«A cultura angolana não tem centros culturais...» Conversa com Luandino Vieira

Envie este artigo por email

NÓSSOMOS é uma editora de angolanos e para os escritores angolanos.

Conversa com Luandino Vieira

Tem sede em Luanda e uma delegação em Vila Nova de Cerveira ­ Portugal, onde reside o seu rosto mais visível: Luandino Vieira.

Luandino é a maior das mais-valias das modernas letras angolanas tanto como escritor assim como editor. É detentor de uma experiência incomensurável no domínio da produção e promoção do livro angolano. Um nome que entre nós dispensa apresentação, pois foi o primeiro Secretário-geral da União dos Escritores Angolanos, instituição que nos finais dos anos 70 e em toda a década de 80 chancelou o melhor do que se publicou em Angola no período pós-independência.

Em pouco mais de um ano de existência, a NÓSSOMOS publicou mais de dez títulos de autores das mais distintas gerações literárias de Angola desde os idos da década de quarenta, tal como: Agostinho Neto, António Jacinto, Arnaldo Santos, José Luís Mendonça, Zetho Cunha Gonçalves e Nok Nogueira dentre outros entre os quais também ... SOMOS.

A editora e, em certa medida, a literatura angolanas são os motivos desta brevíssima conversa na Covilhã, em Portugal, com José Luandino Vieira.

LF-Fale-nos um pouco do projecto NÓSSOMOS...
JLV-Assim muito brevemente o que lhe posso dizer é que é um projeto editorial de angolanos para angolanos. Já editamos dez livros e já mandamos oito para Angola, e os outros estão aí ainda para distribuir. Toda a gente dizia que era preciso apresentar a editora e eu submeti-me a isso organizando a «festa da poesia angolana» na Covilhã com a colaboração do nosso amigo José Carlos Venâncio que se disponibilizou para tal, pois há mais de vinte anos ele trabalha com a literatura angolana na universidade da Beira-Interior. Para mim, foi uma ocasião onde primeiro tive a oportunidade de conviver de novo com os meus confrades depois de apresentar cá esse projeto.

LF-Sendo uma editora de angolanos e para angolanos atuando também em Portugal, onde é que ela está instalada?
JLV-A editora tem sede em Luanda, na rua Eduardo Mondlane 130, e uma pequena delegação em Vila Nova de Cerveira, onde eu estou. Sobretudo, ela destina-se pura e simplesmente à poesia. Mas pode haver um ou outro caso onde os textos de prosa sejam de tal valia literária e que por falta de edição ou reedição nós faríamos uma outra edição. Foi o caso de A MORTE DO VELHO KIPACASSA, do Boaventura Cardoso, que é um texto fundamental da evolução da nossa prosa, mas que já estava editado e esgotado. Mas, o projeto inicial era só para os poetas, e era editar os clássicos que não estão à disposição dos estudantes nem da juventude nem das pessoas interessadas. Porque pode-se dizer que as pessoas leem pouco, ou não estão interessadas em poesia. Mas, se houver os livros, o interesse aparece porque as pessoas dão umas desfolhadelas nos livros, acabam lendo e o interesse lá aparece.

LF- E qual a condição dos novos...?
JLV-....E depois para os autores vivos, aqueles que, com toda a pretensão, eu digo que já fazem parte do cânone nacional tais como o Lopito ou o Mendonça ... e os jovens que eu próprio ainda nem conheço. Eu lí a poesia do Fernando Kafukeno há muito pouco tempo, lí a poesia do Trajano há muito pouco tempo porque nem às minhas mãos chegavam os livros de Luanda nestes últimos sete, oito, nove ou dez anos.

LF- Quer dizer que mesmo os livros editados pela União dos Escritores Angolanos dificilmente lhe chegam?
JLV- Eu penso que a única pessoa que recebe de vez enquanto os livros aqui em Portugal é o Prof. Pires Laranjeira. Então foi sobretudo para colmatar essa falta que decidimos fazer livros daqueles autores que eu penso que é indecente que os jovens e os angolanos em geral não conheçam, não tenham um conhecimento ou não possam ter o livro de um Agostinho Neto, de um Viriato da Cruz, de um António Jacinto, daqueles da geração da Mensagem e da Cultura e agora Maimona que tem uma obra já tão extensa ou do Lopito que é um poeta muito atuante, o Zetho Gonçalves que faz um trabalho nas pegadas do Rui Duarte de Carvalho aprofundando as questões da poesia da tradição oral. 

LF-E então decidiu editar livros para dar e vender...
JLV-Eu pensei que isto não podia passar assim. Este trabalho dos escritores não pode e não deve passar despercebido. Então, como eu já tenho um bocado de tempo para mim próprio, e também porque já não tenho muitos anos de vida, decidi fazer os livros, mas livros que possam ser vendidos a preços que sejam acessíveis aos jovens, sobretudo aos jovens de Luanda e aos angolanos em geral. Em princípio, cada livro são 5 euros (750 AKZ) mas se existirem outras instituições que estejam interessadas em comprar os livros para distribuir às bibliotecas escolares quer outras, o preço pode baixar ainda para quarenta porcento, porque isto não é um projeto comercial. É um projecto cultural!

LF- O Mestre falou já, e muito bem, da editora mas nada disse quanto à divulgação e promoção dos autores angolanos no estrangeiro, concretamente aqui em Portugal?
JLV- O que eu posso dizer é o seguinte: os escritores, nós todos, depois da independência, penso que a maior parte fez mais do que aquilo que podia. Penso mesmo que a maior parte já fez com certeza muito mais do que sabia, porque muitas vezes pensa-se que o escritor é que tem que tratar de tudo de cima a baixo. O escritor tem que escrever, e depois haver editores ou casas editoriais que publiquem. Depois, o resto do circuito até ao leitor ou os incentivos à leitura não podem ser os escritores os únicos responsáveis ou os principais responsáveis, pois já fizeram a parte deles.

LF-Mas as embaixadas de Angola podem ajudar....
JLV- Compreende-se que no exterior as embaixadas de Angola ou os sectores culturais são fundamentalmente diplomáticos ou para a ação diplomática, mesmo com a cultura ou diplomacia no âmbito da cultura.
Compreende-se. E não se pode exigir mais do que aquilo que a maioria das nossas embaixadas fazem mas acho que, assim como os capitais financeiros angolanos já se internacionalizaram ou já se globalizaram, a cultura angolana não tem centros culturais. Por exemplo: há um grande número de estudantes aqui em Portugal do norte ao sul... no Porto há um grande núcleo, em Coimbra há um núcleo e à volta de Lisboa então já nem se fala. Mas em que sítio é que se podem fazer atividades culturais que mostrem a cultura desde as formas mais tradicionais às formas mais avançadas da nossa cultura? Onde? Nas livrarias do circuito português? No empréstimo de uma sala dos grandes centros culturais ou centros de estudos? Nas escadas de uma universidade? Penso que a nossa literatura já tem uma dignidade e uma expansão acima disso.

Comentários

Newsletter


Colabore com o Jornal Cultura - Envie-nos os artigos da sua autoria.

Colaboradores Ver todos