uma comunidade extensa (mas linguisticamente homogénea) independentemente da sua profissão, do seu sexo, e até certo ponto, da sua idade (admitindo que esses indivíduos atingiram já um grau adiantado de desenvolvimento mental e cultural)", como aponta Carvalho (1967:335), atendendo os níveis de língua, será fácil afirmarmos que neste texto a autora pretende um nível cuidado, introduzindo palavras que podem ainda estar além da compreensão da criança.

É o que se percebe quando se lê: "Naquelas alturas, esqueciam-se o protocolo relacionando-se afectuosamente como pai e filho" (pág. 17)
"Todavia, ela parecia não ter percebido a presença do rei Fahir, pois continuou a divertir-se livremente e ele, extasiado, não fazia menção de a interromper com receio de que ela sumisse." pag. (pág. 40)
"Em pouco tempo realizou-se o casamento. Foi uma festa faustosa e muito animada.
Nove meses depois nasceu o primeiro filho e outros mais foram vindo." (pág. 43)

O certo é que o texto da referida obra é bem dotado de linguagem literária e até dispensa que se enuncie aqui o conceito de literatura já tão conhecido. Por isso talvez se deva suprimir os conceitos aqui apresentados, mas ficaríamos sem a base para sabermos que, se a autora escreve para as nossas crianças, estará a contribuir para a constituição da sua consciência, como explica Aguiar e Silva (2008:92), em função da sua competência linguística e competência enciclopédica ­ conjunto de informações sobre o mundo, pressuposições complexas, sistemas de crenças e convicções, etc. ­ competência literária, constrói um esquema, um dispositivo mental que projecta na leitura do texto.

A convenção E impõe à literatura infantil recursos estilísticos que cativem a atenção da criança, facilitem o passeio nas páginas do livro e que, principalmente, lhe permitam tirar uma lição do que lê e vê, pois, para a literatura infantil, importa muito a ilustração das cenas. Portanto, é necessário concordarmos com a afirmação de Bakhtin (2002), segundo a qual a linguagem é um instrumento mediador e organizador da constituição da consciência do sujeito; e se assim for, é imperativo responder ao leitor que a linguagem nesta obra, imposta pela convenção E, já prevê o seu leitor.

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