A guetização da literatura africana, a fraqueza das editoras e do idioma e o futuro

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Por altura da Conferência Literária “Itália Encontra Pepetela”. 

"Traduzir Jaime Bunda foi uma experiencia rica"

Daniele Petruccioli - Queria dizer que a tradução é muito menos divertida do que a escrita. Ela nasce a partir de um empreendedor industrial, no meu caso uma editora que chama o tradutor, e que é muito pouco pago.
Fui professor durante dois anos em Viterbo, mas eu sempre quis ser tradutor. Não falta mais para ser. O tradutor também é muito pouco pago porque gosta demasiado do trabalho dele. Para mim, traduzir Jaime Bunda foi uma experiencia rica. O que acontece normalmente é que o tradutor gosta do trabalho, e depois começa a gostar da escrita do escritor, da cultura do país, e vai procurando outras coisas dessa cultura. E depois vai cheirando essa coisa nova que é uma cultura diferente. Traduzida obra, faz-se proposta às editoras que, gostando da tradução, solicitam também outros nomes, é assim com editoras pequenas. Porque em Itália as editoras com muito dinheiro não têm muita coragem e as editoras que têm coragem não têm muito dinheiro. A cultura angolana cresce na Itália como pequenos pontos.

"Escrever (de) Angola", livro sobre cultura e literatura angolanas será publicado em Dezembro na Itália

Mariagrazia Russo - Das universidades vão surgindo pequenas casas editoriais viradas à produção literária de países africanos. Em Itália, com o professor Giauluca Galleti, que durante dois anos lecionou na Universidade Agostinho Neto, uma nova editora intitulada "Tuga" vai brevemente abrir as portas às criações angolanas em particular.
Trata-se de uma editora nova que sairá ao mercado em Dezembro próximo com o meu livro intitulado "Escrever (de) Angola, escrito em português.
A editora tem esse nome irónico por razões ligadas ao tempo em que o professor esteve cá em Angola, onde muitas vezes era apelidado de "tuga", essa forma de variados significados para chamar de português".
"Escrever (de) Angola" é um livro exclusivamente sobre a cultura e a literatura angolana. O mesmo te m dois capítulos de história, onde faz um foco da relação de ideias entre Angola e Itália (Agostinho Neto e Joyce Lussu), dois capítulos de literatura e dois de língua.

"Nem tudo é traduzível"

Carmo Neto - ­ Agora mais tranquilos e a olhar para o mundo, podemos tratar melhor as problemáticas e barreiras da tradução. De certeza, e como é o caso de Pepetela, temos escritores que, por mérito próprio, levam o imaginário angolano pelo mundo. Mas será que localmente mais valores podem contribuir para o enriquecimento da literatura universal, porque nem tudo também é traduzível? Temos que saber ser autocríticos para poder oferecer à literatura francesa ou inglesa o melhor da imaginação literária angolana. E conscientes disso, o melhor que a U.E.A tem estado a fazer é manter o diálogo fecundo com as embaixadas, que deste resultado tem como mais novo rebento uma antologia de autores angolanos traduzida em árabe.

"As próprias editoras africanas são fracas e não têm capacidade"

Pepetela - Estamos num cruzar entre África austral e central, francófonos de um lado e anglófonos do outro, e a nossa literatura para ser conhecida tem de ser traduzida, de facto. Embora que a língua portuguesa esteja a crescer no mundo, por causa dos países africanos e particularmente do Brasil, mas ainda não tem a capacidade de se impor universalmente, e com isso também tem dificuldade de tradução. Não é só para italiano, mesmo a Itália sendo dos países que mais publica literatura angolana, mais, por exemplo, do que a França. Isso não depende, digamos, de nós. Haverá algumas instituições que podem ajudar a coisa a mudar e a funcionar.

Mas, fundamentalmente, depende dos editores, e particularmente editores estrangeiros. Eu tenho alguns livros traduzidos para francês ou inglês, mas, normalmente, estes livros ficam no nicho dos escritores africanos, onde para já começa a guetização.

E depois, outra guetização, os de língua portuguesa, fazendo diminuir o volume nas estantes das livrarias, particularmente das editoras.

Hoje em dia o que as editoras querem são os bestsellers, que antes de serem editados já são bestseller, esse que é o grande problema e que nos reduz cada vez mais. De um tempo a esta parte surgiu um pouco a literatura libanesa, indiana e latino americana, mas a literatura africana ainda está, realmente, guetizada.

E guetizada a tal ponto que os próprios africanos só conhecem os livros publicados na Europa. Os congoleses conhecem livros de senegaleses publicados em Paris, porque as próprias editoras africanas são fracas e não têm capacidade de publicar livros de outros países, que é também o que se passa aqui.

Nós tivemos uma colecção do Instituto Nacional do Livro e do Disco (INALD), nos primeiros anos da independência, que era de literatura africana e que a partir dela fizeram algumas traduções de escritores do Congo, Gabão, Senegal, Nigéria, Camarões, Costa do Marfim, em que saíram dois ou três livros de cada.

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