A escrita criativa

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Os arreganhos de um velho poeta militante, como se auto-denominava José Gomes Ferreira.

Um dia, gostava de chegar à Lello (enquanto existir, que já ouvir dizer que vai ser destruída, tal como o conjunto do Palácio da Pena para a construção de um hotel de luxo...) e cruzar-me com Dostoieksvi. Perguntar-lhe que aulas teve quando escreveu "Os Irmãos Karamazov". Ou, sei lá, tomar café com Leon tolstoi e perguntar que professor de escrita o levou a parir o assombroso "Guerra e Paz".

Se calhar, nem é preciso ir tão longe, nem tão distante. Jorge Amado já me bastava, bebendo uma água de côco e segredando-me que orixás e oloduns lhe encomendaram "Os subterrâneos da liberdade" ou "Dona Flor e seus dois maridos". Ou Alves Redol, com um copo de tinto, explicando em teoria, com aulas dadas e carimbo carimbado, como escreveu ele "Gaibéus" ou com Saramago, com o 5º ano do liceu, coitado", perguntando-lhe como sua avô analfabeta foi fundamental para ele engendrar o "Memorial do Convento", "A viagem do elefante" ou o "Levantados do chão".

Bem sei que corro o risco de ser apelidado de conservador.

Ainda assim, cronista pequenino, poeta de segunda linha e letrista com a mania da intervenção (não se esqueçam que cresci a ouvir dizer que "a cultura é uma arma"...) não consigo sequer absorver a ideia de frequentar um curso de escrita criativa.

Bem sei que há cursos para tudo (teóricos e práticos): "Como ser feliz a dois", "Como deixar a companheira satisfeita sexualmente", "Como não destruir a sagrada família", "Como ganhar dinheiro facilmente", "Como enganar o próximo", "Como sair na Caras", ou até "Como construir uma igreja para traficar droga"...

Desculpem- todos, mas, não vou por aí...

Não consta nos anais da história da literatura, de Homero a Camões, do Marquês de Sade a Françoise Sagan, de Pier Paolo Pasolini a Simone de Beavouir, que além da leitura, da investigação, mas principalmente da vida, às vezes louca, às vezes demasiado intensa e outras até brutalmente vivida, como a de Michel Foucault, tivesse tido como ombro de apoio nenhum curso de escrita criativa, fosse ele lento ou acelerado, com computadores à mistura.

Não, não pensem que defendo que nascemos predestinados. Sou suficientemente ateu e defensor do materialismo histórico e do materialismo dialéctico ­ uma forma educada e estudiosa de dizer que sou marxista, o que hoje é quase a confissão idêntica a um herege nos tempos da inquisição - para não acreditar em escritores de pensa demasiado solta e tão fácil como os escritores bem-amados de hoje, à moda de um certo Paulo Coelho, cópia pouca da porno-literatura de Harold Robbins.

Um escritor faz-se. Pode ter tendencialmente jeito para a escrita. Como os ginastas, os bailarinos, os cantores, os futebolistas, até as "call-girls". Afinal, Marylin Monroe tinha muito mais cérebro do que parecia e se calhar por isso que foi desta para melhor.

Não, as loiras não são sempre burras... Um escritor transpira, zanga-se, tem momentos de raiva, de dor, de impotência, de loucura.

Pode até frequentar psicanalistas, psicólogos, psiquiatras, pode beber muito, fumar demais, precisar de aditivos, de anti-depressivos, pode ser julgado completamente louco pela comunidade. Mas faz-se.

Alguém ensina um pescador como se deita a rede? Alguém lhe conta os segredos da faina, da hora, do momento? Alguém ensina um Picasso a desenhar as "meninas de Avignon" ou a "Guernica"? Alguém explicou a da Vinci como haveria de pintar a Mona Lisa?

Admito que há um processo de aprendizagem. Leitura, muitas leituras, cada vez mais leituras. Escreve, rasga, deita fora, escreve, rasga, deita fora. E mais leituras, cada vez mais leituras.

Admito até que pode haver um clique que nos faz lembrar de uma estória, de um princípio de um conto, de um romance, de poema. Não lhe chamem, por favor, inspiração.

Para o bem e para o mal, nunca fui tocado por isso.

Tal como as aulas de escrita criativa. Como se deve começar um romance. Com frase curta ou frase longa? Logo atirados para a acção ou com a descrição do que vai vir a seguir? Apresentar a primeira personagem de rompante ou ir pouco a pouco abrindo o caminho ao leitor para a descoberta do enredo que vem a seguir.

É no afundar completamente na vida, nos caminhos ora lindos, ora escabrosos, na entrega total e tantas vezes dolorosa à realidade e sempre em busca de um sonho. Nos barulhos da cidade monstruosa. No silêncio das chanas sem fim.

No olhar de uma criança esfomeada. No corpo perfeito de uma mulher estonteante. No novo cavalheiro a quem o motorista abre a porta do carro de luxo. Na mistura do sorriso e da lágrima.

Do gozo e da desgraça. Da riqueza e da miséria. É dos homens e das mulheres, é da natureza humana, é da condição humana, diria Malraux que vem a capacidade da criação. Das madrugadas perdidas e dos copos bebidos.

Às vezes até de um diálogo aparentemente inofensivo. De uma música qualquer num canto perdido, madrugada adentro, quando a solidão doe, fere e magoa. De um sorriso lindo ou de uma gargalhada poderosa.

Tudo isto fez de mim um escritor. Para além das grandes professoras e professores que tive de português, francês e inglês que me abriram as portas da leitura e que depois de as abrir, encontrei eu próprio a natureza da escrita.

Lamento, pois, dizer-vos e se calhar decepcionar-vos: Eu não quero aulas de escrita criativa, obrigado.

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