A dinâmica estética do embalo da Balada dos Homens que Sonham

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Entre a viragem e a voragem

A denunciada preocupação seletiva mais temática em que a urgência em transmitir uma Angola sofrida impera sobre estilo, inovação, rigor no labor da palavra e destreza na armação do conflito, não compromete na totalidade, em “Balada dos Homens que Sonham”, a Fluidez de literariedade, núcleo do discurso literário, nem tão pouco o prenúncio da elevação de tendências estéticas ainda abafadas no nosso seio vanguardista.

Quanto a organização, a sensata intenção de sermos lidos além de Angola atinge o bathos na contraditória falta de atenção a um dos elementos que ajudam o descortinar de termos de uma obra cujo leitor ideal é a diáspora: o glossário.

Para um veículo de angolanidade elevado internacionalmente, o glossário funcionaria como autêntico fio de Ariadne que guia o leitor no labirinto semântico das palavras presas a um contexto específico e na desconstrução das complexidades das realidades imbuídas no texto e do texto em si.

A falta deste abre possibilidades de que os restantes Filhos de Camões no Brasil, Cabo-Verde, Timor-Leste, Guiné-Bissau e Portugal entendam puramente e sem qualquer conflito semântico o contexto de terminologias tal como entende o angolano de gema, quando este mesmo até cá, entre nós, ainda requer glossário devido ao mosaico linguístico e dinâmica contextual da língua.

Apesar da aplaudida premissa de base cénica de que não existem peças velhas mas apenas público novo, as temáticas atingiram um ponto de saturação reversível somente através da originalidade e muito da fórmula camoniana de “engenho e arte” que, em “Balada dos Homens que Sonham”, é com O Corpo no cabide de Agualusa que a mais recente coletânea do conto angolano se aproxima da exigência em congregar os elementos de literariedade.

Eminente pela introspeção devoradora na densidade subjetiva da personagem, pela considerável capacidade de manejar as palavras, eficácia na escolha e pela simplicidade graciosa como as solta. Numa afinada colocação de pedreiro e num ritmo psicológico, as palavras armam um enredo não linear e constroem com perspicácia personagens tétricas à volta de um assunto que há muito é debatido: o amor.
Embora sobressaia percetível a acentuada falta de ironia, bem praticada por Carmo Neto e que diminuiria o tom corrosivo na gravidade com que o sentimento é trazido, é, portanto, com Agualusa que a breve coletânea do conto angolano, forma e conteúdo, revela amais satisfatória expressão estético-literária.
 
Em O corpo no cabide, o escritor demonstra que é possível sair da monótona estrutura linear do conto sem necessariamente torturar a gramática e arriscar a inutilidade do texto literário em determinado grau académico.

Contado na terceira pessoa, o contista angolano traz do modernismo o direito de não ter o dever de dever às categorias da narrativa e desenrola-se através dos estados de espírito no momento da argumentação e das descargas penetrantes dos atuantes na trama deixando deste modo o enredo em segundo plano.

Entretanto, o declínio da potencialidade literária na breve coletânea do conto angolano atinge proporções críticas com Sadumingu-o nome de um miúdo, de Frederico Ningi, onde apalavra, sem quaisquer traços de labor, é levada abruptamente ao leitor na tentativa de construção de um enredo sumptuoso e atuante dos problemas de hoje.

Em Sadumingu-o nome de um miúdo, a debilidade no trato da palavra e difusão de ideias com repentinas e desconexas intromissões intercaladas são constantes que aparecem frequentemente e que, às vezes, erroneamente, seduz pensar tratar-se de uma novidade de estilo. Pobre na forma e no conteúdo, fragilidades que confirmam ser um caso dentro da produção literária mas fora da literáriedade.

Ondjaki: Um excesso de José Luís Mendonça

Diferente de Ondjaki, José Luís Mendonça ainda é conformista das regras do discurso na sua atuação subversiva e segue sem transgressões radicais ou fora das consideradas mutações estruturais do modernismo, para construir no derramamento da sua liberdade um texto com garantias da eficácia na comunicação literária.

Em Casa-de-orates, apesar da acentuada caracterização do discurso modernista no retrato linguístico vivo do modo da linguagem falada, a inversão das regras gramaticais ou a fome de vencer a linguagem vernácula vista também como elemento a ser destituído para satisfazer a sofregamente liberdade, outra vítima da palpitante sede de liberdade de que os modernistas são vítimas desde o terceiro momento modernista, assume, consequentemente, em José Luís Mendonça, uma alcoviteira ferramenta no contágio entre a prosa e poesia.

José Luís Mendonça, comungando da mesma liberdade modernista, traz no seu conto, da poesia para a prosa, a técnica do deslocamento de frases no meio do texto, uma característica de notoriedade do terceiro movimento modernista. Já Ondjaki, excessivamente preso na sua liberdade, traz um conto embebido de transmutações exercidas pelo período modernista mas não fica só pelas meras mudanças cronologicamente iniciadas no nosso idioma na Europa lusitana com a Geração de Orfeu e na América com a Semana da Arte Moderna.

Com O velho e a lareira tardia, o jovem contista angolano ainda conserva polidas as suas extravagâncias estético-literárias que atingirão outras convulsões em Dentro: esse lugar…

Verifica-se, no que toca à insubordinação das regras, a queda do discurso direto tradicional, a dispensa do travessão, dos dois pontos, do ponto e, consequentemente, da inicial maiúscula, que deixam o discurso muito mais rápido e íntimo ao leitor.

Mas é, sobretudo, na short story Dentro: esse lugar…que o contista angolano atinge o mais alto na radicalização da ridicularização das regras gramaticais que desemboca na paradoxal e anti conceituosa liberdade pós-modernista.

Assim, da leitura horizontal dos dois contos pode se aludir que a atuação comedida em O velho e a lareira tardia vislumbra-se como mera preparação, trampolim ou objeto de salto dos agentes da comunicação literária para uma niilista tendência estética de aceitação vacilante cuja dispersão de conceitos é a sua unidade e a fragmentação, a sua homogeneidade avançada amadurecida no seu segundo conto, ou seja, O velho e a lareira tardia é uma iniciação para uma inequívoca leitura pós-modernista de Dentro: esse lugar…

Embora não tão expressivos pela novidade na montagem das peças e no revigorar de instáveis palpitações estéticas, a breve coletânea do conto angolano traz também casos de escritores que demonstraram ser criadores de um enredo disciplinado e portadores de uma proeza linguística digna de realce como revelamos casos de Timóteo Ulika e Carmo Neto.

São, na breve coletânea do conto angolano, fecundos em estórias bem conseguidas pela vivaz simplicidade impregnada por Timóteo e o humor, sarcasmo e sátira de Carmo que contribuem significativamente na sustentabilidade do pendor literário de uma obra que reúne catorze contistas angolanos, organizado por António Quino, projetada pela U.E.A e publicada em Portugal.

Em Timóteo, a leveza na descrição, a economia de palavras na frase que o salvam de divagações fúteis e infundadas tentativas de verdades universais, fazem dos seus contos uma linha reta, aberta e permeável do princípio ao fim, que matam as possibilidades do leitor se perder ou saturar.

Em Carmo, a descrição é trabalhada a fio mas em nenhum momento o contista decai para uma coloquialidade que mace o leitor. A porção exata de elementos na construção das estórias torna estas tão graves quanto estimulantes.

Assim, amais recente coletânea do conto angolano, que traz na sua cabaça nomes que representam o melhor da literatura angolana contemporânea, leva na sua travessia transatlântica a dinâmica de influentes e afluentes perceções estéticas.

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